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Cofres, copas e conchavos

por Socrates — publicado 05/03/2011 12h50, última modificação 05/03/2011 12h50
Quase 100% dos 23 bilhões de reais previstos virão de bancos e empresas estatais. Parace não existir iniciativa privada neste país continental

Quase 100% dos 23 bilhões de reais previstos virão de bancos e empresas estatais. Parace não existir iniciativa privada neste país continental
Quando o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, afirmou que a Copa do Mundo brasileira seria da iniciativa privada, só acreditou quem jamais passou perto de qualquer evento esportivo nacional. É tendenciosa toda a sorte de objetivos declarados ou não pelos donos do nosso esporte. Quando lá atrás se inventou a primeira candidatura de uma cidade brasileira para sediar a Olimpíada, várias empresas investiram pesado para bancar a preparação do pleito.
Com a derrocada do sonho, no entanto, nem mesmo uma prestação de contas foi feita para dar respostas aos parceiros de então. Quando se cogitou pela primeira vez trazer uma Copa, elaborou-se um caderno de encargos de dar vergonha a qualquer brasileiro, ainda que ele tenha custado um caminhão de recursos.
Desta vez não poderia ser diferente. Um estudo do Tribunal de Contas da União (TCU) demonstra que quase 100% dos gastos previstos de 23 bilhões de reais (que, certamente, no final das contas serão ultrapassados e muito) virão de bancos e empresas estatais (BNDES, Caixa Econômica Federal e Infraero, por exemplo). Parece até que não existe iniciativa privada neste país continental, uma das maiores economias do planeta.
O pior é que as obras na maioria dos estádios não andam ou estão lentas demais. Isso sem contar que (com honrosas exceções) o planejamento viário, hoteleiro e demais itens fundamentais para a viabilização do evento estão longe de atender à demanda imaginada. Além, é claro, dos erros de projeto e atrasos nas licitações, que, invariavelmente, ocorrem somente para que o cofre se abra sem muito controle da população, a exemplo do que aconteceu no Pan-Americano do Rio de Janeiro.
E os atletas? Esses nem se fala. Estão com o Bolsa Atleta atrasado, como se um indivíduo para correr, nadar, pedalar, treinar, enfim, não necessitasse de recursos para se vestir, morar, se alimentar. Uma bela preparação para o próximo Pan no México e para a Olimpíada de Londres, em 2012.
Puro preconceito
Para que existe a Copa do Brasil? Aparentemente é só uma cópia piorada das copas que se perenizaram nos países europeus e foram exportadas mundo afora. Normalmente, essas competições servem para a integração das diversas regiões do País e das diferentes potencialidades de clubes e municípios que se espalham por todo o território. Clubes grandes e tradicionais visitam rincões onde raramente são vistos a não ser nessas ocasiões, já que disputam torneios diferentes e a capacidade econômica dos centros distantes das capitais financeiras da nação não possuem capacidade de contratá-los para eventuais amistosos.
Só por esse motivo deveriam existir essas tais copas. Entretanto, no Brasil, apesar de haver o encontro dessas diferentes culturas e realidades, os times do Sertão, do Semi-Árido, do interior da Amazônia e outros são impedidos de mandar seus jogos em suas cidades e respectivos estádios. Transferem as partidas para os agrupamentos humanos maiores, em um claro componente discriminatório ou, no mínimo, de intolerância.
Com isso, esvazia-se o sentido dessas competições, que passam a ser apenas um desfilar de equipes do Sul e Sudeste em busca de uma vaga em torneios continentais. Como dizia o poeta: e se o Sertão virar mar? Aí então a lógica transformará o sertanejo em potência econômica e os papéis se inverterão. Mas quem hoje está preocu pado com isso? Que se danem os pequenos, pensa a maioria. Infelizmente, essa é a lei nacional que um dia espero desaparecerá para o bem de todos. A nação agradecerá.
Jogo e golpes
A disputa sobre os direitos de televisão para os próximos campeonatos brasileiros implodiu o Clube dos 13. Com a intensa cooptação de vários clubes por parte da antiga e monopolista instituição e da esperta desfaçatez da Confederação de Futebol, a organização já não tem mais como se manter nos moldes anteriores. O objetivo é que a licitação não aconteça e as negociações já iniciadas (muitas já contratadas) sejam individuais, numa clara tentativa de desrespeitar um órgão tão importante como o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e resgatar o velho monopólio. Se eu fosse da TV Record, estaria atento aos passos do oponente e teria antecipado os acordos com Ceará, Bahia, São Paulo, Atléticos e outros. Teríamos, assim, um impasse que traria para a mesa de negociação quem quisesse participar.