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De uma ópera pouco conhecida

por Alexandre Freitas — publicado 23/10/2009 15h59, última modificação 20/09/2010 16h00
Não é tão ruim estar próximo ao teto, na Ópera Garnier de Paris. O som chega bem e em bom volume. Além do mais, eu estava perto da cúpula pintada por Chagall, mais especificamente de frente para a representação do Pássaro de Fogo, rodeado pela Flauta Mágica e pelo Lago dos Cisnes. Parece que a idéia foi de André Malraux, ministro da cultura da França nos anos 60

Não é tão ruim estar próximo ao teto, na Ópera Garnier de Paris. O som chega bem e em bom volume. Além do mais, eu estava perto da cúpula pintada por Chagall, mais especificamente de frente para a representação do Pássaro de Fogo, rodeado pela Flauta Mágica e pelo Lago dos Cisnes. Parece que a idéia foi de André Malraux, ministro da cultura da França nos anos 60. Anacrônica, mas em sintonia com o estilo eclético da época em que foi construído o teatro. Lá de cima, via cada detalhe que os da platéia só podiam imaginar – ou  lembrar do tempo em que não podiam pagar 170 euros por um lugar. No meu bilhete estava escrito “visibilidade reduzida” (não da obra do Chagall, evidentemente), mas, felizmente, ocupei o lugar de uma velhinha que sentiu vertigens e foi levada, com uma cordialidade suspeita, para uma frisa no andar de baixo. Ao menos, enxergava todo o palco.

O espetáculo da noite era Mireille, de Charles Gounod, baseado no romance Mirèio, do escritor Frederic Mistral, prêmio Nobel de 1904. No papel principal, Inva Mula, uma bela soprano albanesa com lindos pianíssimos nos agudos (ela fez 18 vezes, contei) e um rosto digno de Mireille, heroína romântica que leva as últimas consequências os ideais de fidelidade e abnegação. Mesmo tendo assistido a inúmeras óperas, ainda hoje luto contra a tendência de querer ver teatro onde existem, em primeiro lugar, cantores.

Ivana representava bem (como cantora lírica, ressalto). Sua interpretação musical era, às vezes, meio repetitiva, mas coerente com os gestos e a música, com muitas recorrências formais, típicas de Gounod. No principal papel masculino estava Charles Castronovo, jovem tenor americano, filho de pai italiano e mãe equatoriana e que já se consolida no cenário da ópera européia. Interessante pensar que na ópera, ao contrário do teatro ou do cinema, os diferentes sotaques e origens são completamente sobrepostos pelo gênero artístico. Afinal de contas, no bel canto dificilmente compreendemos as palavras e a emissão parece sempre vir à frente da articulação.

Quando vamos a uma ópera que não conhecemos bem somos, de certa forma, obrigados a forjar referências rapidamente. Nessa noite de Mireille, por exemplo, alguns trechos musicais me remeteram a O Amanhecer de Grieg, a um solo orquestral de Carmen e até a Manhã de Carnaval, numa versão mais alegre. Plágios de Gounod? Claro que não, todas as obras vieram depois. Seria então dos outros? Besteira, o discurso musical, como qualquer outro, nunca é completamente inédito.

De qualquer forma, Gounod é generoso e nos dá muitas dicas das melodias que virão, do teor trágico da obra. O drama se desenrola sem nos enrolar ou cansar, mesmo para quem está fabricando suas referências ali, na hora mesmo. O segredo de uma boa apreensão musical, acredito, está na habilidade de conhecer e reconhecer aqueles “personagens melódicos” (como diria Stravinsky) que vão aparecendo. No caso de Mireille, eram as associações com outras músicas que me afastavam daquela mistura de deslumbramento e cansaço que pode acontecer face a uma obra musical de três horas de duração. É a memória que nos permite perceber o que é repetição, o que é variação e o que é novo em cada grande obra, ou mesmo, em cada pequeno trecho musical. Ela fixa e acaba por gerar um diálogo entre o que se passou, o que está se passando e as expectativas, que se frustram ou não no desenrolar da música.

Este pequeno texto inaugura Visões Musicais nas páginas virtuais de CartaCapital. Impressões e reflexões de um músico brasileiro em Paris.