Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Console-se com o vallenato

Cultura

O Som da Imagem

Console-se com o vallenato

por Redação Carta Capital — publicado 09/03/2013 10h01, última modificação 09/03/2013 10h01
É bom fundo musical para o mistério da Sierra Nevada de Santa Marta e o realismo mágico de García Márquez

Por Oliviero Pluviano

Esses dizeres em letras maiúsculas, apontados pelo meu irmão, condenam a masturbação como um dos maiores males para a humanidade, por causar cansaço físico, dores de cabeça, problemas nervosos, impotência sexual, envelhecimento precoce e até mesmo insanidade. Eles parecem remeter a uma antiga maldição medieval, mas estão em uma casa abandonada de Aracataca, o vilarejo colombiano onde nasceu o escritor e Prêmio Nobel de Literatura Gabriel García Márquez, que nesta semana, em 6 de março, completará 86 anos. Nem sei dizer se ainda existem, porque já se passaram muitos anos desde aquela viagem e a foto.

Vindos de Cartagena de la India tínhamos chegado a Barranquilla com o desejo de ver a Sierra Nevada de Santa Marta, as únicas montanhas do planeta que se erguem 5.775 metros verticalmente acima do mar. Não há em nenhum lugar do mundo e em tão poucos quilômetros um desnível semelhante e, para descobrir o efeito disso sobre nós, decidimos desafiar os muitos perigos do local, da guerrilha das Farc (então muito ativa na região de Santa Marta), aos “borradores”, como eram chamados os ônibus que, a toda velocidade e na contramão, não se importavam em jogá-lo fora da estrada na hora da ultrapassagem.

Inicialmente, tentamos descobrir o que significava aquela elevação incomensurável do Mar do Caribe indo com um pescador ao Largo de Taganga, baía encantada a leste de Santa Marta. Mas o velho tinha somente uma canoa feita de um único tronco de árvore, como aquelas que vemos no Amazonas, impulsionada por um motor birrento. Logo levantou um vento violento e o mar tinha ondas tão altas que a canoa começou a se encher de água e o motor afogou. Estávamos bem distantes, e eu nem sequer tive tempo de ver a Sierra Nevada coberta por nuvens ameaçadoras. Remei sem parar por duas horas em um mar tempestuoso antes de, milagrosamente, chegar ao abrigo de uma ilha costeira.

Depois tentamos ver o Pico Cristobal Colon, o cume da Sierra incorporado ao município de Aracataca, de uma colina do Parque Natural Tayrona, um promontório coberto por florestas tropicais atravessadas por trilhas longas e cansativas. Subimos até o sítio arqueológico de Chairama (Pueblito) através de um caminho de pedras enormes e irregulares que, com o barulho produzido ao bateram umas contra as outras, alertavam as antigas comunidades indígenas da aproximação de inimigos. Chegamos tarde demais no meio de um nevoeiro que impedia a visão da Sierra. Voltamos de noite completamente derrotados, sob a ameaça de gigantescos morcegos hematófagos e serpentes venenosas.

A única saída foi nos consolar com o vallenato, o gênero musical típico daquela costa caribenha da Colômbia, que agora está vivendo um grande revival.

“À medida que a Colômbia sai de seu longo inverno de violência e há um horizonte mais otimista, se observa um retorno do nacionalismo, um resgate do orgulho de ser colombiano, que também se manifesta na música”, disse Adriana La Rotta, uma amiga querida que foi uma Fátima Bernardes da televisão colombiana. Carlos Vives é o “guru” que nacionalizou o vallenato, antes restrito aos sanfoneiros de Valledupar, no extremo sul da Sierra Nevada. Há alguns meses, o cantor gravou com Michel Teló a música Como le Gusta a Tu Cuerpo (ouça no YouTube) de seu último álbum Volvi a Nacer. Mas existem outros compositores de sucesso, como Andrés Cabas, nascido em Barranquilla (Vives, nasceu na vizinha Santa Marta) que já cantou em dupla com a concidadã Shakira. E Juanes, autor de um dueto com Paula Fernandes (no YouTube Hoy me Voy) em seu mais recente CD MTV Unplugged. E Fonseca (na verdade, Juan Fernando Fonseca) que a partir do vallenato ameaça agora destronar o “príncipe” dominicano Juan Luis Guerra do lugar de maior chansonnierdo mundo caribenho.

Conservo em mim o profundo mistério da Sierra Nevada de Santa Marta em simbiose com o “realismo mágico” de García Márquez, fechado em sua Macondo, a cidade imaginária de Cien Años de Soledad, cujas portas ostentam aquele surpreendente anátema contra o onanismo...

registrado em: