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Destaques Bravo! para ver

por Orlando Margarido — publicado 10/03/2012 11h32, última modificação 10/03/2012 11h32
"Minha Felicidade", de Sergei Loznitsa, retrata uma rede de crime e corrupção instalada nos altos escalões que condiz com a atmosfera recente da Rússia. Veja aqui outras sugestões
Minha Felicidade

Parábola dark. Olga Shuvalova e Viktor Nemetes, personagens de uma espiral de violência

Minha Felicidade
Sergei Loznitsa

Minha felicidade, em cartaz, termina onde começam os recentes fatos da reeleição de Vladimir Putin.

Ou seja, no limite, a Rússia sombria que o diretor Sergei Loznitsa representa em seu filme ganha uma incômoda, embora nem tanto inesperada, autenticidade pelas mais recentes notícias na política do país. São movimentos complementares, na medida em que Loznitsa reflete uma nação que, antes cativa do projeto comunista, agora sob a luz capitalista torna-se refém de uma rede de crime e corrupção instalada nos altos escalões do poder. Documentarista que estreia na ficção, ele tem se exercitado na investigação do que agora conta com conhecimento e tintas dramáticas.

Sua representação não é, por motivos que se pode imaginar, descarada, mas, sim, busca como essa anomalia de uma sociedade em crise moral e ética repercute na consciência nacional. Do resultado não poderia se esperar nada menos que contundência e violência, também justificadas por um passado literário que tem em Dostoievski eterna referência. A cena inicial confere o tom geral. Um corpo é arrastado e enterrado com concreto, depois terra para  disfarçar o trabalho. Um caminhoneiro, a partir daí, será uma espécie de personagem de ligação entre situações de abuso, como uma batida policial, e de tipos como um velho que  lutou em guerras e agora vive como um pária, e uma jovem, para não dizer menina, prostituta.

A condução cada vez mais exasperante de Loznitsa, inclusive ao convergir passado e presente, chega a situar-se quase no registro da parábola, não fosse a realidade falar ainda mais alto que suas intenções.

Drive
Nicolas Winding Refn

Para o ator Ryan Gosling, seu personagem em Drive, em cartaz, é um tipo que dirige por Los Angeles e ouve música pop. Foi dessa forma que ele o imaginou quando ofereceu uma carona ao diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn e o flagrou chorando por causa de uma canção no rádio. Em boa parte, a descrição contada no Festival de Cannes do ano passado, do qual o filme saiu com o prêmio de direção, atende ao que o espectador testemunhará na tela. Mas há mais, e é a construção de uma crescente solidez da personalidade do protagonista, uma espécie de Costello de Alain Dellon em O Samurai (1967), que faz toda a diferença num trabalho  devedor a outros e ainda assim pulsante e renovador.

Essa renovação ocorre por meio do delineamento sutil do comportamento do jovem que dirige como profissional de bicos durante o dia e trabalha para uma rede criminosa à noite. De início silencioso, inexpressivo em seus sentimentos, ele aos poucos vai adquirindo cores e reação, truculenta quando esmaga a cabeça de um inimigo dentro do elevador, amorosa e protetora ao conhecer a mulher de um detento (Carey Mulligan) e seu filho. Quando o marido sai da prisão, ele continua a vigiá-la de perto, já ciente do sentimento que os une. E, por conta deste, apelará a um último golpe criminoso para ajudar o casal. Tudo levado com contenção e muito estilo, até o momento em que a situação demanda medidas desesperadas, bem à maneira do Travis Bickle de Robert De Niro em Taxi Driver, fonte maior deste outro novo pesadelo americano.