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Dançarino atirador

por Rosane Pavam publicado 22/10/2010 10h24, última modificação 22/10/2010 10h41
Esplêndido Cartier-Bresson, em novos pormenores no livro "O Século Moderno", lançado pela editora Cosac Naify

Esplêndido Cartier-Bresson, em novos pormenores

Henri cartier-Bresson (1908-2004) fotografou de maneira soberba em
preto e branco, embora sua família tenha se destacado no ramo da fabricação de linhas de costura ultracoloridas. Seu rosto de bebê alvo ontrastava com o da primeira esposa, morena de Java. Um dia lhe pediram que fotografasse líderes indonésios diante de uma revoada de pássaros, e ele ameaçou entregar ao publisher a nota fiscal da compra das aves. Era exímio atirador.

Mais. Seu sócio Robert Capa o alertara para melhorar as legendas das fotos enviadas do mundo em quatro cantos. Que ele descrevesse não só os personagens, mas o clima de cada foto. E foi Capa quem o preparou para não se designar um fotógrafo ligado ao surrealismo.

Fotojornalista era um rótulo neutro, do qual seria possível um dia escapar. Bresson observou a vida, as linhas e também o ato sexual, em uma imagem quase exata na Itália de 1933. Mas, em suas fotos de movimentos sensuais, não se viram rostos.

A pesquisa de Peter Galassi para este O Século Moderno, que narra tais fatos, entre muitos outros, em ensaio introdutório, além de ter sido Galassi, como curador, responsável por trazer um Bresson raramente visto à exposição de mesmo nome no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, entre abril e junho deste ano, dá vazão a um artista que pouco a pouco começamos a conhecer e reconhecer.
Ele nem sempre foi aplaudido, a julgar pelas exigências de Capa e de editores excêntricos em contextualizar suas visões.

O grande fotógrafo americano Robert Frank condenou a neutralidade do artista, expressa na esplêndida formatação geométrica do seu observar e pensar. Bresson foi à União Soviética nos anos 50 sem descrever os horrores promovidos por Stalin.

Mas Galassi argumenta que, tendo recebido autorização única por parte do governo russo para fotografar, ele não poderia ter retido os gulags em imagens. Ainda assim, suas fotos exibiram cidades áridas e mulheres tristes.

O livro não acaba. Bresson, que devorara muitos deles, embora, ágil como dançarino, recusasse bancos escolares, conviveu com os grandes de seu tempo, ligados a Proust, ao surrealismo, à pintura, à arte. E escreveu exemplarmente, como aqui: “Do que tenho certeza e daquilo que me orgulho um pouco é de que não estávamos procurando uma breve diversão. Não, o que estávamos buscando, no curso dessas noites às vezes quentes, era a emoção violenta, a ruptura com as disciplinas da vida cotidiana tal como a conhecíamos e mal tolerávamos, uma certa embriaguez e uma certa convulsão”.

Henri Cartier-Bresson: o século moderno, de Peter Galassi
Ed. Cosac Naify, 376 págs., R$ 185