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Em novo livro, Salman Rushdie relata a sua década na clandestinidade

por AFP — publicado 18/09/2012 15h20, última modificação 18/09/2012 15h20
'Seria difícil hoje publicar um livro crítico sobre o islã', disse o escritor à BBC
Salman

Salman Rushdie chega a uma premiére em Toronto em 9 de setembro de 2012. Foto: AFP

Salman Rushdie, o autor do polêmico "Versos Satânicos" e alvo de uma fatwa (setença islâmica), lança nesta terça-feira 18 a história de uma década na clandestinidade, uma autobiografia que faz ressonância com o momento onde se multiplicam os eventos no mundo muçulmano contra um filme anti-Islã.

"Seria difícil hoje publicar um livro crítico sobre o islã", considerou o escritor de 65 anos falando à BBC, num momento que os violentos protestos contra "A inocência dos muçulmanos", um filme feito nos Estados Unidos, se espalham pelo mundo.

O novo livro de Rushdie é intitulado "Joseph Anton", seu pseudônimo quando estava escondido para escapar da fatwa do aiatolá Khomeini, em 1989, ordenando os muçulmanos a matar o autor de "Versos Satânicos", um livro considerado blasfemo pelo Islã.

Escrito na terceira pessoa, é uma crônica dos nove anos em que o autor britânico de origem indiana teve que se mudar constantemente de casas vigiadas por homens armados.

Ele lembra o que escreveu em seu diário na época: "Eu estou amordaçado e preso (...) Eu quero jogar futebol com meu filho no parque. Vida comum, banal, um sonho para mim inacessível".

Ele escolheu o nome de José Anton em homenagem a seus autores favoritos, Joseph Conrad e Anton Chekhov. Para seus guarda-costas e policiais responsáveis por sua proteção, ele era apenas "Joe".

Hoje, Rushdie vive a maior parte do tempo em Nova York.

O Irã assegurou em 1998 que a fatwa não seria aplicada. Mas o sucessor de Khomeini declarou em 2005 que Rushdie era um apóstata e que poderia ser morto impunemente. E o governo do conservador Mahmoud Ahmadinejad declarou em 2007 que a fatwa ainda é válida.

No domingo, a fundação religiosa iraniana que colocou sua cabeça a prêmio aumentou para 3,3 milhões dólares a recompensa por seu assassinato, dizendo que se Rushdie tivesse sido morto antes, "A inocência dos muçulmanos" não teria sido filmado.

Rushdie declarou na segunda-feira na televisão indiana NDTV que o filme era "o pior vídeo já feito", mas que não poderia haver justificativa "para o assassinato e caos".

O escritor é plenamente consciente dos riscos inerentes por ofender adeptos de um Islã rígido.

Suas memórias contêm o relato do assassinato do tradutor japonês de "Versos Satânicos" e de seu colega italiano, esfaqueado em sua casa.

Passagens mais leves evocam os policiais que faziam a sua proteção e de que quem gostava muito. Principalmente "Fat Jack" e "Dennis, the horse", que transgrediram algumas regras para tornar sua prisão suportável, deixando, por exemplo, que ele fosse ao cinema, uma vez que as luzes se apagassem.

Eles também levaram seu filho em um campo de esportes da polícia, formando "uma equipe improvisada de rúgbi".

Uma vez, Fat Jack - especiaista em tiro - usou seus talentos para ganhar um urso de pelúcia para seu filho em um parque.

Outro episódio: o plano sofisticado desenvolvido por seus guardas quando Rushdie teve que ir ao hospital para um tratamento dentário.

"Eles tinham preparado um carro fúnebre e me transportariam anestesiado em um saco". Mas o esquema não foi necessário.

Viver na clandestinidade teve um impacto significativo sobre a sua privacidade. Ele se separou das suas segunda e terceira esposas, que ele admite ter traído.

O fim da fatwa em 1998 foi para ele uma vitória "na luta pelas coisas que contam".

Mas, 14 anos depois, Rushdie lamenta que os escritores que criticam o Islã ainda sejam atacados por extremistas com um "vocabulário medieval". Segundo ele, são sempre as mesmas acusações: blasfêmia, heresia, insulto, ofensa.

 

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