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Crítica

Como nossos pais

por Matheus Pichonelli publicado 12/09/2016 09h44
Filme sobre casal que nos anos 70 decidiu abrir a casa para os amigos e novas experiências aborda de forma sombria a ideia hoje tão falada de poliamor
Divulgação
A comunidade

Cena do filme 'A Comunidade', de Thomas Vinterberg

A Comunidade, filme dinamarquês que se passa na Copenhague dos anos 1970, parece, de longe, a alegoria do nosso déficit democrático, em xeque hoje nos países da Europa e no discurso populista de aventureiros nas Américas do Norte e do Sul.

Em uma época em que os muros se tornam a saída para as tensões inerentes de um mundo globalizado e conectado, Thomas Vinterberg resolveu filmar a história de uma família composta por pai, mãe e filha adolescente que herdam um casarão e decidem ampliar a ideia se "nós". Primeiro, convidam um amigo para morar em um dos quartos. Depois um casal do amigo. Em seguida, uma amiga do casal. Depois um desconhecido. E, por fim, a amante do marido.

Os anos 70, como se sabe, foram a epígrafe da revolução sexual da década anterior, quando as relações tradicionais foram abaladas na essência até pelo modo como ouvíamos música. Era o tempo da experimentação, do movimento hippie, do amor livre, da luta contra a guerra no Vietnã.

Muitos de nós somos filhos dos filhos dessa geração, e acompanhar a ideia de comunidade do filme é pegar emprestado o olhar da filha adolescente que cresce naquele laboratório de vivências e limites testados.

Mais do que isso, ela amadurece como testemunha das consequências de escolhas em conflito e a consciência de que, em qualquer idade, não é possível ser tudo o que se quer (em algum momento, aponta o cineasta, nossos desejos e escolhas entram em contraste com outras vivências e escolhas e esse conflito se bifurca num caminho em direção à contingência ou à solidão).

Logo nas cenas iniciais, há um conflito subentendido com o filho, agora pai, que herda o casarão. Os vínculos entre pai e filho estavam cortados por algum motivo que desconhecemos. A casa, que há muito não era frequentada, é objeto de uma rejeição inicial.

Erik, o herdeiro, é arquiteto e considera aquela casa inadequada. Prefere a aproximação, o aconchego e os espaços preenchíveis das casas menores. O imóvel herdado, em contraste, é enorme, e ele prevê uma espécie de desintegração dos vínculos familiares em meio aos espaços vazios daquela casa – os vazios, até aqui, são meramente físicos, mas se manifestam em outras linguagens ao longo do filme.

O fato é que, embora rejeitada, aquela estrutura acaba sendo herdada, e no entorno dela (algo pronto e construído) a família tenta adaptar novos significados e vivências. Imaginam que o desapego em relação a valores enraizados (a tal tríade família, tradição, propriedade) era, em si, uma forma de se livrar dos pais sem se livrar da herança. 

Ao convencer o marido a ficar na casa e abri-la a outros moradores, Emma, sua companheira, diz estar velha e cansada de ouvir todos os dias a voz do mesmo homem – numa piscadela ao que hoje tentamos compreender como poliamor.

Não por acaso, um dos moradores é um amor antigo e contrariado de Emma.

Quando todos se instalam na casa, o filme passa por uma mudança brusca entre o sonho e o pesadelo. A fotografia torna-se escura e pesada e as cenas, em vez de amplidão, se concentram em enquadramento de ambientes enxutos, fechados, sem sol. A vida e a morte das relações que murcham ou se iniciam a partir dali são ativadas ou desativadas com uma referência ao interruptor. As relações esmorecidas não querem ser vistas e exigem luzes apagadas.

Outra herança, então, começa a ser construída. Os filhos descolados dos anos 1970 são também pais, e sem perceber começam a criar legados e heranças também indesejadas pelos filhos – a geração seguinte, vista de longe, parecia menos aberta, para não dizer careta, às experiências testadas pelos pais.

Naquela comunidade, a propensão a uma experiência anárquica dá lugar a um controle, mais ou menos rígido, de direitos e deveres por meio de decisões horizontalizadas (lavar os pratos, repor a cerveja, guardar os pertences, adquirir uma máquina de lavar).

O problema é quando as relações afetivas, as que não podem ser resolvidas em grupo ou por votação, começam a provocar ruídos.

O sistema se torna, então, uma diluição forçada de obrigações e responsabilidades da vida a dois e esbarra em uma série de contingências relacionadas ao envelhecimento, parceria, individualidade, potência, sexualidade (em tempo: é nesse momento que o antigo dono da casa esquece o ideal democrático da experiência para lembrar quem é quem manda).

Sob o mesmo teto, todos ali têm uma função: preencher, na vida daquele casal, os espaços que uma relação tradicional não preenche. É quando o altruísmo das relações abertas e destituídas de tabus se converte em dilemas pouco ou nada revolucionários, e os sintomas de um casamento que acabou são disfarçados como sempre foram quando o fim se impõe e não se anuncia: o caso com a aluna mais jovem, o tempo dedicado no bar com amigos, a expansão de desejos de experimentar como a resposta dos desejos inexistentes (num equilíbrio de forças geralmente favoráveis aos homens, a quem o fato de não ser jovem não pressupõe, de saída, a decrepitude).

O saldo não é assim tão diferente da forma como nossos avôs e avós preenchiam os espaços vazios. Ou dos avôs das avós. O sistema de experiências pode ser outro, mas a estrutura segue lá.

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