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De olhos bem abertos

por Rosane Pavam publicado 08/02/2011 10h20, última modificação 11/02/2011 17h26
Em versão bem-humorada dos irmãos Coen, Bravura Indômita segue o original de Henry Hathaway e busca reerguer os ânimos da América em guerra

Em versão bem-humorada dos irmãos Coen, Bravura Indômita segue o original de Henry Hathaway e busca reerguer os ânimos da América em guerra

Rooster cogburn, personagem lendário do cinema e do western, foi criado em 1968 pelo escritor Charles Portis, que trocou o jornalismo por uma profissão melhor. Nascido em El Dorado, no Arkansas, Sul dos Estados Unidos, Portis pôs no romance True Grit toda a sua energia de pesquisador. O romance investiga modos, brios e linguagem da América do século XIX e funciona como seu inventário irônico. No ano seguinte ao da publicação, o livro foi transformado em película pelo grande diretor de estúdio norte-americano Henry Hathaway. Traduzida literalmente, a expressão que dá nome à obra equivale a autenticidade, ao “grão verdadeiro”. Sob a rara e dura perspectiva feminina, Bravura Indômita, como intitularam o filme nestes trópicos, mostra que Mattie Ross, menina de 14 anos interpretada por Kim Darby, precisa de um falante John Wayne, na pele de Cogburn, para vingar a morte do pai. Tudo, claro, por um punhado de dólares.

Velho, bêbado, caolho e divertido, mas também cruel, o agente federal Rooster Cogburn tem de lidar com a valente, chata e impiedosa Mattie em um duelo sem armas. Os dois são farinha do mesmo saco, grãos da mesma verdade, iguais porque diferentes. Na versão de 1969, John Wayne está cerca de 20 anos acima da idade pedida pelo romance de Portis e Kim Darby interpreta Mattie oito anos à frente. Mas isto não diminui o filme. Grande porque seco, ele jamais cede ao que é sentimental, nem mesmo nas cenas em que a menina presencia um enforcamento coletivo na praça e reconhece, na funerária, o corpo do pai. O filme de Hathaway olha para o western como um gênero morto, do qual zombará em busca de restabelecer seu sentido. Nele, por exemplo, tem um pequeno papel o ator Dennis Hopper, como o jovem e perdido bandido Moon, revivido na versão de 2010 por Domhnall Gleeson. Pois naquele mesmo ano Hopper surgiria em Easy Rider para constatar que procurara pela América sem encontrá-la. Em 1969, Bravura Indômita tenta explicar o estranho povo americano ao próprio povo americano, que vive de se redescobrir e se reinventar. Como esperado, é também um filme de época empenhado em descrever a própria época. Enquanto a Guerra do Vietnã corria, o presidente Richard Nixon ligava para John Wayne e lhe agradecia por seu trabalho, com o qual se identificara.

*Confira este conteúdo na íntegra da edição 633, já nas bancas