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De volta ao espaço, com o Capitão Barbosa

Space Opera mostra que ainda há interesse pelas tramas de ficção científica que trazem aventuras com naves interplanetárias e batalhas espaciais com invasores alienígenas
por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 28/06/2011 07:44, última modificação 28/06/2011 07:45
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Coletânia

Space Opera - Odisseias Fantásticas Além da Fronteira Final

Contos e romances de fantasia, história alternativa, ficção científica cyberpunk e retrofuturismo steampunk constituíram a maioria dos lançamentos de ficção especulativa brasileira dos últimos dois anos. Mas a coletânea Space Opera (Draco, 272 págs., R$ 49,90) mostra que continua a haver interesse pelo tipo de temática e ambientação que a maioria das pessoas tem em mente quando pensa em ficção científica – a saber, aventuras com naves interplanetárias e batalhas espaciais com invasores alienígenas.

A expressão “Space Opera” teve originalmente caráter pejorativo. Por analogia com “soap operas” (radionovelas, na época patrocinadas principalmente por fabricantes de sabão em pó) e “horse operas” (filmes de faroester igualmente melodramáticos e feitos em série), o fã e crítico de ficção científica (e mais tarde também autor) Wilson Tucker inventou a expressão em 1941 para caracterizar “presepadas com espaçonaves, gastas, fedorentas, cansativas e picaretas”, ou seja, contos inverossímeis e sobrecarregados de clichês, frequentemente meras transposições para cenários espaciais de histórias convencionais de guerra, caubóis e cavaleiros andantes, sem nada aproveitar das possibilidades especulativas da ficção científica propriamente dita.

A partir dos anos 1970 houve, porém, uma revalorização da expressão. Brian Aldiss, um autor conceituado na ficção científica (mais conhecido dos não-aficcionados pelo conto “Superbrinquedos duram o verão todo”, que inspirou o filme A.I. - Inteligência Artificial, de Steven Spielberg) organizou em 1974 a antologia “Space Opera” para reabilitar “as boas e velhas” aventuras espaciais e em 1977, o sucesso do primeiro filme da série Star Wars criou um novo paradigma e abriu caminho para uma redefinição da expressão.

“Space Opera” passou a ser entendido como histórias de ficção científica no espaço ou em outros mundos de escala grandiosa – colocando em jogo o destino de toda a humanidade, se não de toda uma galáxia – e de tom otimista, focadas em tramas de ação e combate, com personagens centrais heroicos e simpáticos.  E que, na maioria das vezes, transpõem para um cenário espacial e futurista tramas e clichês típicos de outros gêneros de aventura. O primeiro filme da série Star Wars, por exemplo, tem grande parte do seu roteiro calcado em A Fortaleza Escondida (Kakushi toride no san akunin, 1958) de Akira Kurosawa, um drama histórico na era dos samurais. E a série original de Star Trek devia muito a histórias de espionagem da Guerra Fria, com klingons no lugar de soviéticos e romulanos fazendo as vezes dos chineses, disputando influência sobre civilizações menores e exóticas como “terceiro mundo”.

Embora se fale de outros precursores no início do século XX e até no século XIX, o “padroeiro” do subgênero assim redefinido é E. E. "Doc" Smith, com as séries Skylark (publicada de 1928 a 1930) e Lensman (de 1934 a 1948). A primeira transpôs uma trama típica de romances policiais para um cenário espacial e futurista a partir da invenção de uma nave espacial. A segunda, embora siga a mesma fórmula, redimensionou seu cenário para dimensões cósmicas. Abre dois bilhões de anos antes de nosso tempo, com o surgimento das duas primeiras espécies inteligentes do Universo, os arquimocinhos e os arquibandidos que desde então travam uma guerra intergaláctica para a qual os humanos são recrutados. Como depois se tornou rotina no subgênero, imensas frotas de espaçonaves enormes viajam mais rápido que a luz, atacam com raios de energia e se defendem com campos de força e os heróis da trama são humanos de características excepcionais (neste caso, selecionados por manipulação eugenista pelos alienígenas “bons”), aos quais são conferidos poderes psíquicos sobre-humanos.

