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Em 3 milênios, não evoluímos na questão dos gêneros

por Álvaro Machado — publicado 05/06/2013 18h54, última modificação 10/06/2013 08h53
Para o dramaturgo Nelson Baskerville, em cartaz desde 2011 com uma peça sobre o meio-irmão travesti, Laerte Coutinho deveria ser canonizado
Veronica Manevy
Nelson Baskerville

O dramaturgo Nelson Baskerville

Extremos sociais e de comportamento têm urdido tramas a garantir sucesso e a consolidar, há cinco anos, o perfil artístico de Nelson Baskerville. Em suas peças, luzes são dirigidas para sexualidades periféricas e identidades varridas para debaixo do tapete da história por guerras ou violência urbana, mas o diretor e autor teatral também recorre a emblemáticos questionadores de contratos sociais: August Strindberg, Tennessee Williams e Nelson Rodrigues. De outro lado, ainda que o teor de algumas encenações beire o escabroso, seu êxito ancora-se em linguagem cênica clara e habilidade pedagógica na condução de elencos, a alcançar dessa maneira um público mais abrangente.

No histórico do diretor de conquistas de contingentes de marinheiros de primeira viagem em teatro, estes junho e julho registram uma façanha. Em cartaz desde 2011, a peça Luis Antonio – Gabriela – biografia de seu meio-irmão, que se assumiu travesti e prostituiu-se e drogou-se na Espanha, até morrer com Aids – ganhará ovações em comunidades mais habituadas a circos mambembes que ao jogo cênico: Paranavaí (PR), Dourados (MS), Palmas (TO), Jequié e Feira de Santana (BA) ou Arcoverde e Caruaru (PE), entre 16 cidades do interior do país. Recepções feéricas à Cia. Mungunzá e sua narrativa já contam 35 mil espectadores em mais de uma centena de cidades, prêmio Shell de direção e ampliação para livro (ed. nVersos).

Recentemente a saga do personagem transexual ganhou a companhia, na trajetória de Baskerville, das ideias revolucionárias do oitocentista Strindberg sobre fidelidade conjugal, em montagem de Os Credores (retorno anunciado para o segundo semestre) que atualiza sua trama com o credo de “amor livre” dos anos 1960-70, hoje revivido em certos meios – a expressiva atriz Ana Bela Alzira foi localizada nessa militância. Já em As Estrelas Cadentes do meu Céu são Feitas de Bombas do Inimigo (em terceira temporada no Cit-Ecum, nova meca paulistana para teatros de grupo), o diretor igualou vítimas da Segunda Guerra a pequenos marginais que roubam tênis na periferia paulistana e são encarcerados por isso.

Também em suas cenografias, que passou a conceber em paralelo ao exercício da pintura, o encenador manipula um paradoxo. A sensação permanente de “sujeira”, pela anarquia de elementos ou acabamento imperfeito, convive com marcações precisas – característica louvada por Antunes Filho, que lhe destinou um prêmio, a sublinhar paralelo, entre os dois, de proposta de inteligibilidade universal para os textos escolhidos. Tennessee Williams é inspiração: “Ele expôs a sujeira que os americanos insistem em esconder, mas a imagem imaculada, ideal, é hoje coisa impossível”, diz. “Em certa altura, por aqui, tentou-se fazer do teatro relicário de perfeição, mas recoloquei nas peças a feiúra das coisas, da qual, no entanto, pode brotar beleza. Como dizia Tennessee, há nas montanhas violetas capazes de romper as rochas, ou seja, de quebrar os ciclos infernais desta vida”.

“Sujeira” e “ruído” já lhe proporcionaram, no entanto, a fieira de 36 prêmios para Por que a Criança Cozinha na Polenta (2008-10), peça por ele adaptada de um romance da romena Aglaja Veteranyi. Antes desta, 17 Vezes Nelson, de 2005, afirmou-o entre os estudiosos do dramaturgo pernambucano. “Dei a Nelson tratamento épico, assim como fiz com À Margem da Vida, de Williams”.

A par de conduzir o xará Nelson a condição elevada, reserva rebaixamento para o próprio sobrenome de ecos aristocráticos: “Vem de meus avós William Fountain e Minna Murray Baskerville, portanto sou mesmo o ‘cão dos Baskerville’, como no livro de Conan Doyle, embora vira-latas autêntico”, explica. O desdém à transmissão de pedigree é contraditado por fé na prática pedagógica, por décadas na Escola de Arte Dramática de SP e no Teatro Célia Helena, e, agora, na Escola Wolf Maya. Na vida pessoal, a discrição condiz com a atividade docente e sobre o que se apregoa sobre o signo de Virgem, no qual por 51 vezes já festejou o chamado “caminho do meio”, ou do equilíbrio. “Prego a conciliação e abomino a mania brasileira de excludência; veja os argentinos, por exemplo, que têm Broadway local fortíssima ao lado de palcos de vanguarda”, diz.

Embora o tema da transexualidade tenha se convertido em marco, não se acredita ousado: “Como para a maioria, a reflexão veio somente quando o rojão estourou em meus pés”, pondera, a partilhar com suas plateias de classe média a culpa de ter, um dia, virado o rosto ao próximo atingido por maldição. Também na carreira anterior, de ator, a prudência falou alto: “Meu segundo papel foi em Nossa Senhora das Flores (1985), o Jean Genet que, adaptado por Maurício Abud e Luiz Armando Queiroz (1945-99), marcou a classe teatral. Mas quando morreu o terceiro integrante do elenco decidi pular fora”.

Em comparação com tal época, lamenta, no entanto, a atual “falta de fervor” numa “atividade que equivale a um ritual completo, ao encontro com o sagrado”. E localiza causas: o esfacelamento de grupos que nos anos 1960 “já eram revolucionários”; e a “morte precoce de talentos como os dos teatrólogos Jorge Andrade e Plínio Marcos, da atriz Cacilda Becker, do cenógrafo Flávio Império, dos diretores Flávio Rangel e Luiz Roberto Galizia, entre tantos mais”.

A carreira de ator esfriou, mas avalia ter sido bastante reconhecido em duas novelas de TV (Maysa e Viver a Vida, ambas de Manoel Carlos), a compensar de certa forma uma desilusão dos pais, que na litorânea cidade paulista de Santos (que lhe rende homenagem dia 14 no Sesc local) esperavam que seu caçula fosse aplaudido nos tribunais, como advogado.

Ainda em torno de sexualidades, opina o diretor que “Laerte Coutinho deveria ser canonizado pelo avanço que promove” e inaugura novo capítulo sobre o assunto no dia 18, no Centro Cultural São Paulo, com Lou e Léo, biografia escrita por ele com o “trans-homem” Léo Moreira Sá, também no palco como intérprete de si mesmo. Ex-baterista da banda punk As Mercenárias, Léo sepultou sua identidade anterior, Lourdes Helena, e enveredou pela atividade de iluminador teatral, com um prêmio Shell ganho há meses. “A sociedade é muito cruel com essas pessoas e Lou passou cinco anos em presídio (por envolvimento com cocaína). A diferença entre Léo e Luis Antonio é que o primeiro está vivo. Nos últimos três milênios não evoluímos nada na compreensão dos gêneros sexuais”, sentencia o diretor.