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Diabolô literário

por Rosane Pavam publicado 01/08/2008 15h38, última modificação 16/09/2010 15h39
Será que as pessoas ainda enfrentam Julio Cortázar? Dormem com suas palavras? O dia é para que os homens sofram com o trabalho, viajem na calçada, confrontem a consciência com os sonhos, parem no café e comprem diabolôs para os meninos.

Será que as pessoas ainda enfrentam Julio Cortázar? Dormem com suas palavras? O dia é para que os homens sofram com o trabalho, viajem na calçada, confrontem a consciência com os sonhos, parem no café e comprem diabolôs para os meninos. Mas e à noite? Ler à noite, à véspera do sonho, assim é que se lê, porque no escuro esperamos que um dia novo nos redima. É preciso que os livros nos preparem para o que virá, que nos ajudem a transformar o que não mais funciona sob o grande sol.

Ninguém, dizem-me, lê Cortázar como lia antes. O crítico Davi Arrigucci, que sobre ele escreveu “O Escorpião Encalacrado”, acredita que o escritor tenha sempre buscado o sentimento do novo, o homem no limite da decisão, de um aperfeiçoamento, de uma passagem _ o homem no seu rito de adolescência.

Eis por que não seria estranho dizer que Cortázar interessaria sobremaneira aos que jogam amarelinha ou quem sabe, contemporaneamente, o diabolô. Os grandes, estes em situação de comprar livros e, ainda mais, apaixonados por literatura, estariam com Jorge Luis Borges, divertidamente lembrado como oposto de Cortázar, mas a quem ele admirava como a um mestre _ o mesmo Borges que foi o primeiro a publicar Cortázar em uma revista literária, e para ilustrar o conto de estréia, “Casa Tomada”, providenciara um desenho de sua irmã, Nora Borges.

Talvez esta consideração de uma literatura para jovens esconda o fato de que as ansiedades da adolescência sejam aquelas de formação _ e que as pessoas, hoje, formem-se cada vez mais tarde para as decisões. O experimento lhes parece permitido em idade avançada. Vive-se mais nestes dias. No orkut, a comunidade dedicada a Cortázar tem cinco mil membros. Isto é pouco? Nem todos os comunitários são jovens.

Penso como teria andado o escritor argentino por esta São Paulo doente, em 1975, já que desconfiava que o perseguiam. Ele, ainda mais, portador e buscador das palavras, inventara uma leitura livre em “Rayuela”, e a liberdade interessava aos jovens, os revolucionários de então.

Aos 59 anos, Cortázar passeara pelo Instituto Butantã, comera no Mexilhão, no Pingão, no Amigo Leo, vira Maria Bethânia no Tuca, todos eles itens de um roteiro turístico na capital paulista daqueles tempos. Em comunicação com os paramilitares argentinos, a polícia soubera, em abril, que Cortázar se encontrava aqui, que ocupava o Hotel Esplanada, no centro, e que lá depositara suas valises.

A polícia recebeu a informação da presença do escritor entre nós diretamente de um jornal vespertino que dera a manchete “Cortázar está em São Paulo, fingindo que não está”. A polícia, depois disso, revirou o quarto que ele ocupava no hotel, durante sua ausência. Nada, é evidente, encontrou.

O perigoso e subversivo Julio Florencio Cortázar, jurado do Tribunal Bertrand Russell contra os atos de tortura em países da América Latina, queria estar em São Paulo para, entre outras coisas, comprar discos de Gal Costa. Já visitara a mãe e a irmã em Campos do Jordão, sigilosamente, por uma semana. Não poderia voltar à Argentina, ele que morava em Paris. Se pisasse em Buenos Aires, os paramilitares o pegariam.

Antes de deixar São Paulo às pressas, rumo ao aeroporto que o levaria a Paris, em abril, ele jogou na privada o café da manhã. Dormira no quarto revirado antes de tomar a decisão. Que palavras teria carregado pela noite?

Arrigucci diz que, no aeroporto de Congonhas, à espera do ônibus que o levaria a Viracopos, ele lia “Balanço da Bossa e Outras Bossas”, de Augusto de Campos. Fazia sentido. Bossa nova, Caetano ou Gal eram novidades radiantes. Diz o próprio Arrigucci que Cortázar não se cansava de buscá-las, como quem quer abrir a porta a um mundo mágico. Tudo, aliás, poderia ser magia para ele. Um dia viu o desenho de um escorpião na placa de um estabelecimento e se perguntou se aquilo representaria um sinal.

Estive com Arrigucci nesta semana e pude ler alguns trechos de cartas enviadas a ele por Cortázar. Selecionei o que vai a seguir. Cortázar tenta, aparentemente, consolar Arrigucci de alguma espécie de tristeza do crítico, que contava então 34 anos. E diz, em 13 de janeiro de 1977, ao “querido Davi”:

Não reprove meu silêncio, porque também minha vida é difícil, viajo demasiado por razões que nada têm que ver com meus gostos mais profundos, sabe-o bem; há dias em que sinto a boca amarga, vontade de que tudo se vá ao diabo, e eu em primeiro lugar. Mas depois olho para o sol, encontro um sorriso em uma rua, me agrada uma mulher, essas coisas que de repente me dizem que estou vivo e que só o estarei uma vez. Então volto para minha casa e escrevo ou escuto discos ou faço amor ou brinco com um menino, e penso que ao fim e ao cabo valeu a pena ter estado um instante neste sujo, fodido, planeta.

A carta prossegue com seus interesses, depois de Cortázar ter dado fim à “filosofia barata” que acabara de dizer.