Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Ele que sabe demais

Cultura

Protagonista

Ele que sabe demais

por Orlando Margarido — publicado 13/03/2011 16h38, última modificação 14/03/2011 16h39
A habilidade de Gilles Jacob para presidir e contar em livro os bastidores do Festival de Cannes. Por Orlando Margarido, de Cannes

A habilidade de Gilles Jacob para presidir e contar em livro os bastidores do Festival de Cannes

Todo ano, há pelo menos três décadas, lá está ele no topo do tapete vermelho mais glamouroso do cinema mundial, munido de sua máquina fotográfica de bolso, seu sorriso e cumprimento indefectíveis para cada estrela se sentir a única. Que não se contabilize na lista desses momentos mundanos a Hollywood que se agrega na entrega do Oscar, pois lá nunca se viu figura elegante, longilínea e, sobretudo, diplomática como o francês Gilles Jacob, 80 anos em junho. Cannes tem prestígio superior ao de festivais internacionais, como Berlim e Veneza, não apenas pela seleção de filmes e realizadores habitualmente impactante, mas também pela atuação nos bastidores desse cinéfilo, crítico e habilidoso administrador de encrencas. Algumas delas, além do perfil de sua formação, foram relatadas de próprio punho em livro lançado por ocasião da mostra do ano passado e agora editado no Brasil.

Cidadão Cannes – O homem por trás do festival (Companhia das Letras, 376, R$ 54) tem o lustro de uma peça de vaidade, reconheça-se. Mas, antes de espanar a sua própria, Jacob dá tantos exemplos das exigências peculiares de seus convidados que elas justificam os dois lados. O que pensar, talvez, de uma caprichosa Isabelle Adjani em determinar, sem interferências, os nomes de colegas que ela presidirá no júri oficial? Ou das exigências estelares feitas por Martin Scorsese quando do convite para liderar o time principal dos jurados em 1998? Na verdade, não por ele, pouco animado pela oportunidade, mas por um assessor maior que o rei, obcecado por conseguir um hotel de luxo retirado do centro festivo, avião particular e outros confortos. A saída: uma medalha da Legião de Honra ao mestre, balançado pela homenagem, e uma chantagem. “Sem presidência, nada de condecoração”, nas palavras de Jacob no livro. O bote deu certo e passou-se então a escolher os integrantes que Scorsese conduziria.

O cineasta americano já havia sido motivo de um episódio desafiador, a respeito da tentativa de Jacob de trazer Os Bons Companheiros oito anos antes para a competição oficial. Passagem que o presidente nos conta em detalhes de suspense hitchcockiano, envolvendo neve e endereços enganadores que despistam bisbilhoteiros em Nova York. Ao final da caçada, vem o realizador, mas não sua criação. Lançar filmes que todos querem ver, aliás, é um dos temas mais saborosos servidos na brochura e contempla, por exemplo, um Apocalypse Now não finalizado de um Francis Ford Coppola titubeante. Os estúdios United Artists quase puseram tudo a perder, mas a grandiosa produção foi vista na Croisette com a presença de Coppola, e premiada. Mas Jacob, depois de uma negociação interminável, ouviu dele, charuto na mão: “Ganhei apenas meia Palma”. Naquele ano de 1976, o principal prêmio do concurso, a Palma de Ouro, foi dividida com O Tambor, de Volker Schlöndorff. As relações se seguiriam por algum tempo tumultuadas, quando Cop-pola aceita e depois se demite da presidência do júri, em 1988, e finalmente cumpre o papel em 1996.

A CartaCapital, em 12 de maio, um dia antes da abertura da 63ª edição do festival, encerrado no domingo 23, Jacob comentou a mais complexa das tarefas. “A escolha de um filme, principalmente aquele que de alguma maneira se torna um objetivo pessoal de Cannes, depende de vários fatores”, explica. “Se o país quer, se o realizador quer e, principalmente, se a sorte quer”. Para esse caso, Jacob tem um exemplo revelador no livro, quando foi à Rússia ainda comunista buscar obras-primas e voltou com algumas, mas não aquela pretendida. E há outra situação atual. “O Irã é neste momento um desafio aos festivais.” E lembra o caso de Jafar Panahi, que, durante o período da mais recente edição, anunciou uma greve de fome por estar preso pelo governo iraniano e impossibilitado de exibir seus filmes fora do seu território. “Cannes sempre preza a liberdade dos artistas e neste ano fazemos o nosso protesto pela situação de Panahi como podemos.”

