Cultura

Crônica

Cuidado! Cachorro bravo!

por Alberto Villas publicado 06/01/2017 04h59
Por que será que os cachorros de hoje são tão mansos?
Everson Bressan / SMCS

Sou de um tempo em que cachorro comia osso de frango frito aos domingos, acompanhado do que sobrou da macarronada. Engasgavam, tossiam e seguiam adiante até eliminar toda aquela carcaça.

Sou de um tempo em que atravessávamos a rua toda vez que vinha um cachorro na direção contrária. Era puro medo, porque eles latiam, avançavam e mordiam feio. 

Sou de um tempo em que quase todo mundo morava em casa e tinha um vira-lata para espantar ladrão. No portão, havia sempre uma placa esmaltada escrito: “Cuidado! Cachorro bravo!” E põe bravo nisso. 

Não tinha bandido que tentava roubar calça Lee no varal que não saísse com uma bela mordida na perna, às vezes com as marcas dos caninos, muitas vezes sangrando. 

Quantas e quantas vezes não fui parar no posto do IAPC pra tomar vacina antirrábica depois de uma mordida de cão? Pela minha casa passaram quatro: Joli, Tupi, Pink e a temível Fly, que ficava presa num galinheiro sem galinhas e somente o meu irmão tinha coragem de chegar perto para oferecer uns pedaços de bofe a ela. 

Sou de um tempo em que cachorros tinham nomes de cachorro: Rex, Fox, Tupã, nomes assim. Hoje, levam nome de celebridades. Conheço um Einstein, um Brad Pitt, um Michael Jackson e uma Frida. 

Sou de um tempo em que não havia pet shop com banho e tosa. Os cachorros tomavam banho no tanque, com água fria e a tosa, quando era feita, era mesmo em casa com uma velha tesoura Mundial

Hoje. eu me pergunto o que aconteceu com os cachorros que são chamados de filhos. Eles ficaram mansos, pacatos e do lar. Quando trombamos com um no shopping – sim, hoje eles passeiam no shopping – podemos tranquilamente chegar perto, passar a mão na cabeça, brincar com ele, que sempre corresponde com o seu sorriso que está no rabo. 

Não vejo mais cachorro bravo por aí, daqueles que latem, avançam e mordem. Os cachorros de hoje me parecem da paz, não querem saber de confusão ou mordidas em ladrão. 

Outro dia perguntei a um amigo se os cachorros de hoje têm pulga, porque os do meu tempo andavam infestados de pulgas, que eram combatidas com pó chamado Neocid, que vinha numa latinha amarela que a gente apertava. 

Ele disse que sim, mas que elas são eliminadas com uma coleira anti-pulga que vende nos pet-shops da cidade. 

Sou de um tempo em que não havia ração pra cachorro nem biscoitinhos Premier Cookie. O cocô deles era fedido que só. Nunca me esqueço no dia em que minha mãe foi jogar água no quintal e encontrou um Bom-Bril inteirinho nas fezes de Tupi. 

Outro dia alguém me contestou, lembrando que ainda existem sim os cachorros bravos, os Pit bulls que mordem, matam e vão parar nas páginas policiais dos jornais. Mas até da braveza dos Pit bulls eu desconfio. 

Agora, falando sério, minha tese vai por água abaixo quando penso que sou do tempo do Snoopy, da Lassie, do Pluto, do Pateta, do Milu, da Dama, do Vagabundo, do Bob Pai e do Bibo Filho, todos cachorros do bem, que não avançavam nem mordiam ninguém.