Mas o mais característico desse tipo de trama é justamente que maravilhas tecnológicas, científicas ou mesmo místicas (como a “Força” de Star Wars) são introduzidas como rotineiras, sem a preocupação de justificá-las como possíveis ou explicá-las, ao contrário da ficção científica mais ortodoxa, na qual a especulação científica e o processo de descoberta e invenção são parte explícita e importante da trama. Dirige-se a um leitor ou espectador que sonha com modernidade e tecnologia, mas não quer um desafio intelectual e sim uma história movimentada e fácil de entender e está disposto a aceitar o maravilhoso desde que seja “fascinante”, como diria um dos heróis mais populares da “space opera” televisiva, até porque talvez tenha desistido de entender a tecnologia real que usa no dia-a-dia.

Frequentemente a space opera se torna fantasia com roupagem futurista, com o risco de ter seu apelo como entretenimento prejudicado pelo equívoco de “traduzir” histórias de detetives, piratas, espiões, cavaleiros e samurais ao pé da letra, sem levar em conta a “gramática” e a “semântica” específicas da ficção científica. Ou seja, de ignorar as adaptações que seriam indispensáveis ao se transpor essas tramas para um cenário futurista consistente, com sociedade, economia e tecnologia avançadas ou alienígenas. O resultado pode ficar tão esquisito quanto uma tradução automática pelo Google ou Babelfish.

A nova coletânea quer, e em boa parte consegue, reabilitar o interesse pela vertente aventuresca da ficção científica, mas não deixa de, vez por outra, escorregar nessa dificuldade.

Não é o caso do conto “Pendão da Esperança” do médico mineiro Flávio Medeiros, que fecha a coletânea, mas se destaca pelas ideias originais e engenhosas a ponto de merecer ser abordado em primeiro lugar. O cenário é um futuro no qual a humanidade acaba de fazer sua primeira viagem interestelar, mas a Terra continua dividida em nações que, como o Brasil e os Estados Unidos da América, possuem frotas de naves espaciais militares. Surge então uma gigantesca nave alienígena que, obviamente capaz de destruir a Terra, repete uma mensagem incompreensível e cobra resposta.

Os fãs de Star Trek reconhecerão parte da premissa de dois filmes da série: o primeiro Jornada nas Estrelas, de 1979 e Jornada nas Estrelas IV: A Volta Para Casa, de 1986. Como em quase todos os episódios da tevê, o conto começa com a cena de maior perigo, com a nave sacudida por um ataque e sirenes de alarmes soando, para depois explicar o caso desde o começo. O ambiente da nave brasileira Estrada Real lembra as Enterprises (apesar de faltar a famosa “dobra espacial”) e a trama parte de um motivo recorrente nessa série: um problema que, grande demais para ser resolvido pela força bruta, exige uma solução inteligente de um quebra-cabeças. Mas o invasor alienígena é mais impressionante do que qualquer coisa que Hollywood tenha imaginado, os personagens principais são originais e bem concebidos e o desfecho é criativo e surpreendente.

Para não se estragar as surpresas bem armadas, diga-se só que os estadunidenses – que tinham acabado de realizar o primeiro voo interestelar – são os primeiros a abordar os alienígenas, mas seu capitão Stephen Ferguson dá aos alienígenas uma resposta que não os agrada e sua nave Mayflower é instantaneamente reduzida a uma bola de metal derretido. Chega então a vez do brasileiro (e negro) capitão Gideão Barbosa, que após trocar ideias com seus dois cientistas – a xenopsicóloga argentina Clarice Cimarron e o físico brasileiro Augusto Pessini – toma sua decisão. Digamos apenas que a solução envolve o “pendão da esperança” do título, mas de maneira tão engenhosa que consegue não soar ingênua ou ufanista.

O nome do capitão merece uma explicação à parte. Em um artigo publicado em um fanzine de fins dos anos 1980, o escritor de ficção científica Bráulio Tavares  escreveu que o público brasileiro rejeitaria como inverossímil uma história de ficção científica na qual um “Capitão Barbosa” comandasse uma nave como a Enterprise. O fantasma da “síndrome do Capitão Barbosa” assombrou os debates sobre ficção científica brasileira por uns vinte anos, mas Flávio Medeiros o exorcizou de vez, e de maneira memorável.

Não chega a ser um conto perfeito, por conta de uns poucos deslizes que aqui e ali arranham o encanto da trama. Quando o físico explica que a nave alienígena navega pelo subespaço, o capitão responde que isso é apenas uma “possibilidade teórica”, para então se lembrar que uma nave anglo-saxônica, pouco antes, chegara ao sistema Vega. É um pretexto para explicar o que é “subespaço” nesse universo ficcional, mas soa como se um cosmonauta de 1970 se esquecesse da façanha da Apolo 11 e dissesse que viajar à Lua seria apenas uma “possibilidade teórica”. Pouco depois, a explicação que a xenopsicóloga dá de sua ciência – um discurso curto, mas importante para a trama – é confuso e pouco convincente, além do portunhol da personagem soar a maior parte do tempo mais como uma brasileira tentando falar castelhano do que como uma argentina tentando se expressar em português.

