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Curso de recuperação

por Rosane Pavam publicado 28/11/2008 15h18, última modificação 16/09/2010 15h20
Vamos acompanhar um curso, ouvir uma palestra, participar de um debate, cutucar um artista no chat? Sinto a cada dia que a cidade moderna nos convida a esses encontros, que, ao fim das contas, raramente nos ensinam o que importa, que é, a meu ver, refletir.

Vamos acompanhar um curso, ouvir uma palestra, participar de um debate, cutucar um artista no chat? Sinto a cada dia que a cidade moderna nos convida a esses encontros, que, ao fim das contas, raramente nos ensinam o que importa, que é, a meu ver, refletir. Por que não ler um livro de Theodor Adorno em lugar de ouvir o que Marilena Chauí pensou há duas semanas? Gosto de fazer as contas: 50 páginas deIntrodução à Sociologia talvez nos tomem as mesmas duas horas de palestra e de perguntas animadas.

Não é que Chauí seja condenável enquanto fala. Ótimo que fale, por dever e ofício do intelectual. Mas não me refiro a Chauí neste caso, antes a nós, espectadores, recebedores, grandes e largos tubos de encanamento dos raciocínios. Tanta água precisa cair em algum lugar.

Não precisamos deixar que os livros morram, porque é a organização escrita que dá sentido ao pensador. As palavras de Sócrates não ficaram ao vento porque houve Platão para reencontrá-las. A aventura grega ainda é recordada como modelo porque Homero a situou. Tudo o que fez sentido no Ocidente passou um dia pelo papel.

Estamos na cidade e não conversamos com o vizinho. As nossas horas cansadas, ao contrário disso, são destinadas aos saberes proferidos nos templos das palavras pelas quais pagamos. Os cursos precisam existir, mas, sem estudo, não valem, são grana perdida.

Nos anos 80, era certo que se reunissem os muito jovens, em um saguão de universidade ou auditório de poltronas furadas, pelo bem da história. Não perdíamos a ocasião de ver o diretor José Celso Martinez Correa dizer uma deliciosa impropriedade contra a repressão, como se Wilhelm Reich renascesse.

Martinez Correa ainda não se revelara o diretor de cinco horas de espetáculos para jovens, mas a semente já estufava naquele corpo magro, sempre prestes a reverenciar a vida, como um bailarino de Isadora Duncan. Em um debate na Pontifícia Universidade Católica paulistana, lembro de tê-lo ouvido dizer, recém-saídos que éramos de uma ditadura militar, que liberar o corpo de Ernesto Geisel teria nos custado menos sofrimento político. Ninguém riu, e o sociólogo Octavio Ianni ainda lhe deu um pito.

Mas Martinez Correa fez direito. Ele já entendia que as palavras precisavam ser ditas de algum modo, para além do corpo que ele celebrava, ou não estaria alguém como eu, agora, lembrando delas. Ele as jogou ao vento? Parece-me que não. Poderia tê-las escrito, mas, enquanto houve quem as recordasse, sobreviveu, como duradoura provocação.

Era obrigatório estar no ABC paulista no primeiro de maio e ver Lula sair de um Maverick cor de laranja (ou seria um Opala amarelo) para nos cumprimentar no início dos anos oitenta. Isto não deixava de ser bom. Também era vida, que redundou em aprendizado. Lula já parecia muito importante naquele São Bernardo avesso ao de Graciliano Ramos. Nem de longe o sindicalista se assemelhava a um personagem como Paulo Honório. Regava um latifúndio produtivo, seguro de centrar a luta em sua convicta figura.

O primeiro de maio era uma festa maior que a Casa do Saber da Maria Fernanda Cândido, porque no domínio dos Demarchi presenciávamos a história andando para frente. A Casa do Saber, perto disso, é curso de recuperação.

Está bem. Maria Fernanda promove algo importante. Ela civiliza a elite paulistana, sempre disposta a baixar o nível do pensar, do vestir, do viver. Mas o que a dona da Casa faz é só trabalho. Se eu precisar largar a Gertrude Stein que leio nesse instante, que seja não para presenciar os cursos do Contardo Calligaris, mas para ver a vida acontecer.