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Visões Musicais

Diálogos sensoriais II: Nino Rota e Fellini

por Alexandre Freitas — publicado 25/08/2010 11h21, última modificação 25/08/2010 11h22
Os dois acabam deixando claro que os conceitos aplicados à apreciação das relações audiovisuais não passam de instrumentos de alcance limitado para observá-las

“Exercício terapêutico de liberação”, foi a definição encontrada por José Miguel Wisnik para a produção de sua coluna semanal de O Globo. Ele revela como lida com o desafio de escrever regularmente para um jornal e sua dificuldade encontrar o tom, a forma apropriada de abordar os leitores cariocas, com os quais nunca cruza. Aliás, Wisnik diz mal conseguir acreditar na própria existência do Rio de Janeiro.

Se o escritor do “Som e do Sentido” precisa externar suas angústias e se surpreende com a virtualidade dos seus leitores, o que diria o modesto colunista de “Visões Musicais”? Em primeiro lugar, trata-se de uma coluna em um site, ou seja, virtualidade redobrada. Por outro lado, o que me parece desafiador é lidar com a liberdade conferida pelos amáveis editores deste site.

Os jornalistas parecem encontrar consolo para o “problema” da liberdade se apegando à atualidade. E mesmo que atualidade nem sempre seja tão interessante assim, a tarefa do jornalista é a de interpretá-la e colori-la para que ela possa florescer de alguma forma. Tenho muito respeito por essa atitude.

Mas não sou jornalista, sou músico. Mesmo relativamente informado do que acontece em algumas instâncias artísticas, tenho dificuldade em comprometer-me efetivamente com a atualidade geral. Então, aproveito a liberdade que esse espaço me concede e ouso dividir minha atualidade. Compartilhando algumas ideias e visões sobre objetos artísticos, atuais ou não, espero humildemente encontrar ressonâncias e ecos em algum lugar dessa virtualidade tão real.

Pois bem.

Há alguns anos preparei um curso de extensão universitária para a PUC do Rio intitulado Diálogos entre Som e Imagem. No conteúdo, entre vários outros assuntos, havia previsto alguns comentários sobre o sound design, que é a criação, manipulação e organização de elementos sonoros a partir de roteiros audiovisuais. Com pouca experiência no assunto, reuni informações que encontrei no livro A Música do Filme, de Tony Berchmans, algumas obras de referência de Michel Chion e trechos de filmes para ilustrar os conceitos apresentados.

O livro de Berchmans, dirigido a todos que tenham interesse nas relações som e imagem no cinema, traz uma série de conceitos objetivos sobre o assunto, pontuado por curiosas anedotas de bastidores. Por exemplo, para a famosa cena do chuveiro de Psicose, Hitchcock havia recomendado ao compositor da trilha Bernard Herrmann que não colocasse som algum. Recomendação não seguida. E os sons agudos, repetitivos e regulares da cena tornam-se sua marca registrada. Ele ressalta também que os elementos sonoros servem, na grande maioria das vezes, à narrativa visual e são subordinados a ela. E apresenta uma clara distinção entre a música que os personagens não escutam, o background, que cria o clima da cena, e a chamada música ambiente. Esta última é ouvida pelos personagens e participa efetivamente do filme.

Por esses dias, revi Amarcord, de Fellini (1973). Desta vez com a atenção especialmente voltada à música de Nino Rota. Inútil comentar a perfeita fusão que há entre aquelas imagens e aqueles sons. Mas em alguns momentos essas fusões pareciam ir além de uma harmoniosa combinação.

Para não ficar na pura abstração, convido o leitor a ver (ou rever) dois trechos do filme: http://www.youtube.com/watch?v=lS-q7jns5Xo

http://www.youtube.com/watch?v=ygr7De1wq6o

Na primeira cena, após uma melodia secundária, é apresentado o tema principal do filme. Seu acompanhamento prossegue e continua a exercer a mesma função ao lado do personagem flautista, com uma nova e inusitada peça musical. A música, que no inicio parece estar exterior à cena, se torna “real”, percebida pelos personagens. É como se os personagens se atentassem subitamente para o que era apenas um acompanhamento.

O segundo trecho é mais delicado. Os adolescentes, no terraço do grande e glamoroso hotel, dançam e simulam instrumentos musicais ao som de uma orquestra imaginária, que não poderia ser mais concreta.

Exemplos de diferentes tratamentos dessas relações entre sons e imagens são muito frequentes na obra da parceria Fellini-Rota. E eles acabam deixando claro que os conceitos aplicados à apreciação das relações audiovisuais não passam de instrumentos de alcance limitado para observá-las. A graça parece residir justamente em ver como grandes músicos e cineastas transitam livremente nos meandros das regras e das lógicas cinematográficas. A música deixa de ser um complemento das imagens e se torna personagem ativo de um grande filme.