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Deixa o menino brincar!

por Rosane Pavam publicado 13/03/2008 16h46, última modificação 16/09/2010 16h47
A primeira vez que o vi na internet, vestido sobriamente, de olho na câmera como quem desejasse fixá-la no ponto onde a luz anunciava a gravação, não estranhei que se tratasse de um menino de oito anos recém-aprovado em um vestibular de universidade particular brasileira. Meninos especiais de oito anos existiram em todos os cantos e lugares, de Mozart a Orson Welles àquele bluesman do youtube que toca como a encorajar Eric Clapton a ser mais do que já foi.

A primeira vez que o vi na internet, vestido sobriamente, de olho na câmera como quem desejasse fixá-la no ponto onde a luz anunciava a gravação, não estranhei que se tratasse de um menino de oito anos recém-aprovado em um vestibular de universidade particular brasileira. Meninos especiais de oito anos existiram em todos os cantos e lugares, de Mozart a Orson Welles àquele bluesman do youtube que toca como a encorajar Eric Clapton a ser mais do que já foi. Então, por que se agitavam tanto, todas as pessoas, até nos ônibus do Butantã, ao comentar a história de João Victor Portellinha de Oliveira, aprovado no curso de Direito da Unip de Goiânia e impedido de cursá-lo?

As pessoas são diferentes, nos ônibus e nos jornais. Observei que a reação dos que usam bilhete único e dos fazedores de legitimidades dentro da mídia eram de naturezas distintas. Jornalistas e advogados contestavam tão-somente uma infâmia detectada no episódio - a de que a faculdade possivelmente caça-níqueis permitira a aprovação de um menino (portanto, de qualquer um) em um exame que a princípio deveria ser exigente e selecionador. A reação de tais pensadores diferia daquela das pessoas comuns nos ônibus, estas desencantadas apenas com a infância que João haveria de perder, tão logo se enfurnasse entre adultos de cenho franzido. “Deixa o menino brincar!”, bradou um pai que mostrava pela janelinha, ao filho de idênticos oito anos, o ponto onde ele deveria pegar o ônibus no largo da Batata, dali a uma semana.

Fiquei com os populares, ainda que (ou porque) deixassem seus filhos tão pequenos desde logo se virarem na confusão do tráfego paulistano. E fiquei com eles não por desconsiderar o fato de que a universidade anda na ladeira do descalabro. A história dos acontecimentos educacionais brasileiros não deixa dúvidas quanto à solidez, por assim dizer, deste momento sombrio.

A universidade particular nasceu da derrota de um projeto educacional igualitário anterior ao Estado Novo. A educação em terceiro nível não coube por inteiro na cabeça de Getúlio Vargas, interessado, naquele momento, em que mais técnicos fossem feitos na escola secundária. Para muitos brasileiros, apenas saber colocar uma torneira na pia, e ainda ganhar por isto, seria uma chance de ascensão nos anos 30. Getúlio, então, transformou brasileiros em encanadores, pelo que muitos lhe são gratos até hoje, mas se calou sobre um projeto que daria aos pobres a condição de se tornarem os donos das fábricas de canos.

Na cabeça de educadores da Escola Nova formados no pragmatismo americano da época, como Anísio Teixeira ou Fernando Azevedo, a educação deveria ser universal e laica, e inicialmente Getúlio pareceu concordar com eles neste e em outros pontos. Mas os educadores católicos divergiram, porque gostariam de crescer sob uma atmosfera religiosa, que lhes desse liberdade de empreendimento, além de lhes assegurar a expansão sobre as mentes potencialmente católicas. Getúlio trabalhou com suas habilidades: expulsou os educadores escola-novistas do comando das diretrizes educacionais e não cedeu poder a Deus. Contudo, permitiu que a religiosidade entrasse de algum modo nas escolas, junto às formações militaristas juvenis, apoiadas sem disfarce no fascismo que começava a surgir e a interessar o governante.

Foi o político Carlos Lacerda quem garantiu posteriormente o amplo direito da universidade particular de existir em sua base religiosa, sem os ditames laicos universais garantidos pela escola pública. E a instituição particular cresceu. Nos anos 60, as universidades católicas ganharam feições de resistência democrática. Foram boas escolas, em sua maioria, mas no seu rastro fixaram-se empreendimentos desprovidos de pretensão unicamente educativa. As universidades particulares não são ruins à toa: elas foram incentivadas a isto pela ausência de um comando educacional central que as vigiasse.

Em que isto se relaciona ao menino João Victor? Aos oito anos, aos dezoito ou aos cem, ele não teria, neste momento, como procurar coesão no ensino universitário nacional. A educação gratuita até a universidade não está assegurada a ninguém. Se o aluno conseguir provar que é pobre, terá direito a uma bolsa concedida pelo Estado - e então a universidade particular, boa ou ruim, sairá ganhando outra vez, já que o Estado assegurará a mensalidade dos bolsistas.

Fico com a posição dos populares neste episódio porque ela observa algo para além da elitização empobrecedora de nosso sistema de ensino. O que ela aponta é que um menino de oito anos se tornou rapidamente o pai do homem. E que o pai do homem nada vem sendo além de um menino. À moda das tiras de Laerte Coutinho nas quais moleques em seus empregos vigiam as traquinagens dos pais velhos diante da televisão, nós estamos encurralando as crianças à vida adulta enquanto nos reservamos o direito da eterna infância.

Deixa o menino brincar!

Os pais de João Victor querem que ele curse o que parece merecer, já que notadamente é mais inteligente do que os outros meninos de oito anos que a família conhece, todos incapazes de cursar a quinta série, como ele faz. Os pais devem estar certos se falam tão-somente em sua capacidade intelectual. Muitos meninos sabem mais do que os adultos. Mas por quanto tempo continuarão sabendo?

Em minha opinião modesta, o que asseguraria a João a felicidade, que resumidamente é o que desejam os pais aos filhos, mais até que uma prodigiosa carreira, seria o exercício de um direito negado à quase totalidade das crianças das cidades brasileiras. O direito de brincar na rua.

E por que as crianças não brincam mais no espaço comum? Porque o espaço comum deixou de existir. Toda a idéia de um bem público, que já fora roubada do ensino universitário, vê-se surrupiada da vida cotidiana dos jovens urbanos. Não há um lugar garantido e seguro onde um menino possa exercitar sua humanidade ao redor de casa. A garantia de relacionamentos, se assim podemos chamá-los, está condicionada ao interruptor dos brinquedos. O pensador americano Russell Jacoby expressa esta função dos videogames no excelente ensaio “Imagem Imperfeita – Pensamento Utópico para uma Época Antiutópica”, lançado no ano passado pela editora Civilização Brasileira.

Brincar na rua se tornou a nova utopia porque ela não exige, para seu exercício, que paguemos posteriormente a conta de luz. Esta seria a boa causa que o menino poderia começar a defender, longe dos bancos da lei. Que tal o pequeno advogado das utopias exigir a rua para si? Lá ele se defenderia gratuitamente das adversidades cotidianas e aprenderia a reivindicar o direito de jogar bola mesmo sem ser o dono dela.

É argumentando com o insosso, o estúpido e o medíocre possesso das quadrinhas que aprendemos a driblá-los na pessoa do gerente do banco que nos assomará nas baias refrigeradas da vida adulta. Ensinar a gerir a própria vida é o melhor da educação, mas a educação, aquela que realmente forma e não apenas escolariza, está em falta, banida e ridicularizada por toda a gente, até mesmo pelos pais que, com boa intenção, desejam aos filhos uma carreira como advogados precoces.