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Cultura

Crônica do Villas

E a vida continua

por Alberto Villas publicado 29/11/2012 13h44, última modificação 29/11/2012 13h44
Alberto Villas conta o que relatou em seu diário durante o mês de novembro
caderno

Galeria de Theaphotos/Flickr

Foi num novembro de 1977 que comecei a escrever um diário ilustrado da minha família. Dia 6, quando nasceu na maternidade comandada pelo Doutor Frédérick Leboyer, pertinho de Paris, o primeiro dos meus quatro filhos, o Julião. Nunca mais parei. A história parece tão curiosa que já rendeu até uma Brasiliana aqui na Carta Capital. Hoje, trinta e cinco anos depois, esses trezentos e tantos cadernos viraram um museu de mim mesmo exposto na minha casa à visitação dos amigos mais chegados.

Todo final de mês organizo as folhas soltas para encaminhar ao Mário, que tem uma lojinha de encadernação lá na Barra Funda, em São Paulo. Novembro é um mês muito especial na minha vida porque é aniversário do Julião e desses preciosos cadernos. Vou passando página por página e colocando em ordem para o Mário encadernar. É quando cada mês acaba que me dou conta do que ficou pra trás nos últimos trinta, trinta e um dias. O que teria eu registrado nesse novembro de 2012? Querem saber?

Logo no dia primeiro anotei que minha filha mais nova, a Marília, foi cedo fazer uma consulta na dentista. Querem tirar o siso dela e estamos em dúvida. Colei uma foto de duas jovens se refrescando no parque Villa-Lobos para deixar claro que o calor é intenso nesse início de mês.

No segundo dia colei a foto da minha terceira filha, a Maria Clara, numa festa das bruxas em Berlim. Ela postou no Facebook e eu imprimi. De noite falamos com ela longamente pelo Skype. No terceiro dia a foto que escolhi é chocante: Os estragos que a tempestade Sandy fez em Nova Jersey. A cidade parece uma dessas do Brasil depois que um morro despenca. Registrei que o meu sogro vai receber alta depois de uma cirurgia no fêmur e fui adiante.

No dia 4 de novembro as catástrofes continuaram. Os incêndios destruindo a Chapada Diamantina e a água subindo de novo em Veneza estão lá. No dia seguinte, uma foto fofa foi pro caderno. Seis bebês panda dormindo no berçário de Sichuan, na China. No dia 5 a principal notícia do caderno foi a do radialista boliviano Fernando Vidal queimado vivo enquanto apresentava seu programa na cidade de Yacuíba. No dia 6, festa. Julião fazendo 35 anos.

No dia 7 colei a capa do jornal Libération, uma foto do Barak Obama e a manchete: “Yes!” No dia 8 pus uma fotografia das novas cédulas com a imagem de Nelson Mandela que começaram a circular na África do Sul e anexei o Ziraldo na capa da Revista da Gol, fruto de uma tarde inteira que passei com ele na Cidade Maravilhosa.

No dia 8 registrei com orgulho um e-mail do jornal Le Monde avisando que uma foto minha feita no shopping Market Place seria publicada na revista do final de semana. Colei a foto de Lady Gaga de calcinha na varanda do Fasano no Rio e segui. No dia seguinte foi a vez de um editorial de Mino Carta falando da morte do Jornal da Tarde ocupar toda uma página do caderno.

No dia 11 registrei que comemos um hambúrguer maravilhoso na Lanchonete da Cidade e colei uma foto da militante Sara Winter nua que saiu na coluna da Mônica Bergamo, na Folha. No dia 12 voei pro Rio pra participar do programa Marcia Peltier Entrevista e colei no caderno a foto de Fred do Flu comemorando antecipadamente o título de campeão brasileiro.

No dia 13 coloquei a fotografia dos tênis All Star desenhados por Oscar Niemeyer (lindos) que saiu no Brasil Econômico e do novo poderoso chefão da China, Ki Jinping.

No dia seguinte registrei a morte do sambista Delegado, colei o ingresso do show de Lady Gaga que minha mulher Paula foi com minha filha mais nova e registrei também a emoção que sinto ao ler cada página da biografia do Marighella escrita pelo Mário Magalhães.

Nos dias seguintes eu e a minha mulher pegamos a estrada para Belo Horizonte. “Olhar as montanhas de Minas é sempre um prazer, um colírio”, escrevi. Voltar a Inhotin, comprar queijo e doce no Mercado Central, tomar um Mate-Couro, jantar com filhos, nora e genro, todos esses prazeres foram registrados nas páginas do caderno. Escrevi nos dias seguintes sobre o roubo das telas de Picasso, Gauguin e Monet do museu Kunsthal em Roterdam, sobre a inauguração de uma estátua em homenagem ao ursinho Knut no zoo de Berlim e sobre a guerra que voltou ao Oriente Médio.

No dia 19 palmeirenses chorando ocuparam meia página do caderno e no dia 20 a minha filha Sara na capa da revista Educação ocupou outra página inteira. No dia 21 registrei coisas bem pessoais: Um almoço no Spot, uma ida a loja Mil Florescomprar manjericão, hortelã e alecrim pra horta que cultivamos na varanda do nosso apartamento e a fotografia do dia foi a

parada gay no Rio.

No dia 23 colei apenas uma manchete do Globo: “Começa a era Joaquim” e no dia seguinte, do mesmo Globo a manchete “Acaba a era Mano”. No dia 24 colei uma notinha que saiu no Ancelmo sobre as ações da Ambev que estão valendo mais que as da Petrobras: “É como comentou um gaiato maldoso no Facebook: Deve ser o sucesso da campanha se beber não dirija”. No dia 25 registrei a chegada do meu irmão Paulo e do meu sobrinho Guilherme que vieram a São Paulo ver o GP Brasil de Fórmula 1 e colei as críticas a crônica de Danuza Leão na Folha reclamando que agora até o porteiro do prédio dela pode ir a um show na Broadway. E escrevi: Chocante!

Depois veio a morte de Larry Hagman e o tricampeonato de Sebatian Vettel. Coloquei também um selo comemorativo aos cem anos de Jorge Amado comprado nos Correios quando fui postar a revista Serafina para uma amiga do peito porque em Minas não há Serafina. No dia 27 colei a crônica de Denise Fraga que saiu no caderno Equilíbrio da Folha falando da obsessão das pessoas em fotografar tudo sem parar para postar nas redes sociais. No penúltimo dia, uma homenagem, a fotografia de Joelmir Beting na bancada do Jornal da Band. Ainda falta um pouquinho  pra novembro de 2012 terminar. Se essas notícias que guardei e vou encadernar com tanto carinho entrarão para a história não sei. Para a minha história já entraram.

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