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De uma dança que não vale uma cabeça

por Alexandre Freitas — publicado 27/11/2009 15h54, última modificação 20/09/2010 15h55
Ah! Eu beijei sua boca, Iokanaan, eu beijei sua boca. Havia um gosto amargo em seus lábios. Seria gosto de sangue? ... Talvez seja esse o gosto do amor. Dizem que o amor tem um gosto amargo. ... Mas, que importa? Que importa? Eu beijei sua boca, Iokanaan, eu beijei sua boca¹

Ah! Eu beijei sua boca, Iokanaan, eu beijei sua boca. Havia um gosto amargo em seus lábios. Seria gosto de sangue? ... Talvez seja esse o gosto do amor. Dizem que o amor tem um gosto amargo. ... Mas, que importa? Que importa? Eu beijei sua boca, Iokanaan, eu beijei sua boca¹

São as palavras finais de Salomé, na ópera de Richard Strauss. Ela diz isso olhando fixamente para a cabeça do último dos profetas judeus, sobre uma bandeja de prata. Iokanaan, vulgo São João Batista. O texto foi escrito por Oscar Wilde, baseado nos evangelhos segundo São Marcos e São Mateus. Escrito em francês, especialmente para a célebre atriz Sarah Bernhardt. Resumindo: Herodes, fascinado pela beleza da enteada, pede que ela dance e, em troca, um pedido lhe será concedido. Seu padrasto sugere: metade do seu reino, a maior esmeralda do mundo, uma centena de pavões, etc... Ela pede a cabeça do santo homem. Sua escolha é legitimada perante o reino pelas ofensas proferidas pelo profeta contra sua mãe, Herodíade. Chamou-a prostituta, devassa e outras coisas mais.

Mas a verdade, todos sabemos, é que Salomé é movida pela vingança de uma mulher rejeitada. Lá esta sua força. E não foi uma rejeição qualquer. No texto de Wilde são dezenas de “Deixe-me beijar sua boca” respondidos por “Para trás! Filha de Sodoma! Filha de adúltera!” São João Batista poderia ter sido um pouco mais amável, dado um beijo e evitado esse desfecho. Mas aí ela deixaria de virar o ícone da mulher fatal. Seria uma pena.

Fico imaginando Sarah Bernhardt na dança dos sete véus... A dança que vale a cabeça do profeta. E acabo por me frustrar em minhas frescas lembranças da cantora finlandesa Camilla Nylund, a Salomé da montagem da Opéra Bastille, em Paris. Começo, então, a refletir sobre as razões da minha frustração. Evidentemente, seus dotes de dança não convenceram. A performance não valia uma cabeça. Mas a cantora atuava e cantava bem, o que já não é nada mal. Estou certo de que o problema não estava em Camilla, mas em Lev Dodin, o diretor. Foi ele que não soube encontrar soluções cênicas que preservassem a soprano da complacência do público. Economizou mudanças de luz, cenário e figurino e a fez dançar durante os quase dez minutos de cena.

Ao assistir a uma gravação da mesma ópera em São Francisco, com Nadja Michael e dirigida por David McVicar, percebo o quanto a montagem da Bastille desperdiça a força do texto de Wilde e da música de Strauss. Confira: http://www.youtube.com/watch?v=UbMQh-fk0R0. Salomé é o romantismo em seus suspiros finais. Um argumento forte sustentado por uma orquestração densa e leitmotifs wagnerianos.

Mas, críticas a parte, o que me assusta mesmo quando penso em Salomé é a força da mulher rejeitada. Não foi à toa que ela inspirou Wilde, Mallarmé, Moreau, Flaubert e tantos outros.

E agora, Iokanaan, eu estou viva, mas você está morto e sua cabeça me pertence. Faço a ela o que eu quiser²

¹: "Ah! j'ai baisé ta bouche, Iokanaan, j'ai baisé ta bouche. Il y avait une âcre saveur sur tes lèvres. Était-ce la saveur du sang?...Mais, peut-étre est-ce la saveur de l'amour. On dit que l'amour a une âcre saveur...Mais, qu'importe? Qu'importe? J'ai baisé ta bouche, Iokanaan, j'ai baisé ta bouche"

²: "Eh bien, Iokanaan, moi je vis encore, mais toi tu es mort et ta tête m'appartient. Je puis en faire ce que je veux"