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Crônica

Dúvida cruel

por Menalton Braff publicado 09/07/2012 14h41, última modificação 09/07/2012 14h41
Em ano de eleição, todos os candidatos se parecem com todos: simpáticos, cheios de promessa e fingida intimidade com o eleitor
Obamis

Galeria de ►Johann/Flickr

Tenho vivido um estado de angústia permanente de uns tempos para cá. Antes o assunto não entrava nas minhas cogitações, que são, geralmente, umas cogitações muito simples, que consigo resolver sem grande esforço mental. Sabia, de forma bastante vaga, tratar-se de um ano eleitoral, mas isso, até certo ponto, não me dizia respeito. Não sou contra as eleições, que os deuses todos do Olimpo me livrem dessa falha. Mas no momento tinha outras preocupações, todas de naturezas bem diversas, e a eleição ficava parecendo-me uma coisa muito remota.

Então aconteceu. O jornal veio parar na minha escrivaninha e estampava, em sua terceira página, a fotografia de seis candidatos à chefia do executivo municipal. Reparei bem nas fotografias aqueles rostos de feições agradáveis a inspirar a nossa confiança. Pronto: acabou o meu sossego. Qual deles escolher? Todos eles bem nascidos e bem lavados, pessoas da mais alta respeitabilidade cada um deles. Eis a origem da angústia em que tenho vivido.

Conheço os seis candidatos, mas não via em que um poderia ser melhor do que o outro, e isso me impedia de fazer uma escolha consciente, para o exercício sagrado da cidadania. Plagiando o bruxo do Cosme Velho, moro longe e saio pouco. Uma vez, numa homenagem de alunos, me deram de presente um tatu de madeira que balança a cabeça. Mantenho esse tatu sobre minha escrivaninha até hoje. Não saio muito da toca.

Pois bem, nesses últimos dias, vi-me obrigado a sair várias vezes de casa. Pagamento de um boleto no banco, visita periódica ao dentista, passagem pelo médico, uma carta no correio. Essas coisas todas que nos atrapalham a vida, mas que todo mundo faz. E sem reclamação, a não ser quando se é ranzinza.

Na segunda-feira da semana passada, ia passando pela avenida quando uma janela de automóvel baixou rapidamente. Quem eu vi lá dentro que me via cá fora? Isso mesmo. Um dos seis candidatos. E ele me cumprimentou com um sorriso tão simpático, tão amigo que na mesma hora pensei: é ele. Dormi melhor na noite de segunda pra terça do que vinha dormindo as noites anteriores. Um sono sem a angústia de não saber a quem dar meu voto.

Na terça tive de sair novamente. Eu estava na fila do banco, sossegado, quando alguém me deu uns tapinhas nas costas. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que outro candidato me reconhecia. Não só isso. Apertou com afeto minha mão e me teceu uns elogios com tanta ênfase na frente de outros da fila que fiquei encabulado. Ele fez questão de me dar um abraço. E abraçado fiquei. Horas depois, já em casa (o melhor lugar do mundo), ainda sentia o aperto de seus braços em minhas costelas. Mas ele demonstrou tal felicidade ao me ver que não tive mais dúvidas: é este.

Do terceiro ao sexto, todos eles me abanaram a mão, sorriso com extrema simpatia, me ofereceram cargo na prefeitura, prometeram fazer tudo que eu quisesse. Quando escolhi o sexto foi que me dei conta. Eu tinha passado pela lista inteira.

Minha angústia agora voltou e mais forte do que antes. São todos eles pessoas tão simpáticas, todos eles demonstram ter-me em tão alta consideração que a escolha se tornou novamente impossível.

E o pior de tudo: todos eles repetem o mesmo discurso, são imbuídos das mesmas intenções, amam com a mesma intensidade a terra natal. Acho que vou escolher os seis.