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Como se tornar bons pais

por Eduardo Nunomura — publicado 25/12/2013 10h09, última modificação 25/12/2013 10h11
Em ‘Pais e Filhos’, Hirokazu Kore-Eda expressa com singularidade o modo como os japoneses lidam com os sentimentos, muitas vezes visto como reservados demais
Divulgação
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Filme recebeu prêmio do Júri no Festival de Cannes

Estreia no dia 27 de dezembro, em circuito comercial, o filme japonês Pais e Filhos, prêmio do Júri no Festival de Cannes. O título em português é uma tradução de segunda mão da versão em inglês, Like Father, Like Son. Com tantos descendentes de japoneses no Brasil, é incompreensível que o nosso colonialismo cultural não permita perguntar a qualquer odítchan (avô) ou obátchan (avó) o que significa Soshite Chichi Ni Naru. Em tradução livre, seria algo como Enfim Se Tornar Um Pai. E é exatamente disso que se trata essa delicada e dramática obra do cinema japonês.

Pais e Filhos parte de uma situação de extrema crueldade: dois casais descobrem que seus filhos de seis anos foram trocados na maternidade. Keita Nonomiya mora com os pais num apartamento de luxo de Tóquio que mais se parece com um hotel, enquanto Ryusei Saiki vive com dois irmãos menores e os pais, dois simplórios comerciantes do subúrbio japonês. Num certo dia, o hospital procura os casais, admite o erro e incentiva as famílias a realizarem a troca das crianças.

A história passa a girar em torno do universo do bem-sucedido e ambicioso arquiteto Ryota Nonomiya. As inúmeras e previsíveis situações que poderiam ocorrer na vida real acabam sendo transpostas na tela, mas num intrincado jogo de sentimentos em que os contrastes das vidas dos personagens acabam tecendo uma trama envolvente e sensível. Há a frieza do apartamento de luxo ante a confinada moradia dos subúrbios. Há o patriarcado que rege a vida dos ricos ante o matriarcado das famílias de classe média. Há a culpa das mães e a ganância inicial do comerciante que vê a possibilidade de enriquecer com uma indenização, mas se trata de um pai de bom coração.

E há também o egoísmo e a frieza de Ryota, que acredita ter encontrado a explicação por Keita não ser a criança perfeita que ele sonhava ter. Mas a metáfora vale para muitos pais e mães de qualquer parte do mundo. Como educar bem seu filho se, tão dedicados ao trabalho que sou, mal tenho tempo para estar com ele? Ao ter contato com seu filho biológico, Ryusei, e sentir a perda do garoto que criou por seis anos, o ambicioso arquiteto descobre que nunca havia sido um pai de verdade. O desfecho do filme é emocionante.

O diretor Hirokazu Kore-Eda (Depois da Vida, Andando, O que eu Mais Desejo) conseguiu expressar com singularidade o modo como os japoneses lidam com os sentimentos, muitas vezes visto como um povo reservado demais. Não há exageros, nem reduções no filme. Pais e Filhos fala da paternidade (e da maternidade), da boa paternidade (maternidade), tão ao nosso alcance, mas deixada de lado ou adiada em nome de tantas outras coisas.