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De uma beldade russa

por Alexandre Freitas — publicado 10/11/2009 15h59, última modificação 20/09/2010 16h01
Fui conferir de perto aquela que eu já conhecia de gravações e das tantas entradas no Youtube, a soprano Anna Netrebko. Se alguém ainda pensa que as cantoras de ópera são senhoras com voz privilegiada, mas formas desgraciosas, apresento-lhe essa cantora. Representante das russas morenas, a bela Anna foi descoberta pelo maestro Valery Gergiev no teatro Mariinsky de São Petersburgo.

Fui conferir de perto aquela que eu já conhecia de gravações e das tantas entradas no Youtube, a soprano Anna Netrebko. Se alguém ainda pensa que as cantoras de ópera são senhoras com voz privilegiada, mas formas desgraciosas, apresento-lhe essa cantora. Representante das russas morenas, a bela Anna foi descoberta pelo maestro Valery Gergiev no teatro Mariinsky de São Petersburgo. Bons olhos e ouvidos desse regente. Foi ele quem a pinçou em meio ao grande coro do teatro e concedeu-a o papel de Susanna, das Bodas de Fígaro de Mozart em 1994. Um papel aqui outro recital ali até que, em 2002, ela se impõe no cenário lírico como Donna Anna de Don Giovanni no Festival de Salzburg. Mas as coisas não foram nada simples para ela. Sua estréia foi no mesmo palco do qual ela cuidava como funcionária da limpeza nos tempos das aulas de canto no conservatório. O tempo passou e ela continua dando um brilho no palco, com perdão pelo trocadilho.

Elisir d’amore de Donizzeti foi a primeira ópera que vi na vida, há uns bons dez anos. Era uma montagem de estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro com orçamento modesto, mas cheia de entusiasmo e vigor. Ontem, foi na Opéra Bastille que vi a mesma obra, com direito a um caminhão em cena, um trator desgovernado, as famosas Vespas italianas e até um cachorrinho que cruzava o palco de vez em quando. A obra foi composta em 1831 com o libreto de Felice Romani e o diretor dessa montagem, Laurent Pelly, optou por um cenário de província italiana dos anos 60 com ares fellinianos. Parece ser uma boa alternativa situar uma ópera em uma época que não é a dela, nem a atual, nem é futurista ou surrealista. Ousado ma non troppo é uma boa saída para agradar a um público e uma crítica que nem sempre estão querendo grandes surpresas nesse tipo de repertório.

Anna Netrebko está no papel de uma Andina valente, irônica e de uma arrogância meio desajeitada. Impecável. Essa ópera é mais uma daquelas que escondem paradoxos interessantes entre o humor do texto e uma grande dificuldade técnica. Tudo tem que parecer fácil e fluente. A música exige grande extensão vocal (agudos e graves) e coloraturas (vulgos cacarejos). Derrapadas podem ser comuns, como parece ter acontecido, de acordo com a crítica do jornal Libération, com a soprano Tatiana Lisnic, que dividiu o papel com Netrebko em outras récitas. Andina não precisa de grande densidade dramática e, talvez por isso, a beldade russa se encaixe bem no papel. Não que isso a desmereça, já que o talento para o humor pode ser tão raro como para o drama, dizem. Nos papéis ditos sérios, como Violeta da La Traviata ou Lucia de Lucia de Lammemoor, Anna parece ainda um pouco longe de uma Angela Gheorghiu ou Joan Sutherland, sem falar, obviamente, de Maria Callas. Um ou outro problema de afinação aparece em algumas gravações de Netrebko, mas nada que não seja compensado por sua bela presença. Música também pode ser para os olhos.

Ainda sobre o Elixir, é nessa ópera que encontramos a ária Una Furtiva Lagrima que os grandes tenores da historia já cantaram em algum momento. Sempre tenho dificuldade de enxergá-la no contexto da obra e não conheço uma só pessoa que não compartilhe desse estranhamento. Parece uma espécie de parênteses no todo e que, apesar da beleza da melodia, não carrega o ethos, o espírito da obra como um todo. E foi nessa parte que o tenor Giuseppe Filianoti derrapou feio na entrada da segunda parte da melodia. Todas as partes intricadas, os agudos e vocalizes, foram sempre muito bem feitas e quando chega a parte mais conhecida, ele engasga. Em uma nota fácil ainda por cima. Curioso como essas coisas acontecem e, acredito, todos os músicos já viveram situações similares. Mas naquele contexto não me desagradou tanto. Pode parecer até meio estranho, mas aquele pequeno incidente me livrou do incômodo que a ilusão de perfeição pode me causar. Acho que um errinho acaba humanizando a coisa.

Para terminar essas visões musicais, sugiro algumas entradas no Youtube para aqueles que queiram conhecer ou rever a soprano russa e algumas de suas facetas. Uma delas é do seu lado quase pop cantando uma ária de Russalka de Dvorak (http://www.youtube.com/watch?v=MwuNqcKUxto) e a outra é de uma apresentação em Moscou cantando uma ária de La Bohème de Puccini (http://www.youtube.com/watch?v=oV3F_yNSQwM). Centenas de outras entradas estão disponíveis na rede, inclusive uma gravação extra-oficial dessa montagem recente do Elixir na Bastille, com Paolo Gavanelli.