De resto, porém, é uma história bem construída, que não se perde em desvios desnecessários e explicações fora de hora e usa a linguagem acertada para o tema e as situações: viva, natural, sem afetações pseudocultas nem exageros pseudotecnológicos. Não é o único conto bom, mas é o mais marcante.

O primeiro conto da coletânea, “No Amor e na Guerra”, do físico carioca Gerson Lodi-Ribeiro, é correto, não tropeça em inconsistências e segue com rigor a receita tradicional da space opera, mas lhe faltou um achado que o tornasse igualmente digno de ser lembrado. O protagonista se chama Derek Medeiros Morgan – um meio-termo em relação à tal síndrome? – e é o almirante de toda uma frota que tenta desesperadamente defender a Terra e a humanidade de uma arrasadora invasão alienígena. A princípio, parece ser uma luta sem esperanças, mas no último momento surge uma arma secreta capaz de equilibrá-la, embora o suspense se mantenha até quase o final. A arma foi criada pela equipe da ex-esposa do próprio almirante, que ele julgara morta, mas tinha estado desenvolvendo sua pesquisa em um laboratório secreto. O toque de originalidade está na relação do casal e em seu desfecho, mas é uma trama secundária que não chega a ser tão interessante quanto poderia ser. O principal, que é a batalha com os alienígenas e suas consequências, é descrito de maneira clara e convincente, mas sem surpresas: é uma história bem contada de bravura, força bruta e competência militar, nada mais, nada menos.

O segundo conto, “A Esfera Dourada”, do jornalista fluminense Clinton Davisson, é um caso de “tradução” não muito bem-acabada de um tema de fantasia. O protagonista, como seus colegas de tripulação, é um humano modificado de um futuro muitíssimo distante (mas mesmo assim se chama, pouco criativamente, “Capitão Taylor”) e veste uma armadura que o torna imortal e indestrutível. A história começa com grandiosas batalhas espaciais, envolvendo naves do tamanho de planetas, a ponto de que a menor delas tem no seu interior florestas nas quais é possível se perder. Mas então o comandante localiza uma pequena nave na qual há uma “bela adormecida” – uma exploradora humana de um passado distante. Ela é despertada (e, em certo sentido, o desperta) e lhe revela o segredo de um artefato escondido numa lua obscura que lhe dará o poder sobre seu universo, a “Hegemonia” – e que é, adivinhem só, uma espada! Daí em diante, a história segue um esquema previsível de aventureiros em busca de um tesouro numa masmorra, típica de videogames e RPGs de fantasia medieval e que não está à altura da grandiosidade e do avanço tecnológico das primeiras cenas. O resultado é um híbrido artificial e desconjuntado. Em latim, se diz “Desinit in piscem mulier formosa superne”, ou seja, "A mulher formosa termina numa cauda de peixe."

O terceiro conto, “Mádrax”, da jornalista carioca Maria Helena Bandeira, é uma tradução literal e propositalmente ruim do MacBeth. É a história de William Shakespeare transposta quase ao pé da letra para o futuro, pontuada pelo ocasional merchandising de “Scotch” e “Refri-cola”. O rei da Escócia é substituído pelo “governo do sistema Terralua” e as bruxas são projeções holográficas, mas de resto não se tomou nem o cuidado de criar um cenário consistentemente futurista: circulam condes e barões e as cenas decisivas continuam a ser num castelo cercado por um bosque. A própria autora, no final, ressalta a inadequação: “Era a nossa época que não permitia a perfeita tradução dos sentimentos humanos.” O objetivo, ao que tudo indica, é caricaturar a própria space opera enquanto gênero (além de aproveitar a oportunidade de citar a grandiosa prosa de Shakespeare), mas interpreta mal suas possibilidades se julga que ela é, necessariamente, apenas isso.

