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Refogado

Ego: nasce uma esperança

por Marcio Alemão publicado 22/02/2011 10h51, última modificação 22/02/2011 10h51
Uma noitada na Associação dos Ex-Gordos Operados é o que desejo a quem ousou reduzir o estômago

Uma noitada na Associação dos Ex-Gordos Operados é o que desejo a quem ousou reduzir o estômago
Foi ao médico e disse: “Decidi fazer a cirurgia”.
E agora, José? O camarada em questão é um amigo próximo, louco por comida, apreciador de boa bebida e colecionador de índices glicêmicos espetaculares. E foi por causa desse último e incômodo detalhe que a decisão foi tomada. Sugeri que frequente ou funde, se a mesma ainda não existir, a EGO, uma associação de Ex-Gordos Operados.
– Boa-noite, meu nome é Paulo e estou há dois anos sem colocar um torresminho na boca.
Poderia ser desmascarado!
– Mentira! Eu te vi no Rincão da Gordura D’Ouro, enchendo a mão de torresmo e linguiça!
– Mas eu só coloquei na boca. Eu juro que nem cheguei a mastigar. Eu precisava disso, ah, como eu precisava! E, aliás,- o que é que você foi fazer no Rincão?
– Eu? Eu fui provar a mim mesmo que sou um forte!
– E conseguiu?
– Não. Fracassei.
Imaginei o bailão da saudade rolando. Uma livre adaptação da música que consagrou Francisco Petrônio diria: “Ah, que saudade eu tenho dos rangos de outrora, da farta feijoada e a caipirinha da hora...”
E, no telão, fotos  sendo projetadas. Belíssimas pratadas de macarrão, rabada com polenta e agrião, e um engraçadinho dizendo que “nem tudo se perdeu, sobrou o agrião”. Encontros em pizzarias, festas da cerveja e todo um mundo de calorias que foi deixado em uma mesa de cirurgia. O mesmo pândego que fez a piada do agrião cantaria: “Naquela mesa tá faltando ele e a saudade dele tá doendo em mim”. E, claro, “ele” é o pedaço do estômago que se foi.
Brincamos quando nos referimos ao tipo de procedimento que será adotado. A do Pedrinho não é legal. Deixa a pessoa magra, mas muito cinza e triste. O Nereu se deu bem, emagreceu e continua enchendo a lata. E sempre vem a dúvida: será que ele operou, mesmo? A escolha do Salomão foi boa. Já pode comer de tudo. Pouquinho, mas vai de tudo. O problema é que o Salomão era daquele tipo que via cara e não via coração. Fazia parte da turma da quantidade. Minha leiga e meiga opinião: é mais fácil assim. Quando não existe a paixão pelo bocado que é degustado, não se sente tanto a perda.
E esse não é o caso do meu camarada, o que nos leva a cultivar uma pequena ruga de preocupação entre os olhos. Ao mesmo tempo, novas máximas têm sido praticadas. Acho que podemos considerar isso um lance neurolinguístico. Descobrir que “comer não é tudo na vida”, “não como mais com os olhos, como com a cabeça”. Quase oro para que jamais chegue o dia em que esse camarada, magrinho, amarelado, se aproxime de mim com suas pelancas tristonhas a balançar e me diga: “Descobri, amigo Alema, que eu como para viver e não vivo para comer”. Acho que seria capaz de terminar a sólida amizade de 30 anos.
Na verdade,  eu o incentivei. O motivo talvez não seja o mais nobre. Perdi totalmente a fé na capacidade do gajo de lograr sucesso com uma dieta que dispense o uso da sala de cirurgia. A eterna segunda-feira transformou-se no mês que viria e o mês que viria virou o ano e a conclusão de que muitos anos não lhe sobrariam.
Será melhor. Digo a ele e a qualquer um que esteja vivendo drama semelhante.  Os fiéis leitores dos últimos dez anos sabem que já passei por maus bocados. Tive de abrir mão de boas comidas e boas bebidas. Abrir mão do cigarro, por exemplo, é um feito que até Hércules, se, como eu, fumasse três maços por dia, encontraria gigantesca dificuldade para levar a cabo. E não havia nem há cirurgia para acabar com esse vício. Fui na valentia, ajudado por um diagnóstico ruim, tão ruim quanto uma diabete furiosa.
Aceitei todas as restrições e não vivo mais triste. Do cigarro, já disse e repito, falta não sinto. Sinto apenas uma enorme saudade dos momentos que passamos juntos. Acho que será assim com meu amigo. Mas nada que uma noitada da saudade na EGO não resolva.