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Cinema para sempre

por Orlando Margarido — publicado 07/08/2011 10h03, última modificação 10/08/2011 17h01
O crítico francês Antoine de Baecque escreve sobre cinefilia e reflete sobre o movimento em torno de cineclubes, tendências cinematográficas e seus realizadores, seus debates, publicações e filmes
Cinema para sempre

Crítico francês analisa a afinidade eletiva com a arte. Por Orlando Margarido. Foto: The picture desk

A morte de François Truffaut em 1984 despertou o estudante Antoine de Baecque para dois fenômenos. O primeiro, o do próprio cineasta francês, sobre quem preparou um necrológio para a Cahiers du Cinéma. O texto lhe garantiu uma contratação na revista de que se tornaria redator-chefe, entre 1997 e 1999, década na qual escreveria, com Serge Toubiana, a biografia definitiva do diretor de Os Incompreendidos. Àquela altura, o historiador De Baecque pesquisava a segunda condição de que trata agora em Cinefilia. A pesquisa lhe foi reveladora. “Comecei como cinéfilo bastante tarde, aos 20
anos”, diz em entrevista a CartaCapital, em São Paulo.

A avaliação soa exagerada, mas dá conta do espírito que permeia a França quando o assunto é cinema. No volume, o autor sintetiza esse comportamento aglutinador, especialmente entre os anos 40 e 60, em torno de cineclubes, movimentos cinematográficos e seus realizadores, debates, publicações da área, e, claro, filmes. É quando surgem a nouvelle vague e os diretores e críticos de posturas ferrenhas, como Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Jacques Rivette e o próprio Truffaut. “Não que o amor aos filmes, a cinefilia como a entendemos, não existisse antes. Ela vem dos anos 20, mas sua época de ouro é a de que trato no livro.”

Duas polêmicas são marcantes nesse contexto. A primeira diz respeito ao “modelo Hitchcock”. “O cineasta era o maior representante para essa turma jovem”, aponta. “Seus filmes permitiam olhar o cinema não mais sob um aspecto de vanguarda, mas como indústria popular onde se poderia encontrar em seu interior um artista.” O grande esforço para reconhecer na época quem é hoje um mestre gerou um paradoxo. “Eles sabiam que Hollywood representava a máquina, a face industrial do cinema, mas precisavam reconhecer nela os bons técnicos, os bons diretores e atores.”

Essa briga levaria à segunda polêmica destacada por De Baecque. “Se aquela turma era ‘por’ Hitchcock, também era contra o ‘cinema de qualidade’ da França. Essa força dual os singularizou na cinefilia e me surpreendeu pela virulência de seus ataques.” O estudioso reconhece que se tratava
de universo de difícil diálogo com o público. “Quando se chega a uma cinefilia mais aberta, popular, é mais complicado medir o contexto”, avalia. “Se hoje perdemos em provocações, discussões acirradas, ganhamos talvez no alargamento da paixão pelos filmes graças a sites e blogs. Apenas é necessário ser mais criterioso nas nossas escolhas perante tanta produção de imagens.”