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Crítica - 'Doméstica'

Domesticados

por Matheus Pichonelli publicado 01/05/2013 13h42, última modificação 02/05/2013 14h30
Documentário de Gabriel Mascaro escancara a crueldade inconsciente das relações afetivas entre patrão e empregado
Doméstica

Documentário foi filmado por adolescentes. Foto: Reprodução

Esqueça os modelos determinados, as posições exatas entre explorador e explorado e os trágicos relatos da vida pós-PEC das Domésticas desenhados por Danuza Leão todo santo domingo na Folha de S.Paulo. O mundo retratado em Doméstica, documentário de Gabriel Mascaro que estreia nesta quarta-feira 1º nos cinemas, é avesso a qualquer dualidade pré-definida. O filme se passa em sete casas de sete patrões diferentes em Brasília, Recife, Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro e Manaus. Em cada uma delas, os filhos das famílias acompanham com uma câmera o trabalho de seus empregados domésticos – são seis mulheres e um homem.

Entre os afazeres, os empregados são convidados a contar suas histórias e, de certa maneira, a deixar uma porta entreaberta sobre uma questão prática: o que, afinal, os levam a aceitar passar boa parte da vida em uma casa que não é deles por um salário muitas vezes insuficiente?

As respostas, borrifadas caso a caso, levam ao chão qualquer modelo visível, a olho nu, de exploração econômica ou social. Em praticamente todas as falas, os donos da casa são unânimes em citar o empregado como alguém da família e de confiança. Os empregados, diante da câmera comandada pelo filho do patrão, dizem estarem bem, obrigado, nas casas onde foram acolhidos. Não aparentam mágoas com as condições de trabalho ou moradia, geralmente improvisada em quartos caixa-de-fósforo onde parecem se contentar com algumas gavetas, fotos nas paredes, meia dúzia de enfeites e aparelhos de tevê. Uma das entrevistadas chega a narrar, emocionada, o privilégio de participar à mesa de um ritual judaico em família. Outra, por poder dirigir o carro da patroa e levar os filhos dela até a escola. Outra, por poder escutar rádio em alto e bom som.

Por incrível que pareça, nenhum personagem relata o sonho de sair daquelas casas um dia, encontrar outro emprego, brilhar em outros prados e ter seus próprios empregados. Parecem um ponto fora da curva no modelo apresentado por Antonio Delfim Neto, segundo o qual, com a ascensão econômica, a empregada doméstica virou manicure, a manicure, atendente de supermercado, a atendente de supermercado, operadora de telemarketing, e assim por diante. O único sonho possível, parecem dizer os protagonistas, é fugir do caos: um caos com o endereço e casa própria. A depender do discurso, é no ponto de origem (o casamento, a relação com os filhos) que se concentram as injustiças, as distorções, as relações desiguais de forças calcadas não na divisão social do trabalho, mas das relações afetivas. Uma delas narra ter saído de casa após ser espancada pelo marido quando estava grávida. Duas se dizem cansadas das traições do cônjugue, um deles alcoólatra. Outra é obrigada a trancar o filho em casa com medo de que volte a usar drogas. Mesmo o personagem masculino é vítima do abandono, da mulher e do filho, depois de ter perdido o emprego. É abrigado em uma casa onde há uma mãe, uma filha, mas não se vê a figura paterna.

Como um jogo de quebra-cabeças, o ofício, ao menos para eles, parece o pretexto para o preenchimento de uma lacuna afetiva. Na “casa do patrão” parece haver sempre um princípio de reordenamento, uma proteção, ainda que precária, e um isolamento externo, longe de agressões, abandono, violências diárias. É possível imaginar que ganham menos do que merecem e que há certo oportunismo diante de uma vulnerabilidade? É. Mas, inconscientemente, os “da casa” atuam como pais ou filhos dos empregados e assumem um papel de protetor/protegido. É o caso de uma das famílias, que adota como integrante a filha recém-nascida da empregada. Ou da moradora de um bairro de classe média carioca que cresceu com a filha dos caseiros da chácara da bisavó e, ao se casar, deu à amiga o uniforme de faxineira, um quarto sufocante e a responsabilidade de criar seus filhos,fazer o almoço e limpar casa.

Em todas as histórias há um emaranhado afetivo que precede a relação meramente comercial. A tensão explorador/explorado está ali em algum canto, mas para encontra-la é preciso depurar o discurso consciente e as referências às famílias (sim, os filhos parecem amar os criados e os criados parecem amar os filhos do patrão, a quem aparentam gratidão). É uma crueldade não acusada, não discursada, não suficientemente reconhecida. A distribuição desigual de forças está assimilada no inconsciente; opera na força de trabalho e se ofusca no campo afetivo e cordial. Mas é bom que se lembre: nenhuma oportunidade é justa quando não há escolha. A liberdade concedida, mas vigiada, é sintoma, não solução, para uma paz inviável fora da casa grande.

PS: Na ficção, é possível encontrar dois paralelos do filme que Gabriel Mascaro conseguiu extrair da vida real. Um deles é Muito Além do Jardim, de Hal Ashby, cujo personagem, interpretado por Peter Sellers, passa a vida cuidando da casa dos patrões e tendo uma tevê como seu único ponto de contato com o mundo exterior. A rua, para ele, só ganha dimensão real quando o patrão morre.

O outro filme, mais recente, é Albert Nobbs, em que a personagem de Glenn Close, uma mulher travestida de homem que se isola em uma rotina regrada e frugal para fugir da violência exterior e garantir abrigo na casa onde trabalha como mordomo. Quando sua identidade é descoberta, um dos patrões se pergunta como alguém consegue viver com tão pouco durante tanto tempo.

É quase impossível, ao fim de cada entrevista do documentário de Mascaro, evitar a mesma pergunta.