Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Conversa entreouvida no ônibus

Cultura

Crônica

Conversa entreouvida no ônibus

por Matheus Pichonelli publicado 09/11/2015 15h14
Eu durmo para procurar respostas. E acordo com as mesmas perguntas. Eu não aguento as mesmas perguntas
Oswaldo Corneti
OC_Motoristas-e-cobradores-de-Onibus-fazem-paralisacao-em-Sao-Paulo_0311052015.png

'Estou cansado de dizer para onde vou. Às vezes eu penso que só sou algo, ou alguém, quando estou em movimento'

̶  Fala, velhão!

̶  Oi.

̶  Que cara é essa? Pô, há quanto tempo eu não te vejo?

̶  Não sei. Um ano?

̶  Bota ano nisso. Como tá a vida?

̶  Indo.

̶  Como assim, meu? Que conversa. Tá parecendo velho falando. Como tá o trampo, as mina, as coisas em casa?

̶  Indo.

̶  Que ótimo que estão indo. Melhor do que ficar parado, né? KKKK.

̶  Não sei. Eu esperava mais.

̶  Como assim, meu?

̶  Você não tem a impressão de que tem gente sorrindo demais?

̶  Quê?

̶  Você não tem a impressão de que, por onde andamos, só vemos bocas?

̶  Sim, as pessoas têm bocas, mas, e daí?

̶  Não são só as bocas. São os dentes. São as linhas rangendo. A secura dos lábios. As cores. Os esforços desumanos. Tenho a impressão de que esses sorrisos postiços antecederam todas as grandes tragédias.

̶  Velho, ce tá estranho.

̶  Estou. Eu queria ter mais respostas. Achava que teria nessa fase da vida, mas não tenho. E quem eu achei que teria também não têm.

̶  O que você bebeu?

̶  Repara. Quando foi que você dividiu uma angústia com alguém e este alguém te deu um livro?

̶  Eu...eu...não sei, nunca pensei nisso

̶  Você não imaginava que, na hora do aperto, sempre haveria algum velhinho, ou pai ou mãe ou tio ou avô, para dizer “Já passei por isso. Leia esse livro. O autor, ou autora, também já passou. E escreveu um calhamaço sobre tudo isso que não é novo”. Isso simplesmente não acontece.

̶  Isso não é meio elitista? Sei lá, só os livros salvam?

̶  Que fosse uma canção. Eu esperava mais de quem não lê também. Achava que a sabedoria não tinha código. Que eles me ensinariam a observar a natureza para entender a chuva, o vento, as levas de mosquitos. Que a sabedoria popular estava em toda parte, como nos jagunços do Guimarães Rosa. Em vez disso, só vejo gente com sono...

̶  Eu vivo com sono.

̶  Eu durmo para procurar respostas. E acordo com as mesmas perguntas. Eu não aguento as mesmas perguntas.

̶  Que perguntas?

̶  Eu não sei. Estou cansado de dizer para onde vou. E quanto vou ganhar com isso. Às vezes eu penso que só sou algo, ou alguém, quando estou em movimento.

̶  Você não acha que é novo demais pra se questionar tanto?

̶  Eu penso muito no fim das coisas também. Vejo as coisas novas e imagino como elas acabarão. E não sei como lidar com elas.

̶  Que papo mais fúnebre, meu caro.

̶  Não é fúnebre. Eu só queria entender.

̶  Pois então reza.

̶  Já rezei.

̶  Já procurou um padre?

̶  Já. Mas não suporto.

̶  O padre?

̶  Não me suporto me ouvir enquanto confesso.

̶  Cara, eu vou descer neste ponto. Você vai para onde?

̶  Eu não tenho ideia.

̶  Sorte sua. Abraço!

registrado em: