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Cultura

Crônica do Villas

Dezembros

por Alberto Villas publicado 06/12/2012 09h39, última modificação 06/06/2015 18h56
De repente o Natal chegava de verdade. O meu pai pegava uma flanelinha e ia desempoeirando cada disco de vinil que era testado na radiola

Enquanto dezembro não chegava, não havia o menor sinal, o menor vestígio de Natal na cidade. Hoje é diferente, hoje em setembro a primeira fornada de panetone já chegou aos supermercados, em outubro os shoppings começaram a se enfeitar e em novembro ho ho ho, é Natal! O meu Natal de criança começava lá pelosdias 5, 6, 7 de dezembro quando meu pai pegava uma escada enorme e subia até o sótão da minha casa em Belo Horizonte.

Aos poucos ele ia descendo os caixotes de madeira, um a um. Lá dentro bem embrulhadinhos em folhas de jornal estavam os personagens do presépio, as bolas da árvore, os enfeites e os discos de vinil com músicas natalinas. Sim, os discos ficavam embalados junto com tudo o que tinha a ver com Natal. Caixotes empoeirados no chão, meu pai - o bom velhinho - ia desembalando peça por peça.

A gente se divertia abrindo aquilo cuidadosamente e vendo nas páginas amareladas do jornal Estado de Minas coisas que aconteceram há um ano, quando minha mãe embalou tudo.

Eram notícias de JK, da cadela Laika, de Nikita Khruschov, de João XXIII, de João Gilberto,  Gilmar, Bellini, Nilton Santos, Zito, Orlando, Didi, Pelé, Vavá e Zagalo. Notícias da estonteante Adalgisa Colombo, nossa Miss Brasil, quase  Universo. A gente se divertia até com as previsões para o ano que não tinha começado – 1958 – e agora já era passado.

O clima de Natal naquela casa continuava  quando o meu pai chegava do Mercado Central com um balaio cheio de pêssegos e figos verdes que a minha mãe passava dias descascando para fazer doce em calda até ficar com a mão preta de nódoa.

O clima aumentava quando ele ligava para as Estâncias Califórnia encomendando nozes, castanhas, avelãs, um garrafão de vinho e uma caixa de uvas Niágara.

De noite o meu pai sentava com os filhos em volta da mesa colonial que ficava na copa para, juntos, escrevermos a carta para o Papai Noel. A lista era longa e ele dizia sempre que o bom velhinho não tinha muito dinheiro e que era preciso pedir coisas que estavam ao seu alcance porque eram milhares de crianças no mundo que precisavam ser atendidas. Uma bicicleta Monark, uma boneca Suzy, um par de patins, um kit Xerife com revólver, cartucheira, colete e estrela... Todo ano pedíamos soldadinhos de chumbo, um jogo chamado Xadrez-Chinês e um outro chamado O Pequeno Químico.

Os últimos preparativos eram quando minha mãe pegava uma tigela com açúcar e canela e começava a passar as fatias de pão de rabanada no ovo e depois no açúcar com canela e o meu pai cobria o peru com um pano de prato e levava para assar na Padaria Savassi. Os sapatos engraxados ao pé da árvore, as luzinhas piscando pela casa inteira e o cheiro da farofa que iria dentro do peru era o toque final.

De repente o Natal chegava de verdade. O meu pai pegava uma flanelinha e ia desempoeirando cada disco de vinil que era testado na radiola. Quando ouvíamos Carlos Galhardo cantando “Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel e assim felicidade eu pensei que fosse uma brincadeira de papel...” era sinal de que a noite de Natal estava começando.

O sonho dos meus Natais nunca acabou, nem mesmo naquele 20 de dezembro quando eu e meu irmão passamos pelo jardim pisando na grama e nos estrepando nas roseiras, escalamos um muro de pedra e espiamos pela janela do escritório do meu pai - que passava os dezembros com a porta trancada - todos aqueles presentes empilhados no canto esperando talvez o papel de presente. Estavam lá a boneca Suzy, o par de patins, o Xadrez-Chinês, o Pequeno Químico, os soldadinhos de chumbo, o kit Xerife e uma patinete. Sim, uma patinete. Aquele ano não era uma bicicleta Monark, era uma patinete.

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