Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Da carreira de um libertino

Cultura

Música

Da carreira de um libertino

por Alexandre Freitas — publicado 04/12/2009 15h52, última modificação 20/09/2010 15h53
Paris, 1913. Estréia da Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky. Muita já se falou sobre essa histórica apresentação do bailado do compositor russo, coreografado por Nijinsky. Segundo vários depoimentos, vaias, gritos e todo tipo de objeto foi lançado sobre a orquestra e os dançarinos. Foi o Massacre du printemps, nas palavras de Julio Medaglia.

Paris, 1913. Estréia da Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky. Muita já se falou sobre essa histórica apresentação do bailado do compositor russo, coreografado por Nijinsky. Segundo vários depoimentos, vaias, gritos e todo tipo de objeto foi lançado sobre a orquestra e os dançarinos. Foi o Massacre du printemps, nas palavras de Julio Medaglia. O curioso é que entre a crucificação e redenção de Stravinsky passaram-se só alguns meses. A reapresentação da Sagração suscitou as mais calorosas reações e a obra está para Stravinsky, quase como O Barbeiro de Sevilha está para Rossini, ou o Bolero para Ravel.

No entanto, Stravinsky deixou uma obra bastante ampla que sintetiza os movimentos e correntes do século 20 na música e na arte. Dizia que, para colocar ordem nos pensamentos vagos e no feixe de possibilidades do ato de compor, era sempre necessário algum dogmatismo. Acreditava que para aprimorar sua linguagem precisava inventar e seguir regras. Era metódico e dogmático, mas ao mesmo tempo tinha um espírito inquieto e uma enorme curiosidade. Revolucionou o tratamento rítmico, foi neoclássico, serialista, participou ativamente dos meios intelectuais e artísticos por onde passou.

O lirismo não era seu foco principal, ele compôs apenas uma ópera, na acepção clássica do termo: TheRake’s progress ou La Carrière d’un libertin (A carreira de um libertino) entre 1948 e 1951. E foi essa obra que assisti sexta passada em um teatro chamado Louis Jouvet, em Paris. The Rake’s pertence a fase final do neo-classicismo de Stravinsky e ficou conhecida como uma espécie de pastiche de Mozart, uma caricatura musical do século XVIII. Reconhecemos, realmente, vários clichês melódicos e alguns maneirismos do período. Stravinsky brinca com essas referências na ópera inteira. Em uma análise superficial é seu caráter irônico que nos salta aos olhos.

Mas o grande feito de Stravinsky, que pode nos passar despercebido, é a renúncia a duas características capitais do classicismo: simetria rítmica e previsibilidade melódica e harmônica. Ele cria em nós uma série de expectativas, que são somente parcialmente atendidas, mas que se constituem em surpresas sutis, alimentando o interesse na escuta da obra. Tentamos apreendê-la, mas não conseguimos. Achamos que podemos assobiar uma ária, mas não passamos do segundo compasso. É como tentar descobrir onde cairão os acentos da Sagração. Não dá.

Além do aspecto puramente musical, The Rake’s estabelece um diálogo muito fértil entre artes visuais, literatura e música. Stravinsky visitava uma exposição do pintor e ilustrador William Hogarth, quando se deparou com uma série de gravuras intituladas A Rake’s progress. A partir dos personagens e das ações descritas nas imagens, Stravinsky constrói as nove cenas da ópera. Para o texto, entra em contato com seu amigo Aldous Huxley que indica por sua vez o poeta W. H. Auden, com quem trabalha semanas a fio. Era preciso uma prosódia que se adaptasse a concepção de uma obra moderna de referenciais clássicos. A ópera conta as desventuras de Tom Rakewell, um sujeito de personalidade fraca que, tentado pelo diabo, esbanja seu dinheiro com prostitutas, casa-se por interesse, despreza o verdadeiro amor. Na cena final, Tom, cantando em falsete, é Adônis esperando por sua Vênus, rodeado de loucos em um manicômio inglês.

A montagem foi dirigida por Antoine Gindt, sob regência de Franck Ollu, com o tenor Jonathan Boyl no papel de Tom Rakewell e Elizabeth Calleo como Anne Trulove. O teatro não é exatamente apropriado para óperas, sem muitos recursos de luz, pouquíssimo cenário, figurinos simples, uma orquestra de jovens recém formados no conservatório. O quadro não é necessariamente dos melhores, mas a obra de Stravinsky flui e a representação é um sucesso. Mais uma prova de que a força de uma montagem de ópera, além da obra textual e musical, está nas opções cênicas bem estabelecidas e criativas, independentemente de sua grandiosidade ou riqueza material.

Além de bom compositor, Stravinsky também foi hábil nos negócios e soube se beneficiar materialmente do seu talento. Era um sujeito pragmático e obstinado por sua obra e carreira. Abstendo-se de posicionamentos políticos, permaneceu sempre a salvo nas duas guerras mundiais e na revolução russa. Naturalizou-se francês e depois estadunidense, sempre nos momentos oportunos. Cobrava fortunas em suas encomendas e direitos autorais e terminou sua vida muito confortavelmente em Nova Iorque. O musicólogo e colunista da revista Le Monde de la Musique, Jacques Amblard, em uma conferência pouco antes da representação do Rake’s, fez algumas criticas morais ao compositor russo. Disse que Stravinsky era bem diferente da imagem austera que temos quando vemos suas fotos ou lemos seus escritos. Ele teve uma vida dupla por quase vinte anos e foi um grande cortejador de mulheres, disse Jacques. Mas, convenhamos, Stravinsky nunca reivindicou o status de modelo moral. A impressão que tenho é que ainda existe essa tendência de transpor atributos transcendentais da arte para a realidade humana dos artistas. Muitas vezes não dá certo (vide Picasso e Wagner).

