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"Rio 2 é sobre nossas escolhas", diz Carlos Saldanha

por Eduardo Graça — publicado 28/03/2014 06h26, última modificação 28/03/2014 07h32
Em entrevista exclusiva, o diretor da animação "Rio 2" diz ver diálogo entre o enredo do filme e a situação política e social do Brasil. Por Eduardo Graça, de Barcelona
Divulgação / Fox
Blu - Rio 2

"Blu", personagem principal da animação, com sua família em cena de "Rio 2"

De Barcelona*

Carlos Saldanha é o profissional brasileiro de maior notoriedade no cinema americano contemporâneo. Desde 1991 radicado na costa leste dos EUA, ele recusou convite de grandes estúdios – leia-se Disney e Pixar – para se associar ao Blue Sky, localizado em Connecticut e responsável por sucessos da animação computadorizada como a franquia A Era do Gelo (ele é um dos diretores do primeiro filme). Nada se comparou à explosão, há três anos, de Rio. O filme, centrado na história de duas araras-azuis e com a Cidade Maravilhosa como personagem, estava há tempos na cabeça do diretor carioca de 45 anos. Com cara de menino, ele apresentou pela primeira vez para a imprensa internacional trechos da sequência Rio 2, a partir de hoje nos cinemas brasileiros, em um evento de negócios do mundo do audiovisual europeu em Barcelona, no fim de junho, bem no momento em que os protestos de rua no Brasil despertavam a curiosidade de jornalistas e executivos sobre o momento político e social do país-sede da Copa do Mundo.

Rio 2 é fruto dos 484 milhões de dólares de bilheteria mundial de Rio, mas desta vez o cenário principal é a Amazônia. O enredo gira em torno da viagem das araras-azuis Blu (cuja voz nos EUA é de Jesse Eisenberg, e na versão dublada para o português de Rodrigo Santoro) e Jade em busca de um mundo mais selvagem, longe da vida tranquila, mas limitadora, da domesticidade carioca. Temas como a preservação da floresta e a união dos oprimidos para enfrentar os mais fortes são discutidos de forma leve, embalados pela música imaginada, uma vez mais, por Sérgio Mendes e Carlinhos Brown, em um mix de ritmos regionais e acenos ao pop em composições de dois fãs de Rio, o filme, e da cidade também, Janelle Mónae e Bruno Mars. Abaixo, os melhores trechos da conversa exclusiva de Saldanha.

CartaCapital: Quando Rio foi lançado, em 2011, o Brasil estava na crista da onda, desfrutando de uma popularidade inédita. Recebido com críticas positivas, seu filme foi um sucesso de público nos EUA e na Europa. Você acha que Rio ajudou a cristalizar a imagem do Brasil no exterior ou o que se deu foi o contrário, ou seja, seu filme é que se beneficiou de um momento positivo do país mundo afora?

Carlos Saldanha: Foram as duas coisas. Foi uma junção de fatores que resultou na bela surpresa do lançamento do filme e das reações ao resultado. Minha ideia, o embrião de Rio, é anterior a este momento de euforia em relação ao Brasil, e, coincidentemente, o lançamento casou com o anúncio de que o Rio sediaria as Olimpíadas de 2016. A ascensão do Brasil já era clara naquele momento, mas o filme foi lançado em 2011 simplesmente porque não ficou pronto anteriormente. Mas, ao mesmo tempo, tenho consciência de que Rio, o filme, fez pela cidade, em termos de divulgação, algo que nenhuma administração local imaginava ser possível. A prefeitura pode gastar bilhões de dólares com propaganda sobre o Rio, mas nenhuma delas terá o alcance de Rio. É numericamente impossível. Foi meu presente de uma vida toda para a cidade. Agora, é com eles, o poder público e a população local resolver o que fazer com minha declaração de amor em grande escala ao Rio. A cidade está no mapa mais do que nunca, e, se você olhar bem, todos os personagens do filme tratam o Rio com enorme carinho, exatamente da maneira como eu gostaria de ver acontecer na vida real.

CC: “Rio 2” chega aos cinemas em momento bem diverso. As jornadas de junho, protestos contra gastos públicos e atraso de obras de infraestrutura relacionadas à Copa do Mundo em todo o país, turbulência econômica, aumento do pessimismo. Uma vez mais, o filme dialoga com a imagem projetada do Brasil no exterior?

