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Cultura

Bravo! CD

De muitas vozes e facetas

por Redação Carta Capital — publicado 13/04/2013 08h33
Em Get up!, o californiano de ascendência afro, indígena e judia une-se ao gaitista Charlie Musselwhite, pilar branco do gênero, num duo arrepiante e sombrio
Get Up!

Imortal. O duo arrepiante oxigena a velha matriz da música americana

por Tárik de Souza

GET UP!
Ben Harper with Charlie Musselwhite
Stax/Universal

Como o samba, o blues – dos grandes ícones em progressivo desaparecimento – agoniza, mas não morre. Alguém sempre o socorre com uma bela sacudida, como o popstar Ben Harper, habituado a uma área mais afeita às fofuras do trajeto folk pop rock surfista. Ele foi o descobridor do roqueiro de prancha havaiano Jack Johnson e fez sucesso no Brasil, em dueto com Vanessa da Mata, na otimista Good luck, em 2007. Mas em Get up!, o californiano de ascendência afro, indígena e judia, de 43 anos, une-se ao gaitista Charlie Musselwhite, pilar branco do gênero, também de origem cherokee, nascido no Mississipi há 69 anos, num duo arrepiante e, por vezes, sombrio. O disco, dedicado ao soulman Solomon Burke e à lenda do blues John Lee Hooker (padrinho de casamento de Musselwhite), foi gravado para o selo Stax, rival menos comportado do soul da Motown dos anos 60/70. Com sua banda enxuta Ralentless 7, formada por Jason Mozersky (guitarra), Jessé Ingalls (baixo, teclados) e Jordan Richardson (bateria), Harper, virtuose da guitarra Weissenborn dedilhada na horizontal, troca as firulas por uma imersão crua, sem retoques, nas dez inéditas do CD.

Todas as composições são de Harper, um cantor de muitas vozes e facetas. Como a da cortante I don’t believe a word you say (nem  preciso olhar nos seus olhos/ não acredito numa palavra que você diz), azeitada no refrão recorrente pela gaita ácida de Musselwhite.

Os extremos do roteiro vão do fatalismo das guerras, na marcial I ride at down, ao inconformismo de Get up! (tenho o direito de me rebelar/ não me diga que eu não posso transgredir a lei). Do peso das guitarras despencado sobre a introdução acústica de Don’t Look Twice, ao alegre circo de palmas cadenciando We Can’t End This Way, o disco oxigena a velha matriz da música americana, seiva do rock ao jazz e o hip-hop.

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