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Oscar 2013

Direto da Casa Branca

por Rosane Pavam publicado 08/03/2013 11h36, última modificação 08/03/2013 11h38
Teria sido um grande ano para os roteiristas, não fosse a séria suspeição de pelo menos uma farsa

O diretor Quentin Tarantino mal agradecera o Oscar recebido pelo roteiro original de Django Livre quando decidiu permanecer no palco do Dolby Theater, em Los Angeles, para um arremate. No final de seu discurso, disse aos colegas concorrentes nas categorias de roteiro que haviam sido todos “fantásticos”, para então enfatizar ao público presente à festa, no dia 24: “Este é o ano dos escritores, cara”. Tarantino, cujo filme receberia apenas mais uma estatueta, a de ator coadjuvante, para Christoph Waltz, talvez tenha resumido em sua fala o propósito das premiações do ano. Era como se Hollywood celebrasse aqueles que ousaram escrever a história por meio de seus filmes. Ou, em lugar de escrevê-la, eles a teriam reescrito?

Cineasta, crítico, cinéfilo e roteirista, Tarantino concretiza em seu western politicamente correto uma vingança explosiva contra o passado escravocrata do -país. Mel Brooks ironizara antes essa condição, mas de forma seca, algo surreal, em Banzé no Oeste, de 1974. Essa fantasia de Tarantino, como suas anteriores, vem pelo contrário construída com farto humor e horror histriônico, ademais admitindo uma predileção americana em resolver as coisas pela força dos canos fumegantes.

 

 

Tarantino cristalizou um estilo. Em Pulp Fiction, de 1994, ele surpreendia o mundo do cinema com uma curiosa comicidade, especialmente durante aquela conversa dos matadores que, a caminho do serviço, versavam sobre o sanduíche -ideal. Em Django Livre, a atrapalhada milícia aparentada à Ku-Klux-Klan discute sobre a inconveniência dos furos em seus capuzes antes de proceder ao extermínio, o que, mais uma vez, diz bastante sobre a competência (ou não) daqueles personagens, numa das melhores tiradas do filme. O público parece desejar que seu estilo se repita.

Django Livre não saiu vencedor da 85ª premiação do Oscar talvez porque a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas se abra muito raramente à comédia. Ou porque Tarantino, neste filme, tenha insistido em encaixotar em formato conhecido sua crítica histórica (o programa Saturday Night Live parodiou esse formato imaginando um Jesus Cristo armado). E havia um problema mais.

Se a obra de Tarantino tivesse sido a vencedora na categoria de melhor filme, em que situação se encontraria agora a primeira-dama Michelle Obama, a surpresa da noite para anunciar esse prêmio final, surgida em um telão diretamente da Casa Branca, a empanar o brilho do apresentador Jack Nicholson? Que efeito teria o discurso no qual parabenizava o cinema americano por ter ensinado ao mundo “que o amor pode lutar contra tudo” e “transformar nossas vidas da maneira mais surpreendente?” É verdade que o amor vence em Django Livre, mas seria difícil explicar a pertinência dos meios usados para esse fim na existência mesma do espectador.

A declaração de Michelle, feita diretamente do centro de poder político da nação de grande poder militar, dificilmente seria entendida apenas como um incentivo à arte de fazer filmes. Os iranianos, por exemplo, a viram como provocação do “inimigo”, eles que, por meio de photoshop, “vestiram” parte dos braços e do colo da primeira-dama na foto de um jornal local. Incomodou especialmente ao governo do Irã não a fuzilaria em Django Livre, mas a mensagem em Argo, o vencedor de melhor filme da noite. Disse o ministro da Cultura e Orientação Islâmica, Mohammad Hosseini, que a obra, “esteticamente muito pobre”, era contrária ao Irã.

Filme que tem entre seus produtores executivos o ator George Clooney, Argo surgia para o diretor Ben Affleck como uma grande possibilidade de condução realista, inspirada nos ágeis filmes dos anos 1970, nos quais eram denunciadas as armações da política e da hipocrisia social norte-americanas. O filme, cuja textura emulava o cinema daquele período, parecia em certos momentos buscar a verve das ruas de um ficcionista como Sidney Lumet (Um Dia de Cão e Rede de Intrigas) ou as armações de gabinete reveladas por Alan Pakula em Todos os Homens do Presidente. No início do filme, qual em um documentário de Michael Moore, Ben Affleck explica que o povo do Irã sofreu com uma ditadura financiada pelos americanos e declara que sua revolução, de início, fora justa. Mas só de início, como decretam os dez minutos de abertura, em oposição ao restante do filme.

De modo a abandonar a abordagem inicial, Argo perde-se em um simulacro do cinema de aventura dos anos 1980, aquele que dera ao mundo De Volta para o Futuro, de Robert Zemeckis, ou Indiana Jones, de Steven Spielberg. Esses eram vencedores dos corações e mentes do período ao insinuar, com brilho narrativo, que um americano médio poderia vencer a espada oriental da tirania com apenas um carro veloz e uma bala de revólver. Mas Argo não está nem lá, na crítica histórica fundamentada, nem cá, nos filmes de ação eletrizantes da era Reagan. Os paralelismos narrativos são óbvios, não há descrição suficiente dos personagens, nem mesmo do próprio agente, e tudo afasta o espectador do drama por que passam, embora se possa torcer por eles como quase personagens de videogame.

