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Diversidade literária brasileira é destaque em feira cultural alemã

por Deutsche Welle publicado 19/03/2013 11h21, última modificação 06/06/2015 18h42
Três autores nacionais apresentam seus livros e falam sobre a projeção da literatura do País na maior feira literária da Alemanha

"A nova diversidade do Brasil" foi o título de uma concorrida leitura na lit.Cologne, a maior feira literária alemã. Reunidos diante de cerca de 400 empolgados espectadores, três escritores brasileiros com algum tipo de relação com a Alemanha: Rafael Cardoso (" Entre as Mulheres"), Carola Saavedra ("Paisagem com Dromedário") e Luis P. Krausz ("Desterro. Memórias em Ruínas").

A ligação de cada um com a Alemanha varia, mas são igualmente especiais. Carola Saavedra morou oito anos no país. Filho de alemão, Rafael Cardoso vive em Berlim. A família de Luis Krausz é de origem austríaca, e ele cresceu em contato com o idioma alemão. "Pode-se ver neles a conexão do Brasil com o mundo inteiro", resumiu o tradutor Michael Kegler, que moderou a leitura pública.

       

Em entrevista à DW, os autores conversaram sobre a cena literária brasileira, a importância da atenção dedicada às obras do país na Alemanha e, é claro, sobre seus últimos livros. Carola Saavedra não escondeu a satisfação com a tradução do romance para o alemão. "Ficou tão bonito!", disse ela, com um exemplar na mão.

Deutsche Welle: O que significa para você a tradução da sua obra para o alemão?

Carola Saavedra: Em primeiro lugar, eu estou muito curiosa para saber como o livro será lido, porque eu sei que a leitura depende da cultura e do idioma – e como conheço a cultura e o idioma, estou mais curiosa ainda. Em segundo lugar: foi na Alemanha que eu vivi os anos da minha formação. Acho que, se não tivesse vivido na aqui, não teria me tornado uma escritora e certamente não seria a escritora que sou hoje. Dessa forma, voltar a Alemanha e ter meu livro publicado aqui é muito emocionante.

Luis S. Krausz: Para mim, a tradução é muito importante. Eu sou da segunda geração da minha família que nasceu no Brasil. Quem deixou a Europa foram os meus avós. Quando eles emigraram, levaram consigo uma carga muito pesada de cultura europeia e, sobretudo, uma visão de que o lugar deles era a Europa e de que eles estavam no Brasil apenas por causa das circunstâncias. De alguma forma, eles passaram esse sentimento para as outras gerações. Então esse longo percurso volta ao seu ponto inicial me dá uma satisfação muito grande.

DW: Luis S. Krausz, o seu livro Desterro. Memórias em ruínas descreve a situação do exílio. Relata que pessoas, seus antepassados, criam dentro de um país um espaço para viver uma outra cultura. Você tem isso ainda dentro de si?

LSK: O que eu discuto no meu livro não é fruto da minha experiência, mas é algo que herdei e que aos poucos eu fui descobrindo. Os meus antepassados nunca conseguiram se entender muito bem com essa situação de exílio. Durante a vida toda viveram a ambivalência de estarem muito apegados à Europa, mas, ao mesmo tempo, sentirem que não podiam voltar. Tudo aquilo que a gente não é capaz de resolver em nós mesmos acabamos passando para a próxima geração.
DW: O seu livro pode ser entendido como uma relação entre a sociedade brasileira e a história europeia. Você acha que o livro vai ser acolhido de forma diferente no Brasil e na Alemanha?
LSK: Quando o livro saiu no Brasil, eu tive um pouco de medo, de como iria ser recebido. Felizmente, a crítica o recebeu muito bem. Mas me chamou a atenção que em muitas lojas o meu livro está classificado como "literatura estrangeira". Curiosamente começa a surgir pouco a pouco uma tendência na literatura brasileira. Durante muitos anos havia entre os imigrantes e descendentes uma vontade muito forte de romper os laços com esse passado para se tornarem 100% brasileiros. Hoje há uma descoberta de que essa história de brasileiro não é uma coisa homogênea e nunca vai ser. Então, acaba sendo uma revalorização dessas origens. Na Alemanha, existem muitas assim histórias assim, elas são comuns.

DW: Carola Saavedra, o seu livro Paisagem com dromedário está situado numa ilha não nomeada. Assim, pessoas muito diferentes, no qualquer lugar do mundo, podem ler e entender o livro. É isso que é importante para você?