CS: Rapaz, não é que pode acontecer isso novamente? Há alguns elementos muito reveladores, mas não quero estragar a surpresa do enredo. Posso adiantar que os pássaros se unem para enfrentar os responsáveis pelo ataque à floresta. O ápice do filme é uma grande declaração de ‘basta’ dada pelos que se sentem marginalizados. E, na vida real, eu queria muito que estes movimentos de indignação resultassem em uma maior conscientização política. Ora, se a coisa está ruim, a responsabilidade não é apenas de quem governa, mas de todos nós, cidadãos. No Brasil, que é uma democracia plena, quem colocou o político incapaz no poder precisa, necessariamente, repensar a qualidade, a seriedade, de seu voto. E não repetir a dose. E também se policiar diariamente, verificar se está jogando o lixo no local certo, se não está querendo tirar vantagem em ações rotineiras. Mas, olha, prometo que não bolei manifestações organizadas em Rio 2. Nem alas hitchcockianas de pássaros atacando homens na floresta. Isso eu garanto (rindo muito).

CC: Quais foram as principais diferenças, inclusive do ponto de vista técnico, entre o primeiro e o segundo tomo de Rio?

CS: Rio 2 é uma animação bem mais complexa. A trama se passa na Amazônia, assim como Rio foi pensada em 3-D, e criar uma floresta do nada é complicado pacas. Desta vez também temos muito mais pássaros, a história é toda centrada no encontro da dupla de protagonistas com um grupo de araras-azuis que vive na Amazônia. O desafio foi enorme, mas aprendemos muito com nossa animação mais recente, Reino Escondido, que se passava em uma floresta imaginária no subúrbio de Nova York. E se o primeiro Rio foi uma lição para os animadores em como desenhar penas de pássaros e construir na tela toda uma cidade, no caso o Rio de Janeiro, incluindo o Sambódromo, repleto de gente, Reino Escondido nos deu uma espécie de doutorado em florestas. Quando iniciamos os trabalhos do desenho, já sabíamos que iríamos trabalhar com algo parecido em Rio 2.

CC: A Amazônia, no entanto, é bem específica, não?

CS: Sim, a diferença maior, para nós, foi na escala da vegetação que teríamos de bisar na tela. Na Amazônia, tudo é muito, muito maior. Muito mais exuberante. As árvores são gigantescas. Você coloca uma pessoa do lado e ela fica minúscula. Também é uma floresta mais diversa. Passei um tempo viajando pela Amazônia, tirei minhas fotos, saí de lá com uma ideia clara da floresta que queria mostrar no filme.

CC: O Rio, imagino, já estava presente em sua memória...

CS: Sim, o Rio do filmes é fruto de minha memória afetiva. Mas a Amazônia, como é o caso de muitos brasileiros, eu simplesmente não conhecia. E é, como você pode imaginar, um lugar incrível. Viajei para lá, fiquei num daqueles hotéis de árvore, no meio do rio, e tive uma experiência bem de turistão mesmo. Foi proposital. E saí de lá boquiaberto.

CC: O primeiro Rio era uma ideia antiga sua. A sequência também?

CS: Não mesmo. A sequência foi uma ideia da distribuidora (a Fox), por conta do sucesso do primeiro filme. Quando eles me abordaram, a única coisa que eu sabia é que gostaria de falar mais do Brasil, agora de uma outra parte do nosso país. Primeiro pensei em uma cidade, quem sabe Salvador? Aí pensamos que a diferença entre os dois filmes, a vontade de fazer algo de fato original, passava por uma lupa de aumento, tudo teria de ser bem maior. Começamos a namorar a ideia da Amazônia. Quando traçamos a motivação temática da sequência do filme, ou seja, o encontro de Blu, Jade e seus três filhotes, com o mundo selvagem de onde seus antepassados vieram, não tinha mais volta. E tem toda a viagem deles até lá, saindo do Rio.

CC: Você mostra o centro do país, as chapadas, o cerrado...

CS: Sim. É relativamente rápido, é uma montagem de animação, mas fiz questão de mostrar Ouro Preto, Brasília, fazemos o caminho certinho, ilustramos, para o mundo, o tamanho continental do nosso país.

CC: Dentre os novos personagens mais divertidos há uma tartaruga capoeirista e uma preguiça que fala rápido demais. De onde é que você tira estas criaturas?

CS: A base do filme ainda são os pássaros. E pássaros azuis. Jade irá reencontrar seu pai (cuja voz na versão original é de Andy Garcia) e uma tia querida (Rita Moreno). Eles pensavam que eram os últimos de sua espécie, de certa forma o mote do primeiro filme, e agora descobrem que não é bem assim. Aí criamos um subenredo envolvendo o carnaval e um grupo eclético de personagens, queríamos investir na riqueza da fauna brasileira. Tem anta, macacos, boto cor-de-rosa, piranha. Quem adorou a preguiça, e fala rápido pacas, é a Janelle Mónae, que fez a música de abertura e assumiu, na versão original (não-dublada em português), a voz de seu persinagem favorito. Ficou engraçado pacas. Eu a conheci no Rock in Rio, nos bastidores, ela tinha se apaixonado pelo Brasil e me ofereceu a música inédita. Se em Rio a gente começa a história com um sambão, agora damos o start no Ano Novo carioca, Copacabana, na ideia mesmo de uma possibilidade de recomeço, de reinvenção, que era o que estávamos tentando fazer também com os personagens principais. Voltamos ao momento político e social brasileiro: é, ou não é, uma hora de reinvenção?

