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Dom Timóteo, mística, fé e liberdade

por Emiliano José — publicado 15/07/2010 19h16, última modificação 24/08/2010 19h18
Os centenários de Dom Timóteo e do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá mostram a força da religiosidade baiana

Os centenários de Dom Timóteo e do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá mostram a força da religiosidade baiana

A Bahia comemora, nesses dias, dois centenários, dois nascimentos: o de D. Timóteo Amoroso Anastácio e o do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá. D. Timóteo foi Abade do Mosteiro de São Bento de Salvador e se notabilizou por se insurgir contra a ditadura militar e por uma atitude claramente ecumênica, inclusive manifestando explicitamente sua admiração pelo candomblé, com quem dialogava frequentemente. O Mosteiro tem hoje como Abade D. Emanuel d’Able, que tem dirigido as comemorações que lembram a extraordinária trajetória de D. Timóteo, e é um religioso profundamente progressista.

O Ilê Axé Opô Afonjá foi fundado por Mãe Aninha e é atualmente dirigido por Mãe Stella. É um dos mais respeitados terreiros do Brasil, e Mãe Stella tem sido uma espécie de guardiã dos valores da religião de matriz africana. Nos anos 80, liderou um movimento que advogava o fim do sincretismo, conclamando o povo de santo a defender o candomblé como religião e esse movimento ganhou força, com a adesão de Mãe Menininha do Gantois, Mãe Olga de Alaketu e Mãe Tetê da Casa Branca. Hoje, o candomblé, em grande parte, não procura mais intercambiar seus ritos com a Igreja Católica.

Falamos das personalidades e de duas instituições especiais. Os beneditinos do Mosteiro de São Bento marcaram-se por atitudes que beirava a iconoclastia, por um diálogo religioso extremamente respeitoso com outras religiões, particularmente com o candomblé, e nisso se destacaram D. Jerônimo, outro notável beneditino, e D. Timóteo. Compreendiam que não havia como desconhecer a religião de matriz africana numa terra majoritariamente negra. E D. Timóteo chegou a inverter os termos da dominação que a Igreja Católica mantinha sobre o candomblé.

É sabido e consabido que o candomblé, desde a escravidão, como que negociava com a Igreja Católica a manutenção de seus ritos, procurando nominar seus orixás em correspondência com santos católicos. Oxalá podia ser Senhor do Bonfim. Era uma forma inteligente, de muita sabedoria política, para manter-se, para não ser reprimido, embora isso não afastasse totalmente a repressão. O movimento liderado por Mãe Stella tinha a ver com isso. Acabar com essa negociação, colocar cada macaco no seu galho. Cada religião com seus ritos e seus deuses e seus orixás.

Ao instituir a Missa do Morro, D. Timóteo pretendeu inverter os termos da dominação. Chamou para o interior dos templos católicos muito da riqueza do candomblé, com seus tambores e afoxés, e surpreendeu a própria Igreja Católica. Antes, o candomblé era obrigado a sujeitar-se à dominação do catolicismo por se constituir numa religião inteiramente subordinada pela violência da escravidão ou por preconceitos e discriminações durante grande parte do século XX. D. Timóteo pretendeu mostrar o quanto os católicos podiam aprender com os ritos dos terreiros, sem que com isso o cristianismo que ele professava viesse a perder sua integridade. Era uma mensagem de diálogo. Ele queria que todas as religiões se respeitassem e que não predominassem os preconceitos e as discriminações.

Hoje, quero falar mais do beneditino. Mãe Stella merecerá um outro artigo. D. Timóteo, que conheci de perto, era um ser especial. Havia nele uma aura que impressionava quem quer que dele se aproximasse. Pode-se acompanhar D. Gregório Paixão, beneditino e bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador, e dizer que dom Timóteo era um místico. “Ele falava de Deus com tal intimidade que às vezes parecia que Deus morava no quarto ao lado dele. Todo místico ultrapassa as barreiras do tempo”. Essa declaração ele deu à repórter Cleidiana Ramos, do jornal A Tarde, edição do dia 11 de julho.

Mas, era um místico profundamente ligado ao seu tempo, com o coração cheio de amor para com os oprimidos, e profundamente indignado diante das violências da ditadura. Não se acovardava diante dos militares. Abriu o mosteiro para estudantes perseguidos em várias ocasiões. E chegou a salvar a vida de Haroldo Lima, que preso na chamada Chacina da Lapa, em São Paulo, estava sendo violentamente torturado no Rio de Janeiro. De repente, os torturadores pararam e perguntaram a Haroldo o que é que ele tinha com dom Timóteo. E a partir daquele momento, torturaram com mais cuidado, auscultavam seu coração, tomavam seus pulsos. Sua vida foi salva por dom Timóteo em 1976. Dom Timóteo endereçara telegrama ao general Geisel, que era o ditador-presidente de então, clamando pela preservação da vida do prisioneiro, hoje diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo.

E ele tem uma história de vida cinematográfica. Nascido em 1910, formou-se em Direito, e casou-se com Jenny aos 25 anos, em 1935. Jenny tinha apenas 17. Logo após o casamento, Jenny contraiu tuberculose, que à época não tinha cura. Ele permaneceu à beira da cama de Jenny até a morte dela. Em 1941, entra na Congregação Beneditina, faz os votos de pobreza, castidade e obediência em julho de 1941. Em 1946, é ordenado sacerdote. Em 1965, torna-se abade do Mosteiro de São Bento, o primeiro fundado pelos beneditinos fora da Europa, em 1582, permanecendo no cargo por 16 anos.

A par de tudo que fez, de seu carisma, de seu destemor que nunca foi barulhento, dom Timóteo foi o principal inspirador do Grupo Moisés, uma articulação religiosa que se colocava contra a ditadura, a partir de reflexões baseadas na Teologia da Libertação. Vários religiosos participavam desse grupo, entre eles os padres Cláudio Perani, Paulo Tonnucci e Renzo Rossi. Ele era uma espécie de profeta do Grupo Moisés, que ainda merece estudos mais consistentes. Cheguei a orientar um bom trabalho de final de curso, na Faculdade de Comunicação, feita pela aluna Paloma Varón. Um outro aluno, Everaldo, fez um trabalho consistente sobre dom Timóteo, na mesma escola e sob minha orientação.

Antes de morrer, no dia 2 de agosto de 1994, no leito do Hospital Jorge Valente, em Salvador, disse que estava vendo legiões gregas lutando e as descreveu. Falou de cultura e união. Depois, como relata dom Gregório, na matéria de Cleidiana Ramos a que me referi, “fechou os olhos e morreu em paz como viveu”. Nunca será esquecido pelos cristãos, pelos que cultivam o candomblé, pelos ex-presos políticos, pelos que amam a humanidade livre.