“Tempo instável”, do veterano jornalista e escritor fluminense José Luiz Calife, é uma aventura espacial de tipo hollywoodiano, cheia de explosões e perseguições, cujo protagonista é o comandante de uma nave cargueira que se descobre usado por uma conspiração terrorista. Claro que há uma mocinha para salvar e ela é outra “bela adormecida”. Apesar de acabar de maneira um tanto brusca, como se o autor tivesse calculado mal o espaço disponível, a história é bem armada e daria uma vistosa superprodução. As descrições são exatas e verossímeis e o conto traz informações e reflexões interessantes: nesse futuro indefinido, o aquecimento global tornou o clima da Terra um caos, mas ao mesmo tempo a Lua está sendo “terraformada” por um projeto de engenharia que está lhe conferindo água e atmosfera: uma humanidade que não consegue preservar seu mundo, mas tenta criar outros.

“Temos que cumprir a quota”, de Letícia Velásquez, é um conto num futuro distópico, no qual a humanidade foi derrotada por conquistadores alienígenas e é obrigada a entregar, anualmente, uma quota de escravos humanos. Os protagonistas são os agentes encarregados de capturar os indivíduos destinados aos senhores de Sírius. A proposta é interessante, mas a situação não foi tão bem explorada quanto poderia ser e a história acaba com uma reviravolta mal encenada, fria e forçada.

“Seu momento de glória”, do profissional de informática paulista Marcelo Jacinto Ribeiro, talvez seja o segundo conto mais memorável da antologia. Em outro futuro distópico, a espécie humana está reduzida à miséria e a biosfera da Terra praticamente destruída pelo esforço de sustentar escudos de força que supostamente protegeriam o planeta de alienígenas que tentam devorar os seres humanos, mas afinal parece ser inútil. Os alienígenas usam uma arma paralisante e a esperança de sobrevivência reside em um piloto que, tornado tetraplégico pelo primeiro ataque, não tem mais nada a temer ou a perder. A história se destaca pelas emoções intensas e desfecho dramático, mas erra a mão ao exagerar nos tons sombrios a ponto de criar situações inverossímeis: recursos imensos desperdiçados para manter permanentemente um escudo inútil, pessoas pedalando estupidamente para complementar a energia gerada por centrais nucleares e alienígenas que atravessam anos-luz e armam uma complicada e dispendiosa invasão apenas para fazer um lanchinho.

“Logan Marshall”, da gerente de sistemas paulista Larissa Caruso, uma dos dois organizadores da antologia, usa um cenário de ficção científica humorística que lembra a série de cinema “MIB - Homens de Preto” de Barry Sonenfeld. A premissa é que, com o conhecimento e colaboração dos governos da Terra (que são recompensados com novas tecnologias), há alienígenas secretamente vivendo entre nós com a missão de orientar o desenvolvimento da humanidade até que a Terra esteja em condições de integrar a comunidade galáctica. Mas eles não são cientistas nem idealistas humanitários: este é um planeta tão miserável e atrasado que só criminosos aceitam trabalhar aqui, em troca da redução de suas penas. Às vezes alguns deles saem do controle e, quando vários corpos humanos surgem decapitados, cabe ao protagonista que dá seu nome à história, um inescrupuloso ex-presidiário alienígena transformado em detetive com escritório em Austin, Texas, esclarecer os crimes, junto com uma policial do FBI. Mais uma vez, antropofagia alienígena vem à baila, mas neste cenário irônico, ela não está tão fora de lugar. Destaca-se pelo uso criativo dos clichês da série “Arquivo X” e do romance policial noir ou hardboiled.

“Ganimedes”, do publicitário paulista Hugo Vera, é uma história de espionagem e guerra fria “traduzida” para a space opera. O Sistema Solar está dividido em duas potências rivais, a “União” com sede na Terra e os “Confederados” liderados por Marte. Nesse contexto, a água tem mais ou menos o papel do petróleo em nosso tempo e Ganimedes, uma das luas de Júpiter, é uma base comandada por um capitão Rafael Oliveira, onde os Confederados se abastecem do precioso líquido para levar a seus mundos mais áridos. Entretanto, um grupo de “terroristas” disfarçados, apoiados pela União executa um plano para sabotar e destruir sua operação. O clima de suspense se mantém bem até o fim da história e as soluções são razoavelmente verossímeis e inteligentes, apesar da premissa da história se basear num equívoco. A água em estado líquido de fato é rara no Sistema Solar, mas o gelo é abundante em todo o Sistema Solar exterior, e derretê-lo consome uma quantidade de energia insignificante em comparação com a necessária para transportá-la de um mundo a outro.

No conjunto é uma antologia bem equilibrada, com alguns momentos brilhantes, cujo único conto realmente ruim, o é de maneira confessada e proposital.

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