Desde 1977, quando largou a empresa familiar e a crítica de cinema em Paris para assumir, primeiro, como delegado-geral da mostra, e em 2001 a presidência, Jacob conhece a arte da discrição e da paciência. A primeira ele exerce sempre, mesmo no livro, revelando bastidores, idiossincrasias, mas sem ser ofensivo. Quanto a se impacientar, só mesmo quando lhe fazem as tais exigências impossíveis. Para se equilibrar no ofício, criou 15 regras de comportamento, entre elas determinantes para Cannes, como “honrar os grandes autores, confirmar os já conhecidos, revelar as novas gerações”, ou simplesmente galanteadoras, como “não perder de vista que um belo rosto de mulher é a razão de ser do cinema (cineasta enamorado)”.

A crônica das belas mulheres acompanha o dossiê de Jacob, de Jane Fonda a Sophia Loren e voltando a Sharon Stone, a quem ele temia machucar “os famosos seios” ao lhe alfinetar uma medalha. Fala pouco, no entanto, de Catherine Deneuve, o maior símbolo francês para o mundo. “Ela é extremamente reservada e até hoje mantemos uma distância respeitosa.” Ser reservado é também uma característica de Jean-Luc Godard, que depois de muito tempo retornou à mostra neste ano, não ele, que declinou “por motivos do tipo grego”, mas seu Film Socialisme. Melhor justificativa impossível para ocupar- menos espaço nas memórias do presidente do que François Truffaut. “Truffaut foi quem sempre me acompanhou na trajetória do festival. Godard se manteve em seu quase exílio no chalé da Suíça e dali fez sua história no cinema.”

Antes de oficializar sua posição em Cannes, Jacob o frequentava como crítico. Assistiu, por exemplo, ao impedimento da edição de 1968, com seu famoso levante estudantil, pelos nomes da Nouvelle Vague, como os próprios Godard e Truffaut. Os “jovens turcos”, como foram proclamados, não chegaram no entanto ao extremo do espanhol Carlos Saura, que pulou no palco para não deixar a enorme cortina vermelha se abrir para uma exibição. Saura, aliás, assim como o polonês Andrej Wajda, recusou o convite para presidir um júri. “Questão de moral”, lembra Jacob. “Eles não queriam julgar seus pares.” Hoje, acredita o presidente, diatribes juvenis como as dos anos 60 não têm mais palco em Cannes. “Os protestos e as provocações agora estão nas telas, talvez seu lugar mais propício para atingir o mundo todo.”

Poucos dias depois da entrevista, as circunstâncias pareciam relativizar suas palavras. Primeiro, com o caso Panahi, alvo de um apelo comovente do conterrâneo Abbas Kiarostami por sua libertação, e, depois, com Roman Polanski. O presidente do júri de 1991 e Palma de Ouro por O Pianista em 2002 foi motivo de uma petição endereçada à Justiça suíça para que rejeite o pedido de extradição dos Estados Unidos, onde o cineasta seria julgado por crime de abuso sexual. No documento que circulava em Cannes, os signatários são diretores como Godard, Mathieu Amalric, Xavier Beauvois, Woody Allen e Bertrand Tavernier. Houve recusas, como a do ator Michael- Douglas, que numa rádio francesa defendeu o julgamento do infrator.

O comentário ecoou no pensamento de Gilles Jacob, em entrevista também na rádio, na forma diplomática que lhe é peculiar.- “Ainda que Polanski seja um realizador imensamente importante, ninguém é imune à lei. De qualquer forma, isso não tem a ver conosco, não nos cabe julgar.” Não se esquivou de dar seu recado, mas estava com a atenção voltada a compromissos que são reflexos de sua persona em Cannes. Numa pequena livraria próxima ao Palácio do Festival, polêmicas ainda acesas, tratou de distribuir autógrafos de seu novo livro que reúne as fotos registradas no tapete vermelho. Aguardava ansioso também o documentário para o canal Arte, exibido na programação do festival. Com a homenagem, ganhou mais um epíteto, “o perscrutador perito da Croisette”, e assim manteve sua altivez por mais alguns anos no alto da escadaria. •