CS: O motivo da ilha é um motivo universal. Ela tem várias representações, por exemplo: se isolar numa ilha ou fugir para uma ilha. A minha ideia é que a literatura tem que ser, de alguma forma, transnacional. Na realidade, a literatura não é feita para dar respostas. Ela propõe o enigma e faz perguntas. Essas perguntas não têm respostas. Mas a arte está em fazer a pergunta certa. A literatura tem obrigação de fazer pensar.

DW: No seu livro, a personagem principal, a Érika, grava os seus pensamentos e conta a história através de gravações. Como surgiu a ideia e qual é o objetivo?

CS: O que eu faço com as transcrições das gravações é um simulador de oralidade. Parece que é falado, mas não é verdadeiro. É isso o que acho que é fascinante da literatura. Gosto muito de trabalhar com estrutura. Por exemplo: a narradora é Érika, mas na verdade não é ela porque é alguém que fez a transcrição. No final, você poderia pensar e questionar se ela disse realmente aquilo. Esse é um ponto muito importante para mim na construção do livro. Não tenho interesse de uma literatura que só conte uma história, por melhor que ela seja. O meu objetivo é sempre ter várias camadas. Então cada leitor pode ler de acordo com as necessidades ou desejos dele e entrar mais ou menos nessas camadas.
DW: Rafael Cardoso, no seu livro Entre as mulheres, você conta a história do Rio através dos olhos de 16 brasileiras. Você acha que as alemãs podem se identificar com elas?
Rafael Cardoso: Espero que as pessoas no mundo inteiro possam se identificar com as personagens. Como é um livro que trata de questões profundas da vida das pessoas – vida e morte, amor e tristeza – acredito que qualquer público pode se identificar com isso. O ser humano é igual em todos os lugares. Esse livro vai despertar curiosidade na Alemanha, que não foi o caso no Brasil, por se tratar de um livro de uma outra cultura. Na Alemanha, é um livro sobre brasileiras, no Brasil é mais um livro sobre uma cidade, o Rio de Janeiro, e sobre as experiências das mulheres.

DW: Apesar de todas as pessoas poderem se identificar com as personagens, as reações dos leitores ao livro são diferentes na Alemanha e no Brasil?

RC: Surpreendentemente as pessoas na Alemanha estão mais interessadas, talvez por exotismo. E os hábitos de leitura são diferentes, assim como o pensamento sobre literatura. Eu sempre brinco que o que falta no Brasil são leitores. Um livro de ficção brasileira contemporânea geralmente não vende dois mil exemplares no Brasil. E isso já é considerado muito bom. Há alguns autores muito bem sucedidos vendem 10 a 50 mil. Cem mil é um sucesso absurdo no Brasil. E isso para os padrões da Alemanha, que é um país com uma população bem menor, é uma vendagem fraca.

DW: Até hoje, a literatura brasileira não é muito conhecida na Alemanha. A maioria das pessoas que se interessam pela literatura brasileira têm alguma conexão com o país. Quais as expectativas de ser convidado a fazer leituras e do Brasil como país homenageado da Feira do Livro em Frankfurt, a maior feira do mercado editorial do mundo?

RC: Eu não falo em nome da literatura brasileira. Para mim, em respeito ao meu trabalho, acredito que esse momento de interesse pelo Brasil é muito especial. Meu livro foi publicado em 2007 no Brasil e só agora foi traduzido para o alemão. Então, dentro dessa perspectiva, as pessoas prestam uma atenção maior na literatura brasileira. O Brasil mesmo tem muito problema em divulgar a sua literatura. Ainda existe um clichê próprio de achar que o Brasil é música e futebol. Mas temos uma tradição literária muito rica. A percepção que eu tenho é que no Brasil um escritor não é tão valorizado pela própria sociedade quanto na Alemanha, na Inglaterra ou nos Estados Unidos.

LSK: Na verdade, o Brasil, por ser um país de imigração, tem uma diversidade muito grande. Essa participação do Brasil agora na Alemanha vai mostrar ao mundo que a riqueza do Brasil está na diversidade e nas diferenças espantosas que existem entre as pessoas e suas histórias, suas origens e suas culturas. Isso é uma riqueza muito grande que o Brasil tem que mostrar para o mundo.

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