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Cultura

Crônica do Villas

E agora, Doutor?

por Alberto Villas publicado 13/03/2014 09h39
Uma criança quando ficava doente nos anos 1950, era uma outra história. Por Alberto Villas
MAURO CATEB/Flickr
Estetoscópio

"Doutor Aldo perguntava, já abrindo sua pastinha para pegar aquele aparelho que ele punha nas nossas costas, pedia para respirar fundo, soltar, respirar fundo novamente e falar trinta e três"

- É verme!

Era assim que a minha mãe, mãe de cinco filhos, reagia quando algum deles vinha queixando-se de uma dorzinha de barriga.

- Toma o vermífugo que passa!

Se o sintoma era dor de cabeça, nariz escorrendo, estado meio febril, ela colocava a mão na nossa testa para medir a febre e tinha uma outra solução imediata.

- Tome um Melhoral e vá deitar.

Minha mãe era prática, com ela não tinha trololó. E assim ela criou os cinco filhos, hoje todos vivos, quase todos com mais de 60 anos, firmes e fortes.

Se os sintomas persistissem, a história era outra. Ela passava a mão numa agenda de couro toda estropiada que ficava debaixo daquele telefone preto na sala e ligava pro Doutor Aldo Casilo.

No final do dia, inicio da noite, quando a gente ouvia o barulho do motor de Aero Willys, não restava a menor dúvida, era o Doutor Aldo chegando. Ele vinha de terno e segurando uma pastinha de couro com todos os seus apetrechos de médico.

Entrava, conversava um pouco na sala e ia até o quarto onde um dos cinco filhos estava lá, prostrado na cama.

- E ai, jovem, o que foi dessa vez?

Doutor Aldo perguntava, já abrindo sua pastinha para pegar aquele aparelho que ele punha nas nossas costas, pedia para respirar fundo, soltar, respirar fundo novamente e falar trinta e três.

Pedia para abrirmos a boca e dizer ah..., olhava com uma lanterninha o nosso ouvido, examinava os olhos, batia com um martelinho nos joelhos, dava umas pancadinhas nas costelas e pronto, já tinha o seu veredito.

Doutor Aldo ia pra sala, pegava o bloquinho e com uma Parker 51 escrevia a receita. Minha mãe pedia a ele pra dar um atestado justificando nossas faltas no colégio e oferecia um cafezinho, que ele sempre aceitava.

Nossa vida era assim. Fazendo um esforço de memória, lembro muito vagamente das doenças dos meus irmãos .

A mais velha tinha problema de tireoide e de vez em quando ficava meio amarelada. O segundo, lembro bem, teve escarlatina quando pequenininho. O corpinho dele ardia em febre e minha mãe sempre lembrava o dia em que Doutor Aldo disse que, no futuro, ele poderia ter problemas de cabelo por causa da doença. Pensando bem, hoje , ele não tem problema de cabelo porque não tem cabelo.

A mais nova que eu, não tenho notícias de doença. A caçula, lembro que teve sapinho na boca ainda recém-nascida e que quebrou a clavícula várias vezes, Por nada ela, a gente ouvia um crec e pronto. Lá estava minha irmãzinha com a clavícula quebrada. Ela passava uns dias com uma faixa e acabou.

O meu problema eram os furúnculos. Tinha um atrás do outro. Minha mãe entrava em ação ajudando a fazer os curativos e a esquentar basilicão para pingar no olho do furúnculo e depois colocar o curativo feito de gaze e esparadrapo por cima.

Lembro também que cada um de nós tinha uma carteirinha de papelão do INPS, com foto 3X4 grampeada nela. Só me recordo  de ter usado ela uma vez quando fui ao hospital furar os meus furúnculos, cinco de uma vez.

Acho que nunca fiz um exame de sangue nem de nunca tirei uma chapa do pulmão – era assim que falávamos – nem de ter feito exames mais complicados. Ah, uma vez eu quebrei o pé chutando uma trave de ferro no meu colégio, em Brasília. Passei 45 dias com o pé engessado, cheio de autógrafos dos meus colegas. Alex, Luiz Carlos, Sebastião, Max, Benício e Rosangela, uma moreninha que eu era doido com ela.

Bom, agora que contei como era nossa vida nos anos 1950, vou ficando por aqui porque tenho de ligar pro Laboratório Fleury pra marcar um monte de exames, uns oito.