CC: O filme trata de questões ambientais e do mote de que a união faz a força, mas também passeia pela própria criação dos filhos, à americana, como Blu deseja, ou de uma maneira mais livre, como defende Jade...

CS: Sim. O tema do filme, no fim, é o das escolhas que fazemos na vida. Em todos os níveis. E nas consequências destas decisões.

CC: Rio buscou traduzir a cultura musical carioca. Rio 2 passeia por ritmos amazônicos? Você mencionou a Janelle Mónae, não exatamente uma mestre da guitarrada ou do carimbó...

CS: Há carimbo, ritmos paraenses, ciranda, quadrilhas e maracatu na trilha também. Ah, e minha tropa de elite, Sérgio Mendes e Carlinhos Brown, está de volta. A base não mudou, mas agora há mais espaço para música. Inclusive para a música pop americana, que, afinal de contas, se ouve, e muito, no Brasil também. Assim, temos a Janelle e o Bruno Mars. O Bruno, aliás, também faz uma voz, a do ex-namorado de Jade, uma participação bem divertida, espero que faça as pessoas rirem. Ele compôs uma música nos ensaios, ali, na hora, uma serenata hilária.

CC: O Jesse Eisenberg, que faz a voz original do “Blu”, me disse que quando viu as imagens do primeiro Rio achou tudo ótimo, mas pensou: “que loucura esta cidade que o Saldanha criou” (risos)...

CS: Ele achava que o Rio, tal qual aparecia no desenho, era uma maluquice da minha cabeça. Não podia ser tão bela assim.

CC: Até que ele foi ao Rio para o lançamento mundial do filme e se embasbacou: “rapaz, não é que era tudo verdade?”. E ele é um sujeito culto, autor teatral. Mas parecia visivelmente impressionado com o cenário carioca. Você acredita que esta será também a reação dos espectadores quando decidirem um dia visitar a Amazônia?

CS: É o que eu mais gostaria. Mas não tenho ilusões. Com a Amazônia é muito mais difícil captar de fato o que lá existe. Confesso que não consegui compreender 100% tudo o que vi. Fiz um voo sobre partes da floresta e, depois de muito quebrar minha cabeça, me reconciliei com a ideia de que é impossível fazer justiça àquela maravilha. As dimensões dos rios, a magia que está à sua volta o tempo todo, é bem diferente do Rio, cujos ícones, a Pedra da Gávea, os Dois Irmãos, o Pão de Açúcar, o Corcovado, Copacabana, Ipanema, o Jardim Botânico, são muito meus também. A Amazônia não se simplifica assim. As Anavilhanas são um mundo. O Rio Negro, outro. A Amazônia é a Amazônia.

CC: Você teve medo de ter sua visão do Rio rejeitada pelos brasileiros?

CS: Sim, especialmente pelos cariocas. Nós, cariocas, somos bairristas por natureza e pela natureza (risos). O que mais me mata no cinema americano, que é meu ambiente de trabalho, são filmes sobre o Rio passados em Porto Rico, com personagens falando castelhano. Ou com a estátua do Cristo instalada no Pão de Açúcar. Não dá. Ah, e eu queria ir além da representação mais exata possível da minha cidade, da minha terra, também ambicionava mostrar o estado de espírito do carioca, que é muito singular. Assim sendo, queria que o espectador entrasse no cinema a partir de hoje para ver “Rio 2” e, modestamente, se sentisse dentro da Amazônia.

CC: E o Rio 3, já sabe onde vai ser?

CS: Ah, não tenho ideia. Só sei que a história destes personagens não terminou. Não matei ninguém, né? (risos)

CC: Mas seu próximo filme, que só deve ser lançado depois das Olimpíadas do Rio, gira em torno do touro Ferdinando, aquele personagem simpaticíssimo que prefere o perfume das flores ao universo dos toureiros. Foi o desenho clássico de Walt Disney que o motivou a pensar em voltar ao “Ferdinando” e contar uma vez mais sua história?

CS: Foi mais a ideia central de que você pode ser, nesta vida, quem quer que deseje. Mais uma vez vou tentar tratar de temáticas bem atuais de nossa sociedade, como o bullying. Mas quero fazer tudo de uma forma delicada e bonita. E o cenário será aqui, a Espanha. Devo dar uma passada pela Andaluzia para começar a pensar nos tons da animação. Já viu, né? Vai começar tudo de novo...

* O repórter viajou a convite da Fox Films

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