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Depois de 40 anos, maestro apresenta CD pela primeira vez

por Revista Brasileiros — publicado 12/04/2011 16h26, última modificação 12/04/2011 16h26
Acompanhado de 36 músicos, o carioca Arthur Verocai emociona a plateia do SESC Pinheiros, em São Paulo com o repertório de seu cultuado album de 1972. Por Marcelo Pinheiro

Por Marcelo Pinheiro

Depois de longa espera - foram quase 40 anos! -, o maestro e compositor carioca Arthur Verocai apresentou pela primeira vez no País, no último fim de semana, o repertório de seu cultuado álbum homônimo, lançado em 1972. Verocai é um dos mais importantes arranjadores brasileiros e produziu extensa obra em nossa indústria fonográfica, na transição dos anos 1960 para os 1970. Figura praticamente anônima e sem projeção popular, por conta do ofício pouco valorizado na grande mídia, ele foi decisivo em alguns dos mais relevantes trabalhos de grandes nomes da MPB, como Luiz Melodia, Jorge Ben Jor, Gal Costa, Marcos Valle, Tim Maia, Ivan Lins, Elis Regina e muitos outros.

Redescoberto por artistas do hip hop americano, como Madlib, MF Doom, Little Brother e Ludacriss, no início dos anos 2000, o álbum de Verocai tornou-se objeto de culto no Japão, na Europa e nos Estados Unidos, onde foi relançado em 2003 pelo selo Ubiquity Records. O reconhecimento tardio fez com que Verocai apresentasse o álbum em Los Angeles, em 2009, no Los Angeles Theatre Center. O concerto foi um divisor na carreira autoral de Verocai, que jamais havia recebido tamanha atenção. Contou com o auxílio luxuoso de uma orquestra de cordas e sopros, mais de 30 músicos, e uma plateia de mais de 1.500 pessoas eufóricas. O concerto teve registro em DVD para a série Timeless - da produtora americana Mochilla -, dedicada a celebrar e revelar grandes arranjadores esquecidos ao redor do mundo, como o maestro etíope Mulatu Astatke, que recentemente fez duas apresentações memoráveis em São Paulo.

O mesmo concerto de Timeless foi a base das apresentações de Verocai, no SESC Pinheiros, ocorridas nas noites de sábado e domingo. O show teve início com a faixa instrumental Karina (Domingo no Grajaú), tema que fecha o álbum homônimo de 1972, e reservou surpresas, como a participação da cantora Célia, grande entusiasta da obra autoral de Verocai que, em 1971, gravou sua canção Na Boca do Sol (a mais sampleada pelos rappers mundo afora, por conta do poderoso loop de introdução, que une metais e cordas). O show ainda teve as participações de Danilo Caymmi, que cantou e tocou flauta transversal, do percussionista Robertinho Silva e do saxofonista e flautista Nivaldo Ornelas. Filho de Arthur, e um apaixonado pela música como o pai, o também compositor Ricardo Verocai assumiu o comando de duas preciosidades: um piano elétrico Fender Rhodes e um órgão Hammond B3, instrumentos antigos e cultuados, que foram fundamentais para ajudar a recompor a atmosfera dos arranjos originais do álbum de 1972. Outra grande participação foi a do cantor e compositor carioca Carlos Dafé que esbanjou simpatia e, ao solar o belo tema Pelas Sombras, fez menção ao grande Luiz Carlos Batera, ex-baterista do Abolição, grupo liderado pelo pianista Dom Salvador no clássico álbum Som, Sangue e Raça, de 1971, e da Banda Black Rio. O álbum de Verocai tem vários cantores, e Luiz Carlos gravou a versão original da canção. Dafé pediu licença a ele com as mãos estendidas para o alto e tirou sua boina para reverenciá-lo. Gritos e palmas eufóricas romperam o silêncio.

O show ainda reuniu temas compostos recentemente pelo maestro, como as instrumentais Queimada, Flying to L.A., e Sucuri, que dão provas que seu grande talento continua intacto. Ao final, aplausos efusivos, um bis de Na Boca do Sol, e uma plateia tomada por forte emoção com a experiência sensorial que a música de Verocai - seja ao vivo ou em registros fonográficos - proporciona. Ele foi entrevistado pela Brasileiros, horas antes do primeiro show, e na edição de maio publicaremos um perfil com excertos da entrevista e sua rica história que (clichê inevitável esse), definitivamente, se confunde com uma das fases áureas de nossa indústria fonográfica. Não perca!