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Cultura

Refogado

E todo mundo se calou

por Marcio Alemão publicado 29/09/2010 16h59, última modificação 29/09/2010 16h59
Shows de grande impacto, como a comida rara, tornam-se lembranças cada vez mais distantes

Shows de grande impacto, como a comida rara, tornam-se lembranças cada vez mais distantes

Tínhamos entre 19 e 22 anos. Eu cravara 19. Éramos quatro ou cinco e optamos pelo programa da tarde. O evento levou o nome de São Paulo-Montreux Jazz Festival. Isso mesmo: podíamos escolher. Tarde ou noite. Entre 19 e 22, com a vida ganha, que programa melhor alguém poderia sugerir para nós, loucos que éramos por jazz?

Almoçávamos em casa e íamos para o Palácio das Convenções, no Anhembi. Vários artistas se apresentavam no mesmo dia. Os primeiros a se apresentar padeciam com nossa clássica mania de chegar um pouquinho atrasados. Como disse, eram muitos artistas, muitas apresentações. Os horários não permitiam manobras, desculpas.

Na hora marcada, a sessão começava. E sempre em meio a muito burburinho. Pessoas chegando, procurando seus assentos, cumprimentando amigos. Larry Coryell, o americano, e Philip Catherine, o belga, seriam os primeiros em um dia que não me lembro o número. Uma dupla tocando violão. Poucos, bem poucos, os conheciam. “Dupla de violonistas abrindo o dia? Vai ser difícil ouvir os caras nos primeiros 15 minutos.” Foi o que pensei e pensamos.

Eles entraram no palco. Aplausos confusos. A luz diminuiu. Começaram a tocar. Não se passaram mais de 60 segundos. Em menos de um minuto estavam todos, todos quietos, mudos, sentados ou paralisados em algum canto. Nada se mexia. Estávamos assistindo a um espetáculo, para usar um termo da época, totalmente fora de série. Era novo e era muito bom. E era tão bom que não precisava de nenhum experto para apontar as qualidades que pobres mortais costumam ignorar em grandes obras. Obviamente, o êxtase dos iniciados deveria estar sendo ainda mais exuberante.

E a comida, tem o que a ver com isso?

No fim de semana, ouvi o disco que saiu desse show. Chama-se Twin-House e é uma obra-prima. Ouvi-o na casa de meu irmão, durante um almoço. E durante o almoço conversava com meu sobrinho, que é chef, sobre muitas coisas relativas ao tema. Resultados de concursos, prêmios de publicações, onde tenho comido etc. etc. E foi aí que me lembrei da tal tarde.

Raríssimas foram as vezes em que o fenômeno Larry Corryel e Philip Catherine aconteceram em uma mesa, diante de uma refeição. Muito raras as vezes em que estava conversando, rindo, falando sobre destinos prováveis da humanidade ou o que fazer no domingo à tarde, quando, ao colocar a primeira garfada na boca, perdi o sorriso, calei-me e me senti praticamente abduzido por aquela comida. E, da mesma forma, não é preciso ser um conhecedor ou crítico para descobrir que aquilo ali está uma delícia, perfeito e será inesquecível. E tem sido raro porque de fato o é.

Pensei que em minhas aventuras por estreladíssimos restaurantes de Paris isso fosse acontecer. De fato fiquei em silêncio após a primeira garfada, perguntando-me: o que teria levado os grandes conhecedores a atribuir estrelas a esse local? Com certeza não comeram os mesmos 11 pratos que comi.

Se alguém acredita que ao passear pelos restaurantes laureados de São Paulo, que muitos afirmam ser a capital gastronômica do País, esse fenômeno vai se manifestar seguidas vezes, ledo engano. Pelo menos comigo, isso não acontece há muito tempo. Verdade é que tenho frequentado poucos restaurantes por conta dos preços ridículos que praticam. Mas estou atualizado com os premiados. Frequento-os pouco e não sinto saudade de nenhum. Sendo franco, sinto saudade somente do Fasano, onde por vezes como as coisas mais simples e mais raras: aquelas com extraordinário sabor. No mais, shows sem grande impacto que não vão fazer a plateia se calar.