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Cultura

Exposição

Do vídeo ao sul

por Piero Locatelli — publicado 07/11/2013 05h54
Em 30 anos, festival VideoBrasil tirou o foco da nova tecnologia e agora tenta aproximar artistas de países fora do mainstream da arte contemporânea
Divulgação
Welcome Home - Gui Mohallem

Imagem da série Welcome Home, de Gui Mohallem, presente na exposição

Há trinta anos, a curadora Solange Farkas era uma “militante do vídeo”, como ela se define. Era um tempo em que as filmagens começavam a ficar acessíveis fora da produção de emissoras de televisão e das produtoras de filme. Com isso, uma nova linguagem se desenvolvia. Na época, conta Farkas, o vídeo não era reconhecido no circuito da arte contemporânea. Além da mávontade dos curadores, faltavam equipamentos para a produção e a exibição das filmagens. Neste contexto, Farkas criou o VideoBrasil em 1983, o  primeiro festival do país dedicado a esta forma de arte.

O vídeo passou a ser reconhecido desde então, e hoje é a mídia preferencial da arte contemporânea. Fora do país, artistas como o sul-coreano Nam June Paik e o norte-americano Bill Viola abriram as portas para que o suporte passasse de renegado a protagonista das exposições. Se antes buscava o reconhecimento do vídeo no cenário artístico, o foco agora é a militância. “O vídeo não precisa de mais ninguém para protegê-lo. Hoje tenho uma causa muito mais importante: a inclusão e a inserção do sul do mundo em um sistema maior,” diz a curadora. Entre os países representados na exposição, há artistas de lugares como Etiópia, Indonésia, Mali e Turquia. Para encontrá-los, Farkas gasta os dois anos durante as exposições em viagens aos países representados em busca de novos artistas.

A aproximação do festival com o sul não se resume às obras apresentadas. O Sesc-SP, que ajuda a organizar o festival, também trará filósofos e curadores para palestras e debates nas próximas semanas. “Todo mundo é extremamente cooperativo no cenário de arte contemporânea do sul. No norte, é diferente, é outro nível de negociação,” diz Farkas. “Isso acontece porque o artista do sul tem um caráter político de inserção, de afirmar uma identidade.”

Para Danilo Miranda, diretor geral do Sesc-SP, o sul não é somente geográfico, mas conceitual. “Esse sul para mim é um sul que inclui tudo o que não está nesse mainstream, nesse bloco forte que inclui países da Europa ocidental, Estados Unidos, Canadá, Japão. Que não inclui a força desses países que determinam e orientam as coisas do mundo,” diz Miranda. “O norte quer resultados práticos, eficiência, bolsa atuando, recursos fluindo. A economia é a imperatriz absoluta e total. A gente tem que estabelecer relações com seu entorno e com outros do seu lado de maneira mais equilibrada. E nisso as civilizações ao sul são mais capazes.”

Miranda diz que o foco no sul não deve excluir a relação com a cultura de outros países. “Pode-se fazer uma coisa sem deixar de fazer outra. A diplomacia sul-sul como aproximação no campo da cultura, da política e da filosofia é fundamental. Mas não só. A gente tem que estar aberto aos outros, cultura significa abertura total.”

30 anos de festival. Além da mostra Panoramas do Sul, o Sesc também exibe uma retrospectiva dos 30 anos de festival. Entre as 1.300 obras exibidas nestes anos estão as de artistas como o sul-coreano Nam June Paik e a sérvia Marina Abramovic.

Hoje, o festival abrange outras mídias, como a fotografia, e serve de suporte para performances e outras formas de arte. Por isso, Miranda define o festival como um “salão de arte contemporânea”. “O vídeo hoje é uma coisa quase jurássica. Mas o festival manteve o nome, que tem muita força,” diz. “O importante é que o festival seja essa ferramenta que trabalha com a inovação, o novo com componentes de ordem estética, cultural e política. A gente procura trazer à tona aquilo que de alguma forma está escondido, guardado longe.”

Para Farkas, o vídeo ainda ajuda a “chacoalhar” a linguagem com que estamos acostumados.  “A gente foi tão aculturado pela indústria hollywoodinana, fomos acostumados com aquela qualidade técnica, aquela narrativa. Parece até que se não for aquilo, não está certo,” afirma. “Mas a capacidade da mente humana é muito mais aberta, ela funciona muito mais randomicamente do que linearmente, a gente subutiliza a nossa capacidade. O nosso olhar estava tão formato para ver de um único jeito que a gente precisava do vídeo.”

A programação completa, horário e local das exposições pode ser encontrados no site do VideoBrasil.