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Abate

E se errar a marretada?

por Marcio Alemão publicado 30/12/2010 10h17, última modificação 30/12/2010 11h06
Acertar o boi em cheio parece resumir o conceito de abate humanitário

Acertar o boi em cheio parece resumir o conceito de abate humanitário  

Não sei se andam a pensar nisso, mas seria, a meu ver, o maior avanço genético de todos os tempos. Animais que tenham vida breve. Tento explicar minha teoria. Estou lendo o livro Libertação Animal (WMF-Martins Fontes), de Peter Singer, professor de bioética da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Acredito que todos tenham uma ideia das “maldades” cometidas com animais de variadas espécies, para consumo ou testes. A ideia que eu tinha, garanto, é muito distante do que de fato pode acontecer e tem acontecido. A crueldade parece não ter fim, assim como as justificativas. Abate humanitário é algo que se persegue há décadas. E vale dizer, claro, que em muitos lugares já se pratica. Mas o que vem a ser um abate humanitário? Basicamente, um jeito de matar sem dor, sem sofrimento.
Imagem de minha infância: uma tarde no matadouro. O matadouro era do Olival, que tinha o melhor açougue da cidade. Uma cidade pequena, 12 mil habitantes. Soube que estávamos perto por culpa do cheiro. Um fedor insuportável. Não era de carniça. Vim a descobrir que a farinha de osso, a sua confecção, conseguia ser mais fedorenta que uma carcaça entrando em decomposição.
Em tempo, coisa que não mais se vê e se via muito pelas estradas: caminhão carniceiro. Passava por matadouros, recolhia as carcaças e as levava, imagino, para as profundezas do inferno para atormentar almas merecedoras de tal punição. Alguma boa lei deve ter proibido o desfile desse carro alegórico da morte.

Não diria que o matadouro do Olival fosse sujo. Não conhecia outros. Vi terra, vi barro pisado por cascos de bois apavorados, vi estrume de boi, todos os objetos de cena esperados naquele palco. E havia uma enorme marreta. Tentei erguê-la. Meus primos também. Mal conseguimos. Mas um dos filhos do Olival, às vezes até o próprio, conseguia fazê-lo.  Eram rapazes com uma patola de Maciste!
O movimento era belo. Belo o desenho, trágico seu significado.
– O boi entra aqui nesse corredor. A gente levanta essa porta e ele passa por esse espaço que é pequeno, justo, pra ele não se mexer muito. E aqui a gente manda a marreta bem na testa dele. Ele cai, a porta abre e ele escorrega lá pra dentro.
Descemos e fomos ver o “lá pra dentro”. Ali o boi era acorrentado pelos pés e erguido. Entrava em ação a faca-vampiro, rasgando a jugular e fazendo o sangue escorrer. Por roldanas começava o passeio do falecido. A cada parada lhe arrancavam algo, até sobrar somente a tal carcaça.
Éramos moleques valentes e fizemos questão de assistir a uma marretada seguida de esquartejamento.
Esqueci o nome do filho do Olival que levantou a marreta e mandou na testa do pobre. Se eu disser que me lembro até hoje do som da marretada e do boi caindo, você acredita? Acho que acredita. E acredita que o camarada nos contou que, às vezes, um ou outro caboclo menos preparado tentava, errava e acabava acertando outras partes do boi? Aqui se entende um pouco o significado de “abate humanitário”. É muito maluco imaginar a dor que um animal pode sentir ao receber uma marretada que não o mate?
E, assim que o boi escorregou, fomos ver todo o passeio. Fora do circuito, a poucos metros, havia mais uma cena digna do Inferno de Dante. Vários trabalhadores com botas de borracha em uma piscina de estrume, a limpar o bucho dos animais. E meu avô me disse: “Olha lá! Aquilo lá é que vira a dobradinha. Tua mãe faz uma que é um espetáculo!” 
Nunca tive problemas com dobradinha por conta dessa imagem. Curiosamente, tenho ouvido o som da marreta e lembrado do olhar dos bois. Volto ao assunto na semana que vem, para explicar a minha tese. O ideal seria ter animais que vivessem pouco.