No Youtube encontramos os primeiros nove minutos da ópera com a soprano Dawl Upshaw e o tenor Jerry Hadley nos papéis principais: http://www.youtube.com/watch?v=qn8P5175dHw. No fim do mês estará nos cinemas franceses Coco Chanel & Igor Stravinsky, sobre um suposto affaire amoroso entre a estilista e o compositor. O filme estreou em Cannes e foi exibido recentemente na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Festival do Rio. Coco estava na fatídica estréia da Sagração da Primavera.

No entanto, Stravinsky deixou uma obra bastante ampla que sintetiza os movimentos e correntes do século 20 na música e na arte. Dizia que, para colocar ordem nos pensamentos vagos e no feixe de possibilidades do ato de compor, era sempre necessário algum dogmatismo. Acreditava que para aprimorar sua linguagem precisava inventar e seguir regras. Era metódico e dogmático, mas ao mesmo tempo tinha um espírito inquieto e uma enorme curiosidade. Revolucionou o tratamento rítmico, foi neoclássico, serialista, participou ativamente dos meios intelectuais e artísticos por onde passou.

O lirismo não era seu foco principal, ele compôs apenas uma ópera, na acepção clássica do termo: TheRake’s progress ou La Carrière d’un libertin (A carreira de um libertino) entre 1948 e 1951. E foi essa obra que assisti sexta passada em um teatro chamado Louis Jouvet, em Paris. The Rake’s pertence a fase final do neo-classicismo de Stravinsky e ficou conhecida como uma espécie de pastiche de Mozart, uma caricatura musical do século XVIII. Reconhecemos, realmente, vários clichês melódicos e alguns maneirismos do período. Stravinsky brinca com essas referências na ópera inteira. Em uma análise superficial é seu caráter irônico que nos salta aos olhos.

Mas o grande feito de Stravinsky, que pode nos passar despercebido, é a renúncia a duas características capitais do classicismo: simetria rítmica e previsibilidade melódica e harmônica. Ele cria em nós uma série de expectativas, que são somente parcialmente atendidas, mas que se constituem em surpresas sutis, alimentando o interesse na escuta da obra. Tentamos apreendê-la, mas não conseguimos. Achamos que podemos assobiar uma ária, mas não passamos do segundo compasso. É como tentar descobrir onde cairão os acentos da Sagração. Não dá.

Além do aspecto puramente musical, The Rake’s estabelece um diálogo muito fértil entre artes visuais, literatura e música. Stravinsky visitava uma exposição do pintor e ilustrador William Hogarth, quando se deparou com uma série de gravuras intituladas A Rake’s progress. A partir dos personagens e das ações descritas nas imagens, Stravinsky constrói as nove cenas da ópera. Para o texto, entra em contato com seu amigo Aldous Huxley que indica por sua vez o poeta W. H. Auden, com quem trabalha semanas a fio. Era preciso uma prosódia que se adaptasse a concepção de uma obra moderna de referenciais clássicos. A ópera conta as desventuras de Tom Rakewell, um sujeito de personalidade fraca que, tentado pelo diabo, esbanja seu dinheiro com prostitutas, casa-se por interesse, despreza o verdadeiro amor. Na cena final, Tom, cantando em falsete, é Adônis esperando por sua Vênus, rodeado de loucos em um manicômio inglês.

A montagem foi dirigida por Antoine Gindt, sob regência de Franck Ollu, com o tenor Jonathan Boyl no papel de Tom Rakewell e Elizabeth Calleo como Anne Trulove. O teatro não é exatamente apropriado para óperas, sem muitos recursos de luz, pouquíssimo cenário, figurinos simples, uma orquestra de jovens recém formados no conservatório. O quadro não é necessariamente dos melhores, mas a obra de Stravinsky flui e a representação é um sucesso. Mais uma prova de que a força de uma montagem de ópera, além da obra textual e musical, está nas opções cênicas bem estabelecidas e criativas, independentemente de sua grandiosidade ou riqueza material.

Além de bom compositor, Stravinsky também foi hábil nos negócios e soube se beneficiar materialmente do seu talento. Era um sujeito pragmático e obstinado por sua obra e carreira. Abstendo-se de posicionamentos políticos, permaneceu sempre a salvo nas duas guerras mundiais e na revolução russa. Naturalizou-se francês e depois estadunidense, sempre nos momentos oportunos. Cobrava fortunas em suas encomendas e direitos autorais e terminou sua vida muito confortavelmente em Nova Iorque. O musicólogo e colunista da revista Le Monde de la Musique, Jacques Amblard, em uma conferência pouco antes da representação do Rake’s, fez algumas criticas morais ao compositor russo. Disse que Stravinsky era bem diferente da imagem austera que temos quando vemos suas fotos ou lemos seus escritos. Ele teve uma vida dupla por quase vinte anos e foi um grande cortejador de mulheres, disse Jacques. Mas, convenhamos, Stravinsky nunca reivindicou o status de modelo moral. A impressão que tenho é que ainda existe essa tendência de transpor atributos transcendentais da arte para a realidade humana dos artistas. Muitas vezes não dá certo (vide Picasso e Wagner).

No Youtube encontramos os primeiros nove minutos da ópera com a soprano Dawl Upshaw e o tenor Jerry Hadley nos papéis principais: http://www.youtube.com/watch?v=qn8P5175dHw. No fim do mês estará nos cinemas franceses Coco Chanel & Igor Stravinsky, sobre um suposto affaire amoroso entre a estilista e o compositor. O filme estreou em Cannes e foi exibido recentemente na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Festival do Rio. Coco estava na fatídica estréia da Sagração da Primavera.