Affleck transformou o funcionário da CIA em uma espécie desanimada de -Indiana Jones. Interpretado sem alteração fisionômica pelo próprio Affleck, tal personagem, segundo o filme, fora o principal responsável pela liberação de seis funcionários fugidos do cerco iraniano à embaixada americana, em 1979. O filme lhe faria a justiça que não pudera ser promovida durante o conflito. O homem da CIA, ele conta, usara o estratagema de uma filmagem fictícia, em locações iranianas, para que os funcionários munidos de falsos passaportes canadenses pudessem embarcar no aeroporto de Teerã. Muitos entenderam o filme como fabricado para reafirmar uma necessidade hegemônica dos tempos atuais.

O crítico de cinema e diretor Kevin B. Lee, que aponta em Affleck um interessado na vaga de senador deixada pelo secretário de Estado John Kerry, diz que Argo é uma fraude. “Em lugar de se voltar ao grande cenário da revolução iraniana, ele investe na linha retrógrada dos ‘americanos brancos em perigo’. Entende os oprimidos iranianos como uma horda de zumbis, com a mesma face morena de incontáveis outros filmes.” Além disso, para o jornalista e diretor alemão Harold von -Kursk, o -filme esconde o fato essencial de que quem realmente protegeu e arquitetou a escapada dos foragidos foi o ex-embaixador canadense Ken Taylor, um coadjuvante no filme de Affleck e, por isso, no mundo real, atualmente seu franco opositor.

Isso sem contar que sequências inteiras essenciais à ação cinematográfica, como a visita ao mercado de Teerã, a inspeção no aeroporto e a perseguição ao avião da Swissair por iranianos em veículo policial (no filme, é como se os carrinhos evocassem as espadas afiadas dos orientais diante do revólver de Indiana Jones) jamais aconteceram. Affleck defende-se dizendo que estudou Oriente Médio na Universidade de Vermont e escreveu um artigo sobre a revolução iraniana. Talvez por isso mesmo ele devesse checar os fatos, insinua Von Kursk. “Podemos perdoar a adição de um jipe carregado de metralhadoras perseguindo um jato comercial. Mas não há como desculpar uma visão manipuladora e irremediavelmente distorcida da realidade para maquiar uma peça de propaganda.”

Por que Hollywood cedeu a Argo quando tinha, entre os filmes concorrentes, a história da aprovação da emenda abolicionista por Abraham Lincoln, em 1865, é um mistério a resolver. O filme, que deu ao protagonista Daniel Day-Lewis seu terceiro Oscar, sofre de excessivas palavras. No entanto, procura reescrever a história com outra intenção, a de mostrar como a política americana vem justificando a obtenção de fins justos por meios duvidosos desde pelo menos a Guerra Civil. No caso da abolição, lembra o diretor Steven Spielberg, foi preciso comprar parlamentares e mentir sobre os princípios de igualdade para conseguir a aprovação da emenda. Entre todas as escrituras elogiadas por Tarantino, talvez essa tenha sido a melhor, embora durante todo o filme não seja incluída a correspondência do admirador Karl Marx a Lincoln, nem se mencione o interesse do presidente norte-americano nas teorias do pensador alemão.

Como de uso, o que parece reter a atenção do espectador ou, pelo menos, o interesse da indústria, é a narrativa na qual se sobressai a luta do homem médio, principalmente aquele munido de amor (a evocar Michelle Obama) diante de obstáculos intransponíveis. As Aventuras de Pi deu o Oscar de direção a Ang Lee. O que ele conduz em um filme de efeitos especiais esfuziantes é uma história de Yann Martel reescrita sem autorização a partir da ficção Max e os Felinos, do brasileiro Moacyr Scliar. O obstáculo intransponível de Pi vem a ser sua fantasia, seu tigre interior.

No caso de O Lado Bom da Vida, pretensa comédia dramática dirigida com câmera errática, insistente sobre a nuca do ator Bradley Cooper, encena-se o que é corrente em Hollywood desde que Katherine Hepburn encarou Spencer Tracy com voluptuosa submissão ou Liz Taylor pediu o amor a Paul Newman mesmo que o sexo com ela o torturasse: ame-me na hora difícil e seremos felizes depois. Jennifer Lawrence, que sabe pedir e convencer, levou o prêmio de melhor atriz por este Lado B., esparramando seu Dior com elegância pelas escadas depois de um tombo rumo a receber o prêmio.

Irônico que pouca atenção se tenha dado a Amor, a mais hollywoodiana, por assim dizer, entre as obras de Michael Haneke, suas atuações comoventes, nenhuma palavra ou gesto fora do lugar, um drama resolvido com pungência e sonho ao final. Vencedor na categoria de melhor filme estrangeiro, Amor foi entendido, contudo, como coisa “dos anos 90” pelo apresentador do Oscar, Seth MacFarlane. Foi ele quem se lembrou da atriz Emmanuelle Riva, 85 anos, candidata a melhor atriz pelo filme, como alguém a esperar na plateia “desde 9”.  Sim, a noite foi longa. E não somente a reescritura da história se mostrou fantástica neste ano, cara, mas também a grosseria do novo humor.