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Direito de resposta

por Socrates — publicado 21/01/2011 09h24, última modificação 21/01/2011 09h24
Em lugar algum o texto “Guerra e paz”, publicado na primeira semana do ano, compara o regime nazista à realidade do Brasil. O comum aqui é que, como lá, em 2016 esconderemos nossos problemas debaixo do tapete

Em lugar algum o  texto “Guerra e paz”, publicado na primeira semana do ano, compara o regime nazista à realidade do Brasil. O comum aqui é que, como lá, em 2016 esconderemos nossos problemas debaixo do
Devido a alguns comentários raivosos em relação ao texto publicado na primeira semana deste ano (“Guerra e paz”), resolvi comentá-lo. E começo pelo fim: se transformarmos os objetivos políticos em econômicos e sociais (literalmente: em 1936, tentou-se esconder o genocídio; aqui tentaremos esconder problemas sociais e econômicos; a comparação de ideologia política em momento algum foi colocada; até porque seria absurda), poderemos muito bem imaginar o que deverá acontecer em nosso país em 2016.
Guerra Fria, Guerra dos Seis Dias, Guerra Sangrenta etc. Existe toda sorte de adjetivos para caracterizar a mais absurda das ações humanas (ou será que alguém discorda?). Mas as guerras nem sempre são fruto de determinações destemperadas geradas em mentes insanas (às vezes, os motivos são puramente imperialistas e/ou militaristas, como a nossa ditadura). Eu sei, eu sei que esse tipo de análise jamais provocaria um sentimento, digamos, contemporizador na cabeça da maior parte dos cérebros privilegiados. Às vezes, utilizamos esse termo para definir uma forma de atingir, ou de uma sociedade construir, uma nova ordem que restabeleça uma relação mais sã entre seus constituintes. Por si só já está implícito, nesse ponto, um gigantesco conflito. Talvez devêssemos encontrar uma forma mais pura e palatável de nos exprimir. Seria muito melhor. Infelizmente, nossas limitações nos empurram para contrastes nem sempre fáceis de entender (um passeio pelo que compreendo como o pulsar humano).
Mas guerra é guerra. Existe  até Guerra Santa! Sempre há uma causa e um ideal ainda que desumano. E tudo em círculo, sempre vicioso. Napoleão, em sua excentricidade, queria tudo. Queria o mundo. E bateu-se com o czar russo. Lá no norte do planeta existiam muitas das maiores reservas de petróleo e grãos. No entanto, como Tolstoi nos mostrou em Guerra e Paz, foi por motivo menor que a guerra acabou sendo proclamada. Napoleão se negou a retirar suas tropas quando instado a isso (recordação histórica).
Já os alemães saíram desolados de uma grande guerra para entrar em outra bem pior. Levaram ao poder o homem que pregava contra o Tratado de Versalhes, solução encontrada para a busca da paz na Europa e contra o povo judeu. Defendia a pureza da raça ariana. Os nazistas queriam acabar com os judeus, que tentam exterminar os palestinos, que sonham destruir a América, que ajudou a derrubar Hitler. Desculpem, não tenho nada contra nenhum desses povos. Até porque essas decisões sempre foram de gabinete, estimuladas por interesses específicos e executadas por tristes soldados que nem sempre sabem o porquê (outro passeio histórico).
A mesma Alemanha foi escolhida para sediar os Jogos Olímpicos em 1936, em plena realidade nazista, tendo Adolf Hitler à frente. Queria-se mostrar ao mundo o crescimento do país e esconder suas mazelas (eventos desse porte são o mais das vezes utilizados para maquiar alguma coisa). Talvez em alguns aspectos (percebam o cuidado com o “talvez”) vejamos semelhanças com o que ocorrerá no Rio de Janeiro em 2016.
Tudo foi feito para causar a melhor impressão possível (ou aqui será diferente?). A Vila Olímpica construída era impressionante: 140 casas em meio a um bosque, emolduradas por um lago onde cisnes nadavam suavemente. O momento era propício para que Hitler pudesse divulgar os princípios nazistas e tentar justificar-se sobre o que falavam em relação ao tratamento dado ao povo judeu. Assim, toda e qualquer alusão a judeo-alemães ou visitantes foi evitada tanto pela imprensa como pelo próprio regime durante a realização dos jogos. Deveremos, em 2016, ver algo parecido com a ECO 92, quando tivemos de mobilizar o Exército para controlar os problemas da cidade. Berlim foi praticamente restaurada em seus principais pontos, maquiando-se assim a realidade que existia até ali. Quando do pleito alemão para sediar os jogos, haviam garantido que os judeus não seriam excluídos do time olímpico alemão, conseguindo com isso várias adesões que culminaram com a escolha de sua capital. O objetivo era claro: sublinhar de maneira impressionante a propaganda alemã de superioridade da raça ariana.
Agora me digam onde foi que comparei o regime nazista com a realidade brasileira? Se fosse há 40, até que teria alguma lógica. Mas hoje? Para quem não leu ou não entendeu, o comum aqui é que Berlim fez uma olimpíada e nós poderemos ter a de 2016. E como lá, aqui esconderemos nossos problemas debaixo do tapete (cuidado, é só uma inofensiva metáfora!). O pior cego é aquele que não quer ler.