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Cine Belas Artes pode fechar até o fim deste ano

por Paula Thomaz — publicado 20/07/2010 12h54, última modificação 06/12/2010 12h55
Contrato de patrocínio de sete anos com banco HSBC foi encerrado e o cinema já opera no vermelho

Contrato de patrocínio de sete anos com banco HSBC foi encerrado e o cinema já opera no vermelho

Por Paula Thomaz

Um dos mais importantes e antigos cinemas de São Paulo, o Cine Belas Artes, que viveu anos de glória a partir de sua inauguração, em 1967, e que também passou por momentos dramáticos ao longo de sua existência, acende suas luzes ao fim de mais uma sessão e volta à dura realidade da vida. O cinema teve, recentemente, o contrato de patrocínio com o banco HSBC encerrado e, agora, vive a busca de um novo patrocinador.

É o início uma nova história cujo fim ainda não dá para saber se será feliz. E o roteiro conta com a participação até mesmo dos cinéfilos que, com medo de perder mais um espaço alternativo de cinema, tomaram uma iniciativa inédita na internet e criaram a campanha Salvem o Belas Artes. http://patrocineocinemabelasartes.blogspot.com/

Por essa e outras ações voluntárias em prol do Belas Artes o cineasta André Sturm, sócio e coordenador de programação do cinema, está otimista, embora a sala esteja operando no vermelho – somente o valor mensal de gastos entre IPTU e aluguel gira em torno de 70 mil reais – e corra o risco de ser fechada no fim do ano caso não consiga um patrocinador até julho. “Toda essa reação sobre o fechamento, mostra o valor que ele tem”, diz Sturm.

Esse é um drama que vive os cinemas de rua de São Paulo e esta não é a primeira vez que o Belas Artes passa por essa situação. Em 2002, quando pertencia à distribuidora Gaumont, a sala foi ameaçada de fechar, de perder a programação e, os amantes da sétima arte, de perder um dos melhores cinemas de rua da cidade. “O espaço chegou a exibir o longa Tartarugas Ninjas”, lembra Sturm. Essa foi a motivação definitiva que o cineasta encontrou para tentar intervir de maneira ativa, recuperar o cinema, levar programação original e criar “aquele ambiente do cineclube, onde as pessoas também vão para se encontrar e bater papo, tomar café”, em parceria com a O2 filmes e, por sete anos, a sala incluiu em seu nome a marca do banco HSBC na fachada e na customização do ambiente. “Nós já sabíamos que o patrocínio, pelo contrato, se encerrava este ano. Tudo foi finalizado tranquilamente, sem nenhum trauma.”

É claro que a notícia foi ruim, mas na semana em que o banco anunciou que iria sair, “o guia da Folha escolheu a gente como melhor programação de São Paulo e o guia do Estadão como melhor ponto de encontro.” Para Sturm, é o sonho realizado de um lado e a frustração de outro, de ver o sonho ir por água abaixo.

O cineasta, que começou sua carreira dentro dos cineclubes, entrou no Belas Artes pela primeira vez aos oito anos para assistir com os pais o filme “Meu Tio” (Mon Oncle), do francês Jacques Tati. “Esse cinema faz parte da minha história. Foi onde eu vi muita coisa que faz parte da minha cultura cinematográfica. Nos anos 80, era realmente o templo do cinema em São Paulo. Naquela época, ir ao cinema era uma coisa nova.”

Sturm lembra que nos anos 60 e 70 São Paulo tinha uma programação de filmes de alta qualidade. Foi nessa época em que a sala se notabilizou pela “sessão maldita”, que exibia filmes proibidos pela ditadura como: “Mimi, o metalúrgico”, de Lina Wetmüller; “Sacco e Vanzetti”, de Giuliano Montaldo e “A classe operária vai ao paraíso”, de Elio Petri, frequentada por participantes do movimento estudantil. Já nos anos 90 foram poucas as estreias “boas” e o cinema entrou em decadência. Sturm foi um dos precursores da mudança na qualidade da programação dos cinemas da cidade. “Hoje, São Paulo tem uma programação que só perde para Paris. Não tem nenhuma cidade do mundo que tenha tantos cinemas dedicados a filmes de qualidade, não hollywoodiano. Não tem nenhum filme importante que não estreie em São Paulo”, afirma. E o Belas Artes atua nesse cenário com forte presença.

“Para o patrocinador é um patrimônio muito valioso. Já temos algumas propostas. Uma empresa de porte interessada em se comunicar com São Paulo e em ter o seu nome vinculado a essa marca, ainda mais depois dessa repercussão toda, vai aparecer como salvador, além do ganho a médio prazo. Temos quase 30 mil espectadores mês. Vai ser um ganho duplo. A gente tem algo muito valioso nas mãos”.