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Brasiliana

Ela é uma festa

por Ricardo Carvalho — publicado 25/11/2010 10h23, última modificação 25/11/2010 10h23
Sempre vestida para a noite, Clarice Berto tem uma missão: manter aberto o tradicional Bar do Museu, no centro de São Paulo

Sempre vestida para a noite, Clarice Berto tem uma missão: manter aberto o tradicional Bar do Museu

Entrada somente para sócios”, diz a placa de metal fixada na porta da sobreloja do número 324 da Avenida Ipiranga, em São Paulo. Mas ninguém liga. Faz quase dez anos desde que a mensagem virou uma peça decorativa do Bar do Museu, uma lembrança dos tempos em que apenas associados e convidados, entre eles personagens como Silvio Caldas, Aldemir Martins, Di Cavalcanti, Gustavo Rosa e Clóvis Graciano eram admitidos.

Nostalgia é talvez a palavra que melhor define o ambiente: carpete avermelhado, mobília dos anos 60, ares de pub inglês e paredes repletas de quadros de alguns dos mais importantes nomes da arte moderna do País. “Aqui era assim, os artistas expunham e depois deixavam um quadro de lembrança para a associação”, diz Clarice Berto, atual presidente da Associação de Amigos do Museu de Arte Moderna (Aamam), sediada no bar.

Clarice está desde 2001 à frente da Aamam. Aos 64 anos, impecavelmente maquiada, cabelos tingidos de loiro, pescoço adornado por uma dezena de colares e dedos repletos de anéis em forma de rosas na mão esquerda, serpentes na direita. “Todo dia me visto como se fosse uma festa, porque eu sou uma festa”, diz.

Clarice ostenta o título, sugerido pelo Jornal da Tarde, de última mecenas das artes de São Paulo. “Última não, mas, certamente, uma delas. Com certeza têm pessoas por aí que a gente nem sequer conhece, não é?” Na parede ao seu lado, destaca-se um dos gatos de Aldemir Martins, especialmente dedicado à “turma do clubinho”. O tal clubinho, do qual o bar faz parte, realizou suas primeiras reuniões no fim dos anos 40 e funcionou inicialmente no antigo endereço dos Diários Associados, na Rua 7 de Abril. Os integrantes lutavam pela criação de um Museu de Arte Moderna na capital. Quando, em 1958, um espaço foi designado no Parque do Ibirapuera, a Aamam foi oficialmente fundada e transferiu-se para o local. “Era um charque. Os boêmios não aguentaram e trouxeram a associação e o bar de volta para os Diários Associados, alegando que ninguém conseguia chegar às reuniões no Ibirapuera”, explica Clarice. Aos poucos, o Museu de Arte Moderna e o clube que o originara se desligaram e houve um período de itinerância pelo centro. A sede mais duradoura foi na Galeria Metrópole, na Avenida São Luís, quando a atual presidente, então estudante de Psicologia, começou a participar das reuniões.

A novata na Aamam não teve muito contato com os principais personagens da arte brasileira que se encontravam no local. “Eles ficavam numas mesas redondas e eu era de uma turma mais nova, dificilmente alguém de fora ia sentar lá. Mas eu sempre os via.” Sobre as personalidades que ela costumava avistar de longe surgem os nomes de Vinicius de Moraes,- Paulo Autran, Lygia Fagundes Telles e Germano Matias, além de políticos como Ulysses Guimarães e Jânio Quadros. Ainda na Metrópole, Clarice lembra-se de quando o jovem Chico Buarque aparecia. “O pai dele frequentava muito aqui, e o Chico vinha perguntando se alguém queria ouvir uma música que tinha composto, mas todo mundo achava que ele não tinha voz. Daí falavam: ‘Ih, lá vem o chato do filho do Sérgio’”, diverte-se.

Em 1978, a atual sede, na sobreloja do edifício ao lado do Copan, foi adquirida. Ao assumir a presidência em 2001, Clarice abriu o bar para os não sócios, numa tentativa de atrair novos frequentadores e recuperar o caráter de local para incentivo a novos artistas, função que havia se perdido. Pelo estatuto, a associação não pode cobrar pela utilização do espaço para exposições, apenas exige que os organizadores deixem as paredes limpas e prontas para os próximos usuários. Já na quarta mostra na Aamam, os estudantes de Artes Plásticas da Universidade de São Paulo Guilherme Boso da Cunha, Frederico Heerna e Helena Lima estão felizes com a oportunidade. “Aqui é dado um espaço para artistas que estão começando e estudantes, algo raro. Além do mais, o ambiente é quase um patrimônio histórico da cidade”, diz Cunha.

Quem conhece a sede da Aamam sabe da paixão da presidente pelo local e por seus frequentadores. Ainda hoje, para os clientes mais antigos que exagerarem na bebida, ela disponibiliza um Gurgel 1989 para deixá-los em casa. “Muitas esposas me conhecem, eu só ligo e digo que estou chegando com fulano.”
Clarice Berto, além de presidente, é a última associada, já que todos os demais faleceram ou desistiram do título por estarem muito idosos. Casa lotada, antes algo comum, atualmente só acontece em noites de inauguração de exposições ou saraus literários.

Desde 2003, os horários de acesso foram limitados pela administração do edifício para contenção de custos. Os clientes só podem entrar antes das 9 da noite e devem sair até a meia-noite. Na entrada é preciso apresentar um do-cumento com foto.

As limitações resultaram na diminuição da clientela e, consequentemente, das receitas. Há mais de dois anos a Aamam deixou de pagar condomínio e, por isso, enfrenta um processo de penhora na Justiça. As despesas de luz, água, manutenção e bebidas somam de 3 mil a 4 mil reais mensais, valor complementado por Clarice quando há necessidade. “Eu ainda estou aqui porque me identifico com o lugar, só por isso, porque não ganho nada. Ao contrário. Além do mais, eu acho que é uma história muito bonita para morrer na praia.”