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Da natureza do mal

por Orlando Margarido — publicado 16/09/2011 09h00, última modificação 16/09/2011 12h14
O Fausto do cineasta russo Alexander Sokurov encontra no homem a degradação e o horror

A origem confere a Alexander Sokurov o direito, talvez o destino, de investigar a natureza do poder. Como se sabe, a Rússia é uma nação sempre pródiga na ostentação desse privilégio nas mais variadas configurações. Mas o que torna incontornável a partida do cineasta russo de 60 anos é que ele não se detenha nas circunstâncias de seu território de dimensões continentais. Na esplêndida tetralogia que chega agora ao final, apenas V. I. Lenin merece seu quinhão ficcional, ao lado de Adolf Hitler e do imperador Hirohito. Ainda que a cinematografia desse realizador único seja plena de painéis documentais sobre os poderosos de seu país, como o ex-presidente Boris Yeltsin, está no retrato narrativo sua acepção mais elaborada. O reconhecimento dessa face chegou pela primeira vez a contento. Seu mais novo filme, Faust, mereceu o Leão de Ouro no mais recente Festival de Cinema de Veneza, encerrado dia 10.

É o homem tomado pelo desejo inexorável do mando por meio do conhecimento, e que por ele faz o pacto com o demônio, descrito em lenda e transformado em literatura clássica por J. W. Goethe e Thomas Mann, que integra um quarteto peculiar para Sokurov. Fausto está entre os grandes jogadores que perderam a aposta mais importante de suas vidas, conforme diz o diretor em entrevista a CartaCapital e a outros veículos de um pequeno grupo durante o festival.

Não lhe importuna o fato de que uma figura simbólica do universo literário e mais atrelado à mítica receba a consideração junto a personagens históricos, pois, segundo raciocina Sokurov, é própria de cada um de nós a obsessão que norteia Fausto. Também, por isso, sua preocupação em ser legítimo com a inspiração original e a obra dos escritores alemães apenas circunde o filme. Este integra a parte primeira dos escritos de Goethe, antes do momento de o protagonista se lançar pelo mundo, determinado também a conquistar a bela e virginal Margarete.*

*Leia a íntegra da matéria na edição 664 de CartaCapital, nas bancas nesta sexta-feira 16