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“É uma reflexão”

por Redação Carta Capital — publicado 26/02/2013 17h52, última modificação 27/02/2013 14h28
Mino Carta comenta a publicação do livro “O Brasil”, um painel da história recente do jornalismo de um país onde “a ignorância campeia de forma acintosa”

Toda vez que termina de escrever um livro, o jornalista Mino Carta, diretor de redação de CartaCapital, envia uma cópia ao amigo Alfredo Bosi em busca da opinião “do maior crítico cultural brasileiro ainda vivo”. O professor-emérito da Universidade de São Paulo, como de hábito, responde por meio de cartas. Desta vez, a correspondência rendeu o posfácio do romance O Brasil (Record, 356 págs., R$ 44,90), história do País e de seu jornalismo por meio da ficção.

O livro será lançado nesta terça-feira 26, em São Paulo, a partir das 19 horas na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. No dia 5 de março, a noite de autógrafos acontece na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, no Rio de Janeiro e, no dia 12, na Livraria Saraiva MegaStore, no Shopping Pátio Brasil, em Brasília.

O Brasil começa com a morte de Getúlio Vargas e tem como personagem central Aboukir. Filho de Waldir, um professor de História e Geografia no Colégio do Estado, o jovem ganhou o nome exótico porque o pai detestava Napoleão Bonaparte e decidiu batizar o filho com o nome de uma batalha perdida pelo general francês. A partir do personagem, Mino Carta, ancorado em sua vasta experiência no comando de alguns dos principais veículos de imprensa do País, constrói um enredo entremeado por memórias.

“Por um lado é uma ficção, mas ganha de alguma maneira plausibilidade por se desenrolar em cenários e ocasiões históricas não inventadas”, explica. “Nele interferem personagens da realidade.” A redação do jornal O Estado de S.Paulo, por exemplo, é descrita como era em diferentes oportunidades e momentos.

Mergulhada nesse ambiente, a obra, como define o autor, é uma crítica feroz ao comportamento dos jornalistas brasileiros. “O jornalismo nativo já foi melhor, pois as pessoas tinham mais conhecimento, inclusive da língua. Hoje, a ignorância campeia solta de forma acintosa, incluindo o desrespeito ao vernáculo praticado diariamente com grande afinco”, diz.

Resultado, afirma o autor, do próprio processo histórico de um país ainda mergulhado na Idade Média. “O Brasil é muito atrasado, inclusive comparado com a Argentina, Uruguai e Chile. Não teve uma guerra de independência ou civil de verdade, não teve um momento de consciência profunda que o levasse a criar efetivamente uma nação. Ao contrario de outros países, que passaram por guerras e se livraram do colonizador. O Brasil passou por três séculos e meio de escravidão que o marcaram inexoravelmente. E ainda não saiu disso, a casa-grande e a senzala ainda estão aí. As relações são mais cínicas na casa grande, os eventuais moradores dela se entendem. As conciliações são das elites não por acaso, o povo está ali de ócio. A imprensa está a serviço da casa-grande, é de uma evidência solar.”

O livro, diz, “é uma crítica tanto a essa decadência estética, mas também moral, porque o Brasil é o único lugar do mundo onde os jornalistas chamam patrão de colega”.

Apesar das críticas, o criador de Veja, IstoÉ, Jornal da Tarde e CartaCapital não acredita que o livro seja “um acerto de contas” com a mídia. “É ao mesmo tempo uma descrição de como vi as coisas, o mais possível honesta, e uma reflexão. Porque, ao fazer essa reconstituição, também me pergunto por que certas coisas acontecem.”

O Brasil começou a ser escrito no começo de 2010. Levou cerca de um ano para ser concluída. As páginas, diz, ganharam vida “nas horas vagas” da rotina na revista semanal. “Sou treinado pelo jornalismo, escrevo quando devo. Uso os fins de semana, as noites. Se tenho uma disponibilidade agora, sento à máquina e escrevo.”

Nas visitas à sua Olivetti, Mino Carta retrata no prólogo as memórias do período da Segunda Guerra Mundial, quando precisou abandonar Gênova, sua cidade natal, com a mãe e o irmão rumo a uma aldeia a 100 quilômetros ao norte da cidade. “Quando saímos, a cidade era bombardeada severamente todas as noites. A nossa casa estava com todos os vidros estourados e uma parede tombada”, conta.

E emenda: “Descrevi uma situação a meu ver real porque a descrevi com extrema honestidade e sinceridade. A gente aprende a escrever lendo, muita leitura é importante. Comecei a ler com 7 anos. Li (Charles) Dickens com 8 anos. A literatura inglesa me impressionou demais”.

Sobre o autor. Genovês nascido em uma data incerta entre 6 de setembro de 1933 e 6 de fevereiro de 1934, Mino Carta começou no jornalismo em 1950, cobrindo a Copa do Mundo como correspondente do jornal Il Messaggero, de Roma. Colaborou de 1951 a 1955 com a revista Anhembi, fundada e dirigida por Paulo Duarte, e foi redator da agência Ansa em São Paulo. Mudou-se para a Itália em 1957, onde trabalhou como redator dos jornais La Gazzetta del Popolo, de Turim, Il Messaggero e como correspondente do Diário de Notícias, do Rio, e da revista Mundo Ilustrado. Voltou em 1960 para o Brasil, onde fundou e foi diretor de redação da revista Quatro Rodas. Também fundou e dirigiu a edição de esportes de O Estado de S. Paulo (1964-1965). Dirigiu o Jornal da Tarde (1966-1968), as revistas Veja (1968-1976), IstoÉ (1976-1981) e o Jornal da República (1979-1980). Foi diretor de redação da revista Senhor de 1982 a 1988 e de IstoÉ de 1988 a 1993, quando saiu para criar a CartaCapital.

Em 2001, também pela Editora Record, lançou o best seller O Castelo de Âmbar.