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Crônica

'Demissão, não: oportunidade'

por Matheus Pichonelli publicado 29/09/2011 17h05, última modificação 01/10/2011 18h56
Longa chileno traduz o cinismo do mundo corporativo que se apossa de eufemismos para estancar fraturas expostas com esparadrapos

Eufemismo é a figura de linguagem usada quando se quer amenizar uma notícia grave, trágica ou constrangedora. É também o mais importante dos recursos da língua: a ele se deve parte da evolução e da sobrevivência das espécies. Primeiro porque ajuda, com palavras, a amenizar uma realidade indigesta; segundo, porque fatalmente levará o interlocutor a ganhar tempo, sem ser punido por alguma bobagem feita (e não pronunciada). No atacado, todos saem convencidos de que o mau negócio, na verdade, é bom.

Assim, pega bem se o tesoureiro da campanha chama “caixa 2” de “recursos não contabilizados”, quando o ministro da Fazenda fala sobre “viés de desaceleração” ou “consolidação fiscal” ou mesmo quando o treinador diz que o lateral foi dispensado do clube por insuficiência técnica. O caos assim é renomeado sem que pipoquem caretas diante de palavras que definam a verdade como ela é: o partido roubou, a crise é feia, o corte de gastos vai atingir até os copos descartáveis e o lateral é grosso até quando corre.

No campo afetivo ou familiar, o eufemismo é uma espécie de fundo garantidor da espécie (com o perdão do eufemismo). “Não é você, sou eu”; “Ficamos juntos, mas não quero compromisso”; “Precisamos conhecer outras pessoas”; “Seu filho é muito simpático!”. Se essas mesmas expressões fossem jogadas no Google Tradutor de Eufemismos (quando ele for criado), a verdade teria potencial explosivo: “É você, sou eu e são todas as outras pessoas”; “Ficamos juntos, até eu conseguir algo melhor”; “Já conheci e já estamos saindo juntos” ***; “Seu filho tem cara de joelho”.

No mundo corporativo, o apelo ao eufemismo faz a coisa desandar. Vai ver é por isso que tantos cineastas caíram na tentação e resolveram filmar as estripulias eufemísticas dos departamentos da “firma” ou repartições públicas. É como bater em bêbado, mas sempre funciona – a exemplo de “O Grande Chefe”, “Amor Sem Escalas” e a “Era da Inocência”, para ficar em casos mais recentes. A eles se junta o filme de estreia do diretor chileno Cristián Jiménez, “Ilusões Óticas”, em cartaz há uma semana em São Paulo.

O filme se passa em Valdivia, cidade ao Sul do Chile onde uma empresa capenga de seguros de saúde luta para não falir. Os serviços são precários e o índice de erros médicos, alto; mesmo assim, é preciso convencer os clientes e os próprios funcionários de que tudo corre bem. Numa das cenas iniciais, o gerente de marketing da empresa é questionado por um funcionário sobre a necessidade de se promover uma festa para regalo dos empregados (perdão: “colaboradores”).

O gerente explica que aquelas pessoas precisam trabalhar satisfeitas no dia seguinte. O funcionário retruca, perguntando como é que meras latas de pêssego em caldas distribuídas como brinde ao fim da festa fariam as pessoas trabalhar melhor. E sugere que a empresa faça o mesmo para o cliente que teve operada a costela errada numa cirurgia do plano. O gerente fica sem resposta, mas veste o seu melhor sorriso para anunciar um novo pacote de bondades para os “colaboradores”: a partir daquele dia, todos eles teriam direito a 50% de desconto nas cirurgias plásticas feitas pelo plano de saúde.

