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Cultura

Ficção Alternativa

Da colagem à recriação

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 01/10/2010 01h16, última modificação 04/10/2010 16h21
A moda das releituras fantásticas, ou nem tanto, de obras clássicas
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Machado torna-se parceiro involuntário de autores como Pedro Vieira. Mas este não chega a comprometer a reputação do bruxo.

A moda das releituras fantásticas, ou nem tanto, de obras clássicas

Mesmo sem ser o melhor exemplo, o epicentro da onda do mash-up literário é Orgulho, Preconceito e Zumbis, de “Ja ne Austen e SethGrahame-Smith”, estadunidense que substituiu 15% do texto original do clássico de Jane Austen para transformá-lo em horror trash. A se acreditar na contracapa, o objetivo é “transformar esse clássico da literatura mundial em algo que você gostaria de ler”. Há quem goste, pois é um best seller internacional, será filmado por Hollywood e foi logo seguido por Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos.

Como são obras de domínio público, Grahame-Smith não corre risco. A não ser o de a parceira involuntária, de tanto se revirar no túmulo, vir a se erguer dele para lhe aplicar um corretivo. Admiradores de Austen com mais razão e sensibilidade que senso de humor, como a autora e crítica S. J. Chambers, da Fantasy Magazine, não contiveram a fúria: “Para quem busca um jeito de conhecer um clássico sem lê-lo de verdade, mais vale a Wikipédia. Pensei que os zumbis poderiam enfatizar os temas originais, mas o ridicularizam e Austen também nada faz pelos zumbis. É o que eu esperaria de um insolente de 15 anos. Nada une as duas partes disparatadas. Há uma quantidade  surpreendente de piadas sobre peidos e vômitos e insinuações asininas sobre bolas e finos pacotes britânicos”.

Ira sagrada à parte, essa brincadeira lembra Marcel Duchamp pintando bigodes na Gioconda. Ou pareceria, se a brincadeira se limitasse a um trecho ou capítulo. Ao se estender por todo o romance, perde a graça, como um moleque que não sabe quando parar de repetir a piada suja que acabou de aprender.

*Confira este conteúdo na íntegra da edição 616, já nas bancas.