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Cultura

Crônica do Menalton

Consumo compulsivo

por Menalton Braff publicado 08/04/2016 03h50
A vida entre seres humanos invasivos vem corrompendo meu juízo, que já não é lá essas coisas
Tommaso Mascioli/Flickr
Visão da cidade de São Paulo

Na minha rua, os vizinhos festejam e não param antes daquela barra amarela no horizonte anunciando o nascimento do Sol

 

Estou pensando seriamente em viajar semana que vem. Mas viajar para muito longe, provavelmente para alguma região da Amazônia, lá onde se pode ficar a cem quilômetros de qualquer outro ser humano senão da família.

Disse ontem exatamente isso ao Adamastor e ele me olhou muito espantado. Sei muito bem o sentido de seu olhar: ele acha que estou ficando louco. E ele tem razão. A vida entre seres humanos invasivos vem corrompendo meu juízo, que já não é lá essas coisas. Só por ser meu amigo ele não disse nada, mas exatamente por ser meu amigo entendi perfeitamente seu olhar.

Vivemos, sobretudo nos centros urbanos, mesmo os mais suburbanos, a falta de respeito que tem caracterizado nossa época. Qualquer um chega e vai entrando em sua casa, sem pedir licença, sem perguntar se você, o eventual ocupante daquele espaço, está a fim ou não de consumir o que ele vai impingindo, queira-se ou não.

De tapetes feitos a mão, loção contra queda de cabelos, doce de melancia até palpites sobre a situação política brasileira na atualidade, previsões sobre os rumos da economia, de tudo que se possa imaginar tem sempre alguém querendo vender.

Mas o pior dos consumos é ainda aquele que polui sonoramente nosso ar.

Nos fundos de minha casa existe uma “chácara”, eufemismo local para boate sem alvará de funcionamento. (A polícia, a prefeitura, todas as autoridades sabem que é um funcionamento ilegal, mas eis que o eleitorado gosta). Eles me despejam por cima todo tipo boçal de música e com tal volume que não consigo mais trabalhar. A noite toda e a qualquer dia da semana.

De casamento, aniversário, baile funk, de tudo acontece naquele espaço e a qualquer dia da semana e a qualquer hora do dia. Não muito longe uma igreja de crentes e outra católica disputam enfurecidas minha preferência. Cânticos e falas, gritos, lágrimas e ranger de dentes. Ouço tudo da salinha onde gostaria de trabalhar.

Tenho vizinhos que fazem festas, aqui se leia churrasco noturno regado a cerveja, palavrões e gargalhadas, bem debaixo de meu quarto, e não param antes daquela barra amarela no horizonte anunciando o nascimento do Sol.

A minha rua é muito curta, uma rua com dez casas, que tenta organizar-se em orquestra de latidos. São doze cães a menos de cinquenta metros de onde costumo passar meus dias. Às vezes tento abrir uma janela.

Só não digo que estou ficando neurótico porque tenho lido um pouquinho de Freud e sei que o problema fica a alguns furos acima.

Se não encontrar lugar habitável no meio do mato, só me resta construir uma casa à prova de som. Meu problema é o dinheiro curto.

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