Dias depois, parte dos presenteados recebe a notícia de que será demitida. Obviamente, não com esses termos: a expressão, proibida, é cinicamente trocada por “Outplacement”. Com a palavra, o Wikipédia: “Outplacement é uma solução profissional, elaborada com o objetivo de conduzir com dignidade e respeito os processos de demissão nas companhias”. Não se sabe se o redator do verbete inspirou os personagens do longa ou vice-versa. Fato é que tanto um como o outro não parece suficientemente disposto a contar à vítima o que realmente vai acontecer: desemprego, ausência de benefícios, exploração, descaso, inadimplência. No filme, como no verbete da enciclopédia livre, essas expressões são abolidas. Transformam-se em discursos sobre desafios, oportunidades, resgate da estima.

Como na vida, os donos da empresa passam o filme tentando tapar fraturas expostas com esparadrapos: antes de jogar o empregado para a rua, tentam aliviar o estresse da vítima alvejada com palestras motivacionais, massagens e acompanhamento psicológico.

As demissões acontecem em meio à busca de uma nova campanha publicitária para a empresa. É quando o gerente descobre que um cliente, chamado Juan (Iván Álvarez de Araya) havia passado por uma cirurgia nas córneas e, milagrosamente, conseguiu voltar a enxergar. O drama, e a cura, defende o gerente (em outros termos, claro), devem ser explorados (e filmados) até a última gota de sangue. Só assim será possível retomar a credibilidade da combalida empresa.

A visão do personagem é borrada e limitada, mas não o impede de identificar as luzes. É a alegoria criada por Jiménez para dizer que nem tudo é o que se vê (ou se ouve ou se lê). Em uma tentativa de seduzir o herói da campanha publicitária, o gerente convida Juan a jantar em sua casa. Na mesa da cozinha, o ex-cego testemunha o filho de 11 anos do gerente se despedir do pai com um beijo de boa noite e confidencia ter ficado impressionado com a bela família do gerente. A visão periférica do ex-cego e do próprio pai impede que eles captem a cena seguinte, quando a criança se aproveita da desatenção do pai e corre para a sala ao lado para ser acariciado pela empregada da casa, numa cena (só observável pela lente da câmera e, portanto, pelo espectador) que sugere uma relação de pedofilia às barbas do pai. Da mesma forma, só o espectador saberá das incursões da esposa do gerente, uma cleptomaníaca rica que só pensava em divórcio, pelos quartos da casa com os visitantes que a procuram na ausência do marido.

Ao mesmo tempo, quanto mais enxerga, mais Juan percebe o quanto aquele mundo parece disforme. Ou, como revela aos amigos cegos que tentam saber como é o mundo das luzes: “É horroroso”, diz Juan, sem meias palavras.

Desde que voltou a enxergar, sua única diversão é observar a cidade a partir das janelas do shopping center da cidade – um local onde os funcionários alimentam a certeza de que, a partir de câmeras de monitoramento, conseguem saber tudo o que acontece na vida dos frequentadores. A capacidade de enxergar o que outros não enxergam é o que dá a eles o suposto monopólio da informação, ora usada para constranger, ora extorquir.

Em vez de eufemismos, o diretor estreante apela para as alegorias para falar sobre o cinismo que permeia uma realidade bruta, encoberta por meio da linguagem e da visão. Isso num tempo em que a explosão de reality shows levam espectadores a alimentarem certezas de que, por meio das câmeras onipresentes, podem conhecer a vida de perto, como ela é.

É exatamente ali que mora o perigo, como parece sugerir o diretor: as imagens, como a linguagem, são sempre sujeitas a truques (as tais ilusões óticas). A evolução, afinal, não caminha em direção ao entendimento, mas sim à tapeação, ao cinismo, ao obscurantismo e às medidas paliativas para ofuscar realidades azedas. As ações de marketing e os eufemismos são assim mais eficientes que qualquer queima de livro promovida por qualquer regime autoritário: “o mundo pode se explodir, desde que estejamos bem conosco”. Parece tentador. E, se ainda assim o mundo se mostrar assustador (ou "não agradável"), ainda é possível recorrer às cirurgias plásticas e às latas de pêssego em calda.

***Piada copiada descaradamente do personagem Chandler, da série Friends