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Coisas frágeis e últimas

por Rosane Pavam publicado 11/07/2008 15h52, última modificação 16/09/2010 15h55
Minha paixão pelos quadrinhos tem origem certa. Meu pai era ilustrador de revistas e por algum tempo manteve uma tira de humor num jornal de São Paulo, A Gazeta Esportiva. Por conta de sua paixão pelo desenho, e das trocas de gibis ocorridas desde seu tempo de estudante na Escola de Artes e Ofícios, ele me legara um apreço incomum por autores que pareciam almejar mais do que à caricatura das tiras, como o Hal Foster de Príncipe Valente.

Minha paixão pelos quadrinhos tem origem certa. Meu pai era ilustrador de revistas e por algum tempo manteve uma tira de humor num jornal de São Paulo, A Gazeta Esportiva. Por conta de sua paixão pelo desenho, e das trocas de gibis ocorridas desde seu tempo de estudante na Escola de Artes e Ofícios, ele me legara um apreço incomum por autores que pareciam almejar mais do que à caricatura das tiras, como o Hal Foster de Príncipe Valente. Eu gostava do Príncipe justamente porque era um pouco tedioso, estático e indiferente às coisas humanas, ensejando a seu modo um universo de sombras, na contramão das histórias aventureiras tão apreciadas pelos meninos.

Com o passar dos anos, meu pai foi deixando soltos pela casa alguns gibis em que o tosco Homem-Aranha de Stan Lee dava seus primeiros passos. Sobre o sofá estavam os buscapés de Al Capp que incendiavam minha imaginação para a sátira e, por que não, para os dramas passionais da bela Violeta. Ela era a personagem central que falhava ao fazer Ferdinando compreender a dispersão de seus hormônios de amor.

Violeta estava entre Rita Hayworth e Veronica Lake, embora, àquela altura, eu nem desconfiasse que tais atrizes tivessem um dia existido, na tela ou fora dela. Mas eu conhecia Tyrone Power, o senhor Zorro, o
pirata Errol Flynn e o Johnny Weissmüller de Tarzan.

Formei minhas leituras em grande parte graças aos gibis, embora isto não acontecesse de forma usual com as meninas dos anos 60 e 70. Luluzinha, Mônica e Mafalda mal eram percebidas por elas, enquanto eu sofria com a densidade da perseguição operada pelo inspetor de alunos contra o maior amigo-inimigo de Lulu, o Bolinha. Luluzinha era, e de certa forma ainda é, uma leitura fundamental, freqüentemente aterrorizante. O que dizer de subprodutos como Thor e Namor? Gente heróica, gente triste.

Digo tudo isto porque para uma mulher, hoje, parecerá natural que percorra as edições de quadrinhos como quem lê um romance respeitável. As novas histórias seqüenciais, até porque contidas em brochuras luxuosas, são capazes de lhes comunicar uma experiência existencial. Marjane Satrapi (Persépolis), David B. (Epiléptico) ou Alison Bechdel (Funhome) são autores que atingem em cheio uma leitora interessada em perceber coisas como o fundamentalismo em ascensão no Irã, a esquizofrenia ou a dura realidade das famílias chamadas disfuncionais. O universo interior, quando descrito por esses artistas, pode render um terrível prazer aos leitores.

No meu tempo de menina, contudo, o máximo a que talvez pudesse aspirar fosse à inadequação do fracote Peter Parker ou à crueldade e ao sarcasmo que ele exercia quando transformado em Homem-Aranha. Este seria para sempre meu primeiro herói. Batman me parecia muito ruim, então, ou apenas motivo para a paródia do seriado televisivo. Dois garotos subindo uma parede devagarzinho, enquanto Aranha dançava entre os prédios? Que comparação poderia haver entre uma coisa e outra?

E então, nos anos 80, as jovens apareceram agarradas ao universo de Sandman, de Neil Gaiman. Algum tempo depois que ele surgiu, branco e gótico nos desenhos, de palavras negras bem-humoradas e também sensíveis, foi possível ser denso nos gibis, sem que isso parecesse descabido a todos. A revolução de Gaiman foi iniciada por Frank Miller e Alan Moore.

Mas meu apetite para os quadrinhos ditos adultos foi mais estimulado pela escrita primorosa de Robert Crumb e pela ingenuidade bem enquadrada de Will Eisner do que por tudo em Gaiman. Ele promovia uma fantasia excessiva enquanto eu pedia, da arte, um pouco mais de concisão e irreverência. Gaiman não disfarçava a adolescência literária. Tratava a juventude de maneira tão crédula que a tornava desinteressante. O gosto é sempre particular. Que bom que outros tenham lido Gaiman e aprendido a admirá-lo.

Na semana passada, quando estive em Parati para me colocar em um dos dois jantares em sua homenagem, esperava ver um autor que crescera, disposto a promover verdadeira mexida no seu sonho de início. Mas não foi assim que o vi (e por que pensei que assim o veria?). Bastante educado, de uma educação necessária, Gaiman está em busca de solidificar o que já conseguiu. Mudado fisicamente, mostra-se forte, embora um pouco mais abatido, sempre despenteando os cabelos com as mãos.

É muito altivo quando surge uma pergunta que lhe diz pouco. Não a responde, ou volta a ela algum tempo depois, para respondê-la com impaciência. Irônico, anota coisas em um bloco se elas lhe parecem um pouco estúpidas. Jantar em sua companhia, especialmente se este não foi um evento programado pela divulgação de seus livros, e quando não se trata exatamente de enaltecer o que ele faz, pode se constituir uma experiência difícil. Embora não rejeite quem o admire, não é de seu uso a necessidade de cativar alguém.

Aparentemente lembra-se de uma entrevista que fiz com ele em um evento para fãs de quadrinhos, em 1993. Diz-me que, desde então, seu público enlouqueceu mais, e que ele o adora exatamente assim. Admite que o tratem, na vasta audiência, como a um deus, já que esta não parece ser uma coisa que ele possa evitar.

Quem serei eu para contestar tantas ilusões? Gaiman é bastante fiel aos amigos. Gosta de Stephen King tanto quanto de Clive Barker, este, pelo que ele diz, vítima de uma doença de aparente fundo muscular, que lhe rouba o brilho da bela voz. Sua fidelidade à arte de Tom Stoppard é também de imenso valor. Gaiman não fala mal de ninguém. Ama os filhos, um deles programador do Google, outra, fotógrafa eventual de casamentos, e a terceira, mais nova, uma doce menina brilhante, que escreve muito bem.

Fico, dele, com estas coisas frágeis e últimas.