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Cultura

Festival de Cannes

Em Cannes, os melhores estão ao lado

por Orlando Margarido — publicado 22/05/2015 16h24
Em seções paralelas, Apichatpong e Miguel Gomes foram exemplares na proposta original que faltou a competição
Divulgação
'Cemetery of Splendor'

Em 'Cemetery of Splendor', Apichat mantém seu mesmo universo e ritmo que lhe valeram a Palma de Ouro por 'Tio Boonmee...'

De Cannes

Apichatpong Weeresethakul conta uma história curiosa no pressbook de Cemetery of Splendor. Quando se preparava para filmar, Miguel Gomes lhe roubou o fotógrafo com quem o tailandês mantém parceria afinada e o contratou para o projeto As Mil e uma Noites.

Não fala em tom de reclamação, mas com humor, e deixa claro seu entusiasmo pelo cinema do colega português. Apichat, vamos sintetizar seu nome, então aceitou uma indicação vinda do realizador mexicano Carlos Reygadas.

A curiosidade é que ambos os filmes estão em Cannes, o tailandês na paralela Un Certain Regard, e o português na Quinzena dos Realizadores. No que diz respeito ao menos a fotografia, Apichat saiu ganhando ao trabalhar com Diego Garcia, profissional do México que agora colabora com o Brasil no novo longa-metragem do pernambucano Gabriel Mascaro.

Mas isso não significa demérito a Sayombhu Mukdeeprom no desafio exigente que Gomes lhe impôs, em iniciativa tanto singular quanto ousada. E afinal bem-sucedida, a julgar pela calorosa recepção da plateia na última exibição anteontem. As Mil e uma Noites é um projeto de três longas-metragens, tratados como “volumes”, com pouco mais de duas horas de duração cada um que faz uma irônica adaptação da lenda de Scherazade ao cenário presente de Portugal.

Comparecem o humor peculiar, a fantasia e os delírios marcantes do realizador já vistos em filmes como Aquele Querido Mês de Agosto e Tabu, agora divididos entre histórias reais do país situados como contos e a eventual interação com a rainha persa, interpretada por Cristina Alfaiate. Gomes explicou na apresentação dos filmes que se valeu de jornalistas para ajudá-lo na pesquisa de casos como o do galo processado por uma vizinha por cantar fora de hora, ou dos criadores de pássaros que competem no canto.

Em geral a excentricidade dá o tom nas histórias, mas também o quadro social de crise surge, como no caso do desemprego na zona portuária de Viana do Castelo. O Brasil é referido em diversas passagens. Há brincadeiras com expressões de evidente influência das telenovelas e o uso de cenas documentais e musicais, a exemplo dos Novos Baianos cantando Samba da Minha Terra.

Surge ainda no terceiro filme a citação ao fait divers envolvendo o escritor Euclides da Cunha, no controverso episódio de seu assassinato por um jovem militar, quando este, amante da mulher do autor de Os Sertões, se defendeu ao ser ameaçado. Sem exatamente um vínculo entre as histórias, os filmes serão lançados em Portugal de modo independente, com um intervalo ainda a ser determinado. A Mostra de São Paulo já anunciou o interesse em levar a trilogia para a cidade em outubro.

Da mesma forma os cinéfilos deverão contar com Cemetery of Splendor. Apichat mantém seu mesmo universo e ritmo, que lhe valeu a Palma de Ouro por Tio Boonmee que Pode Recordar suas Vidas Passadas, baseado nas lendas e tradições fantasiosas e folclóricas da Tailândia. Mais específico ainda, o interesse do realizador recai sobre a região fronteiriça de origem de sua família e resgata um fato real relacionado a presença ali por muito tempo do exército.

Sem explicação, soldados começam a cair num sono profundo e os médicos permitem a uma vidente se comunicar com eles. Numa dessas sessões, ela encontra o diário de um dos pacientes e passa a conhecer sua vida.

É como sempre um quadro real o que dispara o simbolismo e a espiritualidade nas tramas do diretor e aqui não faltam os fantasmas e as estranhas aparições que nos fazem embaralhar as fronteiras entre sonho e verdade. Sobretudo nos traz um canto recôndito e esquecido do cinema ao trabalhar com a fábula, a poesia e o inesperado, devolvendo a condição também de descolamento de uma postura realista e imediatista.

Esse exercício de estilo e linguagem tão similar dos dois diretores acabou por ser um antídoto estimulante ao talento morno exibido na competição oficial. Se há filmes dignos, alguns mesmo bons, o concurso pareceu perder de forma geral as paralelas, e incluo aqui o novo da japonesa Naomi Kawase, que já comentei, e do romeno Corneliu Porumboiu.

Trésor, ou tesouro, não é tão bom quanto os anteriores A Leste de Bucareste e Polícia, Adjetivo, mas preserva o apelo de analisar a atual sociedade romena de modo crítico e eficaz. Um pequeno empresário com dívidas convence um vizinho a buscar no quintal da casa de sua família no interior um tesouro escondido por seu avô quando da ascensão comunista. Tem início uma sucessão de fatos um tanto tragicômicos, como a necessidade de alugar um detector de metal.

Com um final sutil, o diretor dá o seu recado do que representa o dinheiro no seu país integrado a comunidade europeia, e claro, no mundo atual. Parece muita ambição para uma trama modesta, aliás real na família do realizador, mas longas com estrutura mais ambiciosa entregaram menos do que sua pretensão faria supor.