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Contradições em Pasárgada

por Rosane Pavam publicado 18/02/2008 16h57, última modificação 16/09/2010 16h58
O caráter é uma escola de sacrifícios. Disse-o Manuel Bandeira. No pelourinho dos ascetismos, divertido por não rimado, ele, o poeta, pediu que colocássemos atenção sobre Irene, a negra que se candidatava ao Céu dos brancos. Bandeira também nos contou que, em certo lugar, um homem benfazejo teria a mulher que quisesse na cama que escolhesse. Tal prostíbulo de sujeitos sozinhos e tristes seria Pasárgada. E ficamos a imaginar quão felizes se sentiriam estas mulheres de papel em torno do paraíso.

O caráter é uma escola de sacrifícios. Disse-o Manuel Bandeira. No pelourinho dos ascetismos, divertido por não rimado, ele, o poeta, pediu que colocássemos atenção sobre Irene, a negra que se candidatava ao Céu dos brancos. Bandeira também nos contou que, em certo lugar, um homem benfazejo teria a mulher que quisesse na cama que escolhesse. Tal prostíbulo de sujeitos sozinhos e tristes seria Pasárgada. E ficamos a imaginar quão felizes se sentiriam estas mulheres de papel em torno do paraíso.

O caráter é uma escola de sacrifícios. Bandeira formulou esta frase não em um poema, mas na resenha “Fala Brasileira” (“Crônicas da Província do Brasil"), a respeito da dura escolha de um escritor diante da escrita simples. A idéia de ligar o caráter à renúncia parece ser bastante justa, mas Irene e Pasárgada ainda intrigam. Em livro lançado no ano passado, o escritor Renato Pompeu as comenta por meio da fala embrutecida do personagem Arquiteto da Natureza: “... para Bandeira, as negras eram boas porque serviam aos brancos...” E sobre Pasárgada: “Nunca Bandeira se perguntou a si mesmo se as mulheres que queria podiam não querê-lo.”

Arquiteto da Natureza é personagem de “O Mundo como Obra de Arte Criada pelo Brasil”, e suas palavras são sempre provocadoras. “A verdade é que a grande aventura do povo brasileiro ainda não começou”, ele diz. “A sofrida aventura que tivemos até aqui foi retratada tão-somente por Augusto dos Anjos, mas sua obra não chega a ser uma epopéia.”

Percorremos o “Mundo” e entendemos que é livro para um ideal. O ideal de resistir?

Pompeu considera esta sua melhor narrativa e diz que a produziu rapidamente, durante uma febre de escritor. O romance-ensaio contém outras pequenas polêmicas envolvendo brasileiros menos fulgurantes. Mas o texto ganha interesse adiante da cizânia. O autor abre janelas para idéias, povos e lugares, talvez porque, informados sobre eles, sejamos menos crédulos a respeito de seus algozes.

No livro, um samba-enredo universal vem sendo preparado por uma comunidade cibernética para comemorar a passagem do milênio. O trabalho de editar pedaços informativos de todo o mundo como ingredientes do desfile está a cargo de uma bonita mulher brasileira. Cada capítulo leva o nome de palavras que existem em todas línguas: eu, orelha, gordura, longe. A mediadora recebe mensagens de tipos distantes e comunitários e às vezes se pergunta se os curdos existem realmente, já que foram varridos dos discursos e dos verbetes. O mais deve-se ler.

O caráter é uma escola de sacrifícios. Renato Pompeu fez um livro ótimo e difícil, porque quem o enfrenta se vê em sua pequenez não-heróica, num sentido contrário ao da leitura que habitualmente fazemos dos volumes impressos. Embora o leitor goste de acreditar que seu destino está nas próprias mãos, talvez haja outros fatores a determinar seu futuro, sugere o autor.

Parte da gente de escritura do Brasil não caminha como Pompeu ou como dona Lygia Fagundes Telles. É preciso resistir, ela gosta de dizer. Mas como praticar isto em Paris ou Lisboa ou Tóquio escrevendo sob encomenda sobre o amor? A vida é dura, sem confeitura, e longos almoços custeados nos hotéis medievais dos bolsistas não fazem um escritor.

Sejamos risonhos, também, ao observar esta corrida de conservadores disputando a atenção do patronato nos jornais. Vive-se sem muita coisa, mas sem humor... Somente sob o domínio do capitalismo convivem todas as ideologias, já que o capitalismo prescinde delas, foi algo que li outro dia. Católicos e leninistas conversam e negociam na base comunal materialista e neutra deste sistema!

É uma idéia divertida, por utópica, que o capitalismo seja então considerado um instinto, que possa ser implantado com a simples grandeza de sua base negocial, sem um pensamento que una os negociantes, como se, diante dele, fôssemos pombos ou ratos concentrados em seus objetivos. Este vazio filosófico dos atores do regime chega a emocionar quem o imagina. O capitalismo como um redutor, mas o que ele reduz? Penso nas idéias, nos materiais. Nos homens, finalmente. Se podemos pagar quem lave nossas latrinas, somos reis todos os dias, indiferentes às ideologias que nos contradizem.

E há outra questão. Se formos sinceros sobre nossos privilégios quando escrevemos artigos, o que será de nós? Diremos que defendemos quem nos paga e alimenta, que são ínfimos os alimentados e pagos e que, ao recebermos bem demais pelo pouco que fazemos, enxergamos no céu um São Pedro branco com que a Kyoto do protocolo nem sonharia?

É preciso resistir. Um homem inteligente do capital, do tipo de um George Soros, jamais desprezaria o que raciocinou Karl Marx sobre o mundo que nos governa. Um intelectual, ao contrário, parece poder fazer isto de vez em quando nos periódicos – isto de usar a desinteligência a seu favor.