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Cultura

Antonio Luiz M. C. Costa

Antonio Luiz M. C. Costa

Ficção Científica

08.10.2010 10:18

Da colagem à recriação

A moda das releituras fantásticas, ou nem tanto, de obras clássicas

Mesmo sem ser o melhor exemplo, o epicentro da onda do mash-up literário é Orgulho, Preconceito e Zumbis, de “Jane Austen e Seth- Grahame-Smith”, estadunidense que substituiu 15% do texto original do clássico de Jane Austen para transformá-lo em horror trash. A se acreditar na contracapa, o objetivo é “transformar esse clássico da literatura mundial em algo que você gostaria de ler”. Há quem goste, pois é um best seller internacional, será filmado por Hollywood e foi logo seguido por Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos.

Como são obras de domínio público, Grahame-Smith não corre risco. A não ser o de a parceira involuntária, de tanto se revirar no túmulo, vir a se erguer dele para lhe aplicar um corretivo. Admiradores de Austen com mais razão e sensibilidade que senso de humor, como a autora e crítica S. J. Chambers, da Fantasy Magazine, não contiveram a fúria: “Para quem busca um jeito de conhecer um clássico sem lê-lo de verdade, mais vale a Wikipédia. Pensei que os zumbis poderiam enfatizar os temas originais, mas o ridicularizam e Austen também nada faz pelos zumbis. É o que eu esperaria de um insolente de 15 anos. Nada une as duas partes disparatadas. Há uma quantidade surpreendente de piadas sobre peidos e vômitos e insinuações asininas sobre bolas e finos pacotes britânicos”.

Ira sagrada à parte, essa brincadeira lembra Marcel Duchamp pintando bigodes na Gioconda. Ou pareceria, se a brincadeira se limitasse a um trecho ou capítulo. Ao se estender por todo o romance, perde a graça, como um moleque que não sabe quando parar de repetir a piada suja que acabou de aprender.

A ânsia de autores e editores por emular esse sucesso gerou produtos nacionais. Pelo selo Lua de Papel da editora portuguesa Leya acabam de ser publicados Dom Casmurro e Os Discos Voadores, de “Machado de Assis e Lúcio Manfredi”, O Alienista Caçador de Mutantes, de “Machado de Assis e Natalia Klein”, Senhora, a Bruxa, de “José de Alencar e Angélica Lopes” e A Escrava Isaura e o Vampiro, de “Bernardo Guimarães e Jovane Nunes”.

Pela Tarja Editorial temos Memórias Desmortas de Brás Cubas, de Pedro Vieira, neste caso sem comprometer a reputação do bruxo do Cosme Velho. Com mais senso que a Leya, pois nenhuma dessas obras é um mash-up: são ficções alternativas. Valem-se de personagens e situações dos clássicos brasileiros, mas não do texto literal, citações à parte. É mais trabalhoso, mas abre mais espaço para a criatividade e evita a impressão de se querer profanar ou ridicularizar os clássicos por pura birra de adolescente irritado com a lição de casa. Soa mais como uma homenagem bem-humorada.

Tentativas de reler ou parodiar Dom Casmurro geraram há tempos O Amor de Capitu (2001), do escritor e jornalista carioca Fernando Sabino; Capitu, Memórias Póstumas (1998), do professor de letras mineiro Domício Proença Filho; e Enquanto Isso em Dom Casmurro (1993), do seu colega catarinense José Endoença Martins. O primeiro recontou a história como narrador neutro, mas, ao se apoiar só no testemunho de Bentinho, só fez reforçar a tese da infidelidade – procedimento similar ao de jornais e revistas que gostam de alardear isenção para tentarem dar mais eficácia à sua parcialidade. O segundo, pelo contrário, parte do ponto de vista da esposa e a faz quase uma santa – o que é mais interessante, mas funcionaria melhor se não recorresse tanto a um anacrônico psicologuês de revista feminina dos anos 1990. O terceiro chutou o balde: Capitu, cansada do romance novecentista, pula do Rio antigo para a moderna Florianópolis, onde se torna uma negra lésbica e country.

Ao menos, Lúcio Manfredi consegue sair da mais estéril e interminável polêmica da literatura brasileira para fazer perguntas mais criativas. Seria o afetado José Dias um robô? Seria a misteriosa Capitu uma alienígena? Não é spoiler: ambas as questões se põem nos primeiros capítulos. Essas e outras hipóteses esdrúxulas acabam por permitir interpretações alternativas, estranhamente plausíveis, de passagens equívocas de Machado – por exemplo, a razão pela qual Capitu se distrai olhando o mar quando Bentinho fala de Sírius (capítulo 106 do original e 87 da paródia).

Não é a primeira vez que a ambiguidade do Dom Casmurro inspira hipóteses fantásticas: em artigo de 2002 na revista Galileu (citado em seu Almanaque Machado de Assis), o escritor Luiz Antonio Aguiar sugeriu que Bentinho podia ser um lobisomem, sem desenvolver a ideia. Talvez deva retomá-la antes que um aventureiro o faça. Segundo a revista Época, o incorrigível Grahame-Smith interessou-se: “Estou pensando em fazer um Dom Casmurro e Lobisomens”.

Também não é inédita a invasão de obras consagradas por alienígenas. Em O Outro Diário de Phileas Fogg, obra de 1973 do estadunidense Philip José Farmer, eventos de A Volta ao Mundo em 80 Dias e de outros livros de Júlio Verne são também reinterpretados como lances de uma batalha secreta entre duas espécies alienígenas. Mas tire-se o chapéu à habilidade de Manfredi ao repetir a façanha com um romance sem conotações aventurescas.

Infelizmente, não se conseguiu reter a ironia de Machado. O caráter dos eventos e personagens é transformado para pasmar, não para instigar. Até por ser uma ficção alternativa e não um mash-up, pouco resta do estilo original. A reinterpretação das peripécias é por vezes bem engenhosa, mas a linguagem é a de romance de mistério juvenil, caindo mais do que precisaria no clichê e na reafirmação do óbvio, embora fuja do mau gosto de Grahame-Smith.

Com certeza, este livro não “transforma o clássico em algo que você gostaria de ler” nem tem a menor serventia para quem “busca um jeito de conhecer um clássico sem lê-lo”. Ao contrário, há que conhecer o original para se divertir com a versão como se deve. O livro de Manfredi perderá metade da graça se o leitor nunca teve um contato imediato de terceiro grau com Dom Casmurro. Perderá quase toda, se sequer fez um avistamento a distância por meio de resumos de vestibular, minisséries ou cinema: só restará um intrigante disparate. Talvez, por isso mesmo, faça sentir que é preciso ler ou reler o verdadeiro Machado.

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Sua opinião

  1. Vaporpunk - relatos steampunk publicado sob as ordens de Suas Majestades | Blodega.com - Doses de Humor e Informação bem Servidas disse:
    [...] que mesclavam clássicos da literatura brasileira com elementos fantásticos, despertando críticas moderadas a [...]
  2. Joseph disse:
    A crítica é realmente honesta, mas que interesse teria um apreciador dos clássicos da literatura em uma releitura desta? Livros de vampiros são detestáveis, imagine uma deturpação feita na cola de de um grande autor!
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