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Entrevista

De onde nunca deveria ter saído

por Redação Carta Capital — publicado 06/07/2011 11h40, última modificação 11/07/2011 18h17
O pianista Roberto Fonseca apresenta-se como herdeiro do grupo de músicos que reconduziu Cuba ao topo do cenário musical mundial
De onde nunca deveria ter saído

O pianista Roberto Fonseca apresenta-se como herdeiro do grupo de músicos que reconduziu Cuba ao topo do cenário musical mundial. Foto: Luiza Conde

Por Ricardo Carvalho e André de Oliveira*

O pianista cubano Roberto Fonseca, 36 anos, é herdeiro direto da geração do Buena Vista Social Club, que reuniu músicos da importância de Ibrahim Ferrer e Omara Portuondo.

Em 2001, dois anos após ver seu primeiro trabalho ser premiado como o melhor Álbum de Jazz de Cuba, ele excursionou com os músicos do Buena Vista para substituir Rubén González.

“Foi a minha verdadeira escola de música tradicional cubana”, conta Fonseca, quando ele se apresentou em São Paulo.

Apesar de estar ligado a essa geração, que devolveu a música cubana ao lugar “de onde nunca deveria ter saído no cenário internacional”, o pianista define seu estilo como “música aberta”, tendo incorporado elementos do funk, rock e música árabe.

Confira uma prévia da entrevista. A íntegra será publicada na edição de julho da revista Brasileiros.

Qual a influência que sua mãe, que era cantora, teve no seu aprendizado? Que tipo de música você ouvia quando pequeno?
Roberto Fonseca:
Minha mãe cantava música religiosa e foi uma grande influência para mim. Em minha casa se escutava todo tipo de música. Música folclórica, cubana, jazz tradicional e música clássica. Também escutávamos funk, soul e rock.

Na sua infância, se ouvia falar da geração que depois veio a gravar o Buena Vista Social Club?
RF:
Quando eu era pequeno não se escutava muito sobre os músicos do Buena Vista. Essa foi a importância que teve o documentário (sobre a produção do disco homônimo, que reuniu importantes nomes da música da ilha), um resgate da música tradicional cubana. Inclusive, hoje em dia não se escuta muito a música tradicional, porque o jovem não está interessado. Então essa é a importância que o documentário teve.

Quando criança, você começou tocando bateria. Ainda há elementos da percussão na sua música hoje?
RF:
Sim, sempre. Não nos instrumentos, porque na percussão você deve ter a mão tensa e no piano ela deve ser suave. Mas, com certeza, na maneira que eu toco tem elementos de percussão, porque eu gosto muito do ritmo.

Você disse uma vez que quer que as pessoas percebam que “também há dias chuvosos em Cuba”. O que exatamente significa isso?
RF:
O que acontece é que quando as pessoas imaginam um cubano, logo dizem “salsa”. Então, eu acho que às vezes nós somos vistos como índios. E isso me incomoda muito, porque Cuba é um país tão forte musicalmente quanto os Estados Unidos. O que acontece é que não temos as vias e os meios de fazer mais propaganda e publicidade da música cubana. E isso é culpa do mercado também, que nos faz vender coisas como a salsa. Existe uma imagem que em Cuba todos só tomam rum e fumam charutos. Eu, por exemplo, não fumo charutos e não bebo. A ideia é dizer que nós também temos inverno, que também sentimos tristeza e alegria, que existe gente séria e gente descontraída.

* André de Oliveira é repórter